Em 2022, novo ensino médio será vigente nos colégios da cidade 

O “novo ensino médio”, medida aprovada pelo Governo Temer em 2017, passa a vigorar de forma definitiva no ano de 2022. Ponta Grossa é uma das cidades que seguirá as mudanças de ensino. Um dos impactos é a redução de oferta de aulas de Educação Física, Arte, Língua Inglesa, Espanhola, Sociologia e Filosofia. Isso não significa que as matérias desaparecerão da grade. A nova configuração permite maior flexibilização curricular, contudo leva as instituições de ensino a diminuir as aulas das disciplinas que trabalham a crítica reflexiva dos estudantes.

Ignes Amorim Figueiredo, pedagoga no Colégio E. Senador Correia e José Elias da Rocha, explica que os professores dessas matérias optativas acabam não tendo campo de trabalho no Ensino Público. “A consequência serão centenas de milhares de profissionais migrando para a iniciativa privada, e essa com certeza não vai suprir a demanda”, avalia. Para ela, o ensino na cidade será prejudicado pela desistência de estudantes e falta de estruturas adequadas. Além da falta de investimentos, existe pouca integração entre os conteúdos que são – e precisam ser – ensinados. 

Além disso, o “novo ensino médio” tem como proposta contratar profissionais com notório saber e não necessariamente professores licenciados e especialistas, ou seja, pessoas consideradas qualificadas que possuem um nível de conhecimento equivalente àquelas com diploma acadêmico da área. “Muitos professores pesquisadores serão substituídos por profissionais com notório saber recebendo bem menos. É a chamada precarização do ensino”, pondera Ignes.

Para o professor de Filosofia da rede estadual e doutor em Educação pela UEPG, Regis Clemente da Costa, o notório saber é uma das alterações na legislação mais contraditórias, porque um profissional da educação precisa de formação como qualquer outro profissional. Segundo a lei, está previsto que a pessoa vai precisar realizar uma prova perante uma banca e comprovar o conhecimento na área que deseja atuar. “Aí que está a grande questão que nós levantamos, para que aceitar uma pessoa com notório saber se podemos investir na graduação, nas licenciaturas e na formação de qualidade dos professores?”, questiona. 

O professor avalia que mesmo com notório saber a pessoa não é um profissional que passou pela academia, pela graduação, e que teve contato com a teoria ou com estágios na área. “É uma alteração na lei que comprova as intenções de precarização da educação, no que diz respeito à qualidade”, expõe. 

Outro problema é que a proposta não foi discutida com a classe de educadores, os quais não sabem qual metodologia de ensino será desenvolvida para aprendizagem do aluno. “A SEED nivela  como se todos fossem iguais e  impede os professores de exercermos a nossa função de mediar o processo Educacional”, declara Ignes, questionando a falta de autonomia dos profissionais da educação.

O impacto subentendido da reforma 

A pedagoga deixa claro que os alunos de baixa renda sairão mais prejudicados pela reforma porque, para essas famílias, tem sido cada vez mais difícil manter os filhos adolescentes estudando. Em boa parte do tempo, eles precisam trabalhar e ajudar em casa. “De forma direta, os alunos terão menos acesso a uma educação integral, formadora e reflexiva, passando a ter mais uma formação superficial e técnica, voltado ao trabalho comum, subalterno. De forma indireta, os alunos de baixa renda não terão chance de mobilidade social. A educação deixará de ser uma oportunidade de ascensão social”, lamenta Figueiredo. 

A Educação à distância na reforma 

A reforma do ensino médio também contará com a educação à distância, já que parte de sua carga horária pode ser concluída por meio do EAD. Como detalha a proposta, a carga horária pode ser dividida em: 20% no ensino diurno; 30% no ensino noturno e 80% para a educação de jovens e adultos. 

De acordo com Ignes, os colégios podem privilegiar o ensino técnico diurno, fechando as turmas noturnas destinadas ao EJA, deixando os alunos que estudam no período da noite, prejudicados. “Em Ponta Grossa, como todo estado do Paraná, vários colégios estaduais foram transformados em Cívico-Militares com a condição de fecharem o ensino noturno. Vários alunos que trabalham não poderão mais estudar”, explica a pedagoga.

Reportagem: Gabriella de Barros

Supervisão: Professores Fernanda Cavassana, Manoel Moabis e Marcelo Bronosky

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