Revista Nuntiare

O uso de cadáveres na ciência 

A anatomia humana é um componente da Biologia humana que estuda e entende a estrutura do corpo. Etimologicamente o termo vem do grego: Ana significa parte e Tomia corte.  A principal técnica de estudo na anatomia advém da necessidade de dissecação. O método consiste no corte de partes do corpo na tentativa de entender sistemática e visualmente o funcionamento, os padrões e as estruturas do corpo.

Conceitualmente, as primeiras dissecações de corpos-humanos são datadas em Alexandria (Egito), realizadas ainda no século II a.C Posteriormente a Igreja Católica proibiu estudos relacionados ao uso do corpo humano e debilitou drasticamente os conhecimentos relacionados ao campo. Mais tarde, durante o Renascimento, período conhecido como libertação das artes e ciência os estudos referentes à anatomia humana retornaram com muita força. Os Professores doutores Marcos Cesar Danhoni Neves e Josie Agatha Parrilha da Silva estudam a história da ciência e mencionam dois importantes nomes para os estudos da anatomia: Leonardo Da Vinci e Vesalius. 

Vesalius, médico de Bruxelas considerado o pai da anatomia moderna. Em seus relatos denuncia que os médicos, no século XVI, desprezavam a obra da mão, ou seja, apenas supervisionavam os enfermeiros, farmacêuticos e os barbeiros, que de fato atendiam os pacientes. Assim, o estudo da anatomia humana foi enfraquecido. “Todo o trabalho cirúrgico era destinado aos iletrados, em geral, barbeiros e enfermeiros.”

Silva e Neves mencionam que Vesalius não recebeu aulas práticas de anatomia, diferente de seus colegas, que realizavam dissecações de corpos humanos. O médico frequentava cemitérios e trabalhava com ossadas de criminosos e vítimas de pragas. “Suas dissecações e suas críticas à medicina e aos médicos tradicionais, fizeram com que ele fosse denunciado à Igreja. Foi condenado a realizar uma viagem até a Terra Santa (Jerusalém). Porém, ao empreender a viagem de retorno, seu navio afunda próximo à ilha de Zakynthos. Isolado, ele morre de fadiga e fome na ilha.” afirmam.

Vesalius morreu no mesmo ano que o famoso artista Michelângelo (1475- 1564) que, como ele, buscava corpos em cemitérios para suas pesquisas. A Itália foi berço do Renascimento, movimento cultural, econômico e político inspirado nos valores da antiguidade clássica. Eram características marcantes do período o racionalismo, experimentalismo e antropocentrismo. Havia uma grande tensão, em especial pela questão de colocar o homem como foco das discussões, o que se contrapunha a teologia cristã.

Leonardo da Vinci (1452-1519) foi criticado pela Igreja porque fazia estudos  em corpos humanos. “Leonardo mergulhará no macro e no microcosmo: pesquisará os recônditos da natureza humana pelo árduo trabalho da Anatomia. Escolado no trabalho da dissecação de seus pássaros, estudará mais de 30 corpos humanos: homens, mulheres, velhos, crianças e fetos. Chegou a descobrir a causa mortis de um senhor de quase 100 anos: ao verificar as artérias do coração verificou uma matéria esponjosa! Era aquilo que chamaríamos séculos depois de arteriosclerose.”, finalizam.

Mesmo após os estudos do crânio e do corpo humano, 30 anos depois, a medicina ainda usa as imagens como parte da arte da memória, a qual denominava órgãos, mas nada sabia de suas reais posições e funções no corpo.

Em relação ao corpo, mantinham-se as ideias medievais propagadas pela igreja: o homem era criado à imagem e semelhança de Deus, composto de corpo e alma. O sofrimento advindo de doenças do corpo fazia parte da vida do homem. “O corpo expressava o padecimento dos pecados, e as doenças eram representadas no sentido mais espiritual do que carnal, ou seja, o corpo sofria a dor da alma. Quanto mais tempo o corpo permanecia doente, mas o ser purificava o espírito. Os padres seriam os médicos da alma.”

Os médicos não podiam trabalhar com corpos humanos. Mesmo assim, Leonardo estava preocupado em utilizar os corpos para estudos artísticos, enquanto Vesalius, para estudos científicos. Enfrentaram situações adversas para pesquisar o corpo humano. Na época não existiam máscaras, luvas e formol. O trabalho tinha que ser realizado de forma rápida, logo após o falecimento.  “Foram punidos, mas seus trabalhos imortais compõem uma das mais belas aventuras em direção a construção do conhecimento humano, livre das amarras da censura e da hipocrisia de uma época.”

Atualmente a doação do corpo pode ser em vida ou depois da morte. No Paraná existem duas opções: doar para uma Instituição de Ensino Superior específica ou para o Conselho Estadual de Distribuição de Cadáveres (CEDC). 

O Órgão é responsável pela distribuição dos corpos entre as IES credenciadas. De acordo com o site do Conselho, existe um ranking para recebimento atualizada anualmente, alterna-se entre as IES com e sem Medicina. Quando uma instituição recebe um cadáver, passa para o último lugar, garantindo um rodízio. 

 

Os critérios para distribuição entre as universidades são: 1) Número de cursos da IES que tenham disciplina de Anatomia Humana; 2) Número de alunos matriculados na disciplina de Anatomia Humana; 3) Carga horária da disciplina de Anatomia humana; e 4) Ano de criação do curso. Entre 2009 e 2016, o conselho distribuiu 31 corpos no Paraná.

O professor de anatomia José Fabiano Justus é membro do CEDC, e explica que as aulas sobre o corpo humano são dividas em exposição das principais estruturas anatômicas,  contato com os modelos didáticos e um terceiro momento. “No meu ponto de vista o terceiro momento é o mais importante que é quando o aluno tem a oportunidade de visualizar nos cadáveres as estruturas que foram estudadas. Existe o que chamamos de variações anatômicas, nós temos diversas variações de caminhos, vasos sanguíneos, nervos e estruturas.”, explica. Essas peculiaridades fazem com que o profissional consiga compreender a individualidade do ser humano.

Pensando na educação e na ciência, Tania Mara Daver Santos, coordenadora do colégio Sant’ana e Regente Feijó, está preparando a documentação para doar o corpo para estudos. Ela se interessou quando a UEPG estava fazendo um convite sobre o tema, e tinha uma oração do cadáver, o que comoveu Denver. “Fiz um jantar em casa, convidei os professores e o Fabiano me explicou como funciona, as normas, o que é necessário. Sempre fui doadora de órgãos e imaginava cremar o corpo para não agredir a natureza.”

“Fiquei pensando: porque não ajudar a ciência? As universidades têm essa necessidade. Isso mexeu comigo, ainda mais que a UEPG nunca teve um cadáver feminino. E quando eu comento as pessoas ficam HORRORIZADAS muito pela crença porque tem que voltar da forma como DEUS Mandou e depende da fé de cada um.”

 

Ética

Na UEPG, como explica Justus, todos os professores antes de levar os alunos ao laboratório cadavérico fazem uma exposição sobre a origem dos corpos, sobre a importância do cadáver para a instituição e como tratar esse corpo. “Nós temos fixado no centro cadavérico um texto, explicando que o cadáver quando indigente passou pela sociedade como um desconhecido sem importância, porém se fizermos a conta de quantos alunos se formam na UEPG por ano e há quanto tempo ele está servindo para estudo, talvez tenha sido uma das pessoas mais importantes da nossa época.”, revela. 

 

Os cadáveres na UEPG e a Liga acadêmica

 

Segundo o professor José Fabiano existe um número reduzido de cadáveres, por isso existe a campanha de doação. No site da campanha há informações sobre como doar e quais documentos são necessários. 

O último cadáver chegou na universidade em dezembro de 2018, por meio do Conselho. Antes, faziam setes anos que a Universidade não recebia um cadáver. Justus explica que a pessoa pode ter vontade de doar, mas quem efetivamente vai fazer a doação é a família, nem sempre a família entra em acordo.

“Chegando na IES é necessário fazer um procedimento de injeção de formol para que a peça não estrague, depois o cadáver fica imerso no formol por, no mínimo, três meses para que podermos iniciar qualquer processo de dissecação.” completa.

 

A Liga acadêmica de dissecação (LAD)

A liga acadêmica de dissecação foi fundada em 2017 com o objetivo de melhor efetivar as dissecações na UEPG. “Elas já aconteciam na forma de um projeto de ensino, porém os alunos sentiram a necessidade de oficializar a criação desse grupo para que pudéssemos atuar de forma mais autônoma dentro da UEPG”. A liga serve para arrecadar fundo e adquirir materiais para as atividades, oportunizar eventos e mostras do trabalho para sensibilizar a comunidade para a importância da doação de cadáveres.

Marcos Procopio estuda Licenciatura em ciências biológicas e é o presidente da Liga, ele explica que o projeto preparada o cadáver, assim, todos os alunos dos cursos da saúde podem usufruir e aprender. Fazem parte da Liga seis alunos de ciências biológicas e educação física. No dia 1º de abril começou a dissecação do segundo cadáver com mais seis alunos. No entanto, a forma de estudar a disciplina varia muito, o estudante diz que os cursos de licenciatura pensam na anatomia de uma forma pedagógica e didática. Os cursos de bacharelado em Educação Física, Enfermagem e Medicina por exemplo, tendem a apresentar técnicas diferentes, segundo Marcos eles “estragam tudo” se referindo aos diversos cortes feitos para entender tanto a anatomia externa quanto interna do corpo humano.

A dissecação de um cadáver depende da quantidade de alunos e professores envolvidos. O primeiro corpo em que a LAD entregou ao setor levou mais de um ano. “Nossas reuniões e processos de dissecação acontece uma vez por semana entre duas a três horas devido ao poder irritante do formol. Por isso o processo leva muito tempo. Nós preferimos fazer um trabalho mais minucioso para preparação de peças didáticas. assim,  qualquer aluno e professor da universidade pode aprender com a peça.”

 

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