O Governo Federal prevê novas parcelas do auxílio a partir de março de 2021, com restrições de beneficiários e valor reduzido

Uma terceira rodada do auxílio emergencial e o reajuste do valor já foi confirmada pelo presidente Jair Bolsonaro a partir deste mês. A previsão do governo é de que apenas 40, dos 60 milhões que recebiam, devem receber as parcelas. Para isso, o Ministério da Cidadania deve fazer uma nova seleção, com a possibilidade de priorizar as menores rendas e retirar os segurados da Bolsa Família, visto que já recebem um benefício federal.

Nesse cenário, em Ponta Grossa, pelo menos 10.853 pessoas deixarão de receber.  O valor da nova rodada ainda não foi definido mas, de modo geral, a nova folha orçamentária não pode passar de 30 bilhões, segundo estimativas do governo.

Corte evidencia a desigualdade na pandemia

Segundo a Prefeitura Municipal, em Ponta Grossa, 94.070 pessoas deixaram de receber o auxílio no início deste ano. O auxílio emergencial foi disponibilizado para a população vulnerável no início da pandemia da covid-19 no Brasil. O benefício financeiro contribuiu para que 66 milhões de pessoas pudessem passar pela crise econômica e sanitária com mais dignidade. De acordo com o Ministério da Cidadania, a estimativa é que o benefício chegou a 60% da população brasileira. No entanto, o economista do grupo de Macroeconomia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Karlo Marques, afirma que mais da metade dos gastos destinados para o auxílio em 2020 não foram direcionados às pessoas que, de fato, estavam em uma situação de risco econômico.

O Brasil chegou ao recorde de desempregados em novembro de 2020, 14,1 milhões, ante 12,3 milhões no período anterior à pandemia. Em Ponta Grossa, cerca de 20 mil pessoas estão desempregadas atualmente, com aumento de 5 mil em comparação ao mesmo período do último ano. Para algumas dessas pessoas, o auxílio emergencial era a única segurança financeira.

Denise de Fátima Vargas, 45 anos, é uma das pessoas que deixou de receber o auxílio. A catadora de materiais recicláveis tinha como renda mensal os R$ 600 disponibilizados pelo Governo Federal. Em agosto de 2020, Denise descobriu que estava com câncer de pele, doença que segundo a catadora pode ter sido estimulada pelos anos de trabalho exposta ao Sol. Por conta do câncer e dos riscos que o trabalho nas ruas oferece, passou os últimos meses do ano apenas com o dinheiro do auxílio emergencial. “[O benefício] ajudava muito. Eu preciso criar a minha filha. Hoje, a gente vive com o dinheiro da venda de verduras da nossa horta e, às vezes, ele [marido] trabalha de segurança”, conta.

O alto número de desempregados na cidade fica ainda mais evidente com a alta oferta diária da Agência do Trabalhador. Para Karlo, a cobrança por especialização sem o subsídio da educação pode ser o motivo para este desequilíbrio. “A gente tem uma deficiência no nível de formação educacional e técnica da maior parte da população e isso faz com que se tenha, ao mesmo tempo, desempregados e vagas que demandam habilidades técnicas que não são preenchidas”, avalia. Segundo o economista, no processo mais acelerado de crescimento, entre 2005 e 2010, passamos pelo apagão de mão especializada e que, hoje, a solução passa pela melhoria do processo educacional, do ensino básico ao técnico.

Ponta Grossa não tem previsões de novos repasses financeiros

De acordo com a Prefeitura Municipal, a curto prazo, apenas assistência às situações de vulnerabilidade com relação à segurança alimentar, documentação civil e demais situações relacionadas ao acesso à políticas sociais de inclusão têm continuidade, através dos Centros de Referência da Assistência Social (Cras). No momento, está em regulamentação apenas o decreto 13.009/2017, que dispõe sobre o Sistema Único de Assistência Social no município, com o objetivo de rever os critérios de acesso para cada benefício, para ampliar situações não contempladas atualmente na Lei.

Tanto a área de bem-estar social quanto econômica dependem do fim da pandemia e do retorno seguro das atividades. Para o economista Karlo Marques, o único caminho eficaz no momento é a imunização em massa, qualquer outro caminho será paliativo, mas explica que é necessária uma intervenção. “Na economia não existe nada sem custo. Por outro lado, não se pode esperar passar por uma pandemia dessa magnitude sem custos. Então é de se esperar que a gente tenha uma redistribuição de renda e de recursos”, afirma.

Confira a entrevista na íntegra com o economista do Grupo de Macroeconomia da UEPG, Karlo Marques:

Produção: Bruna Kosmenko
Professores responsáveis: Fernanda Cavassana, Manoel Moabis e Marcelo Bronosky.

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