Não é só luto pela perda de familiares, mas de emprego, relacionamentos e até de bens materiais

Ponta Grossa atingiu o marco de mil mortos pela Covid-19 em junho deste ano. Especialistas estimam que quando uma pessoa morre, pelo menos três outras entram em luto, ou seja, aproximadamente três mil pessoas vivenciaram a perda de alguém próximo desde o início da pandemia na cidade. Uma das formas de se lidar com a perda são as cerimônias de despedida, mas, com a pandemia, a forma tradicional de despedida sofreu modificações que podem acarretar problemas psicológicos nos familiares e amigos das vítimas de Covid-19. 

O velório, forma mais tradicional de se realizar a despedida, é uma cerimônia feita para os enlutados, como explica a pesquisadora, psicóloga e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte, Maria Julia Kovács.“É um ritual que ajuda a significação do que aconteceu”. Mas esses rituais estão restritos. O Ministério da Saúde recomenda que o velório para vítimas de Covid-19 deve ser feito com caixão lacrado e na presença de, no máximo, dez pessoas, durante uma hora. Antes da pandemia, o tempo permitido, regulamentado pela Anvisa, era de até 24 horas. 

Foto: Jessica Allana/ Arquivo 2019

A psicóloga Adriana Machado Gomes conta que as sessões envolvendo luto são o tema da maioria de suas consultas. “Se a pessoa não tiver oportunidade de ter algum ritual de despedida e entrar em negação, fazendo de conta que não aconteceu, mergulhando no trabalho, por exemplo, vai demorar muito mais para elaborar esse luto. Algumas pessoas podem até desenvolver depressão.” “Eu tenho familiares de uma paciente minha que, como não podiam ir todos ao velório, fizeram uma carreata até o cemitério como forma de homenagem.” Gomes observa que a interação com os familiares e amigos é importante e há diferentes formas de se fazer a despedida, sem precisar ser presencialmente. A psicóloga cita reunião via internet, visita a locais antes frequentados com a pessoa morta e terapia. 

Segundo pesquisa realizada em 2018 pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), 75% dos brasileiros têm muito medo de perder alguém próximo. A pesquisadora Maria Julia Kovács observa que cada um processa de forma diferente a perda de um familiar. “É muito singular. Cada um de nós lida com esse processo de acordo com a idade, o que nós já vivemos de outras mortes e características de personalidade.” 

Em Ponta Grossa, a Rede de Apoio ao Covid-19: Acolhimento, escuta e memórias da pandemia organiza rodas de conversa gratuitas sobre o luto via internet, com voluntários da área de psicologia.

Ficha Técnica
Produção: Jessica Allana.
Professores Responsáveis NRI: Muriel Amaral e Marcelo Bronosky.
Professor Responsável Texto: Marcos Zibordi.

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