Revista Nuntiare

“Tudo que a pessoa vivencia em sua vida interfere nos sentimentos de insatisfação e de frustração que esta desenvolve”

As experiências vividas são fatores chaves no desenvolvimento da insegurança emocional

Ana Flávia Aranna

“Não sou capaz de fazer isso”, “Mesmo que eu tente, sei que vai dar errado”, “Não me sinto bem com a minha aparência”, “Sofri com piadas a respeito da minha aparência desde a infância”. Você, provavelmente, já ouviu alguém dizendo algumas dessas frases ou você já deve ter falado algumas delas. Todas essas afirmações e contestações, junto com inúmeras outras, podem ser consequência de um problema chamado insegurança emocional.

Mas o que é a insegurança emocional? 

A psicóloga Bianca Elisa Kubiak explica que a insegurança emocional é ter sentimentos de inferioridade e de incapacidade de realizar certas ações e tarefas do dia-a-dia. “Uma pessoa que tem insegurança, sempre acha que todas as pessoas são superiores a ela”. Ela ainda comenta que essa insegurança pode surgir por uma série de fatores.

Há muitas pesquisas que abordam o tema de insegurança emocional. Um exemplo, é o estudo realizado pela enfermeira Cecília Lottermann, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No documento a enfermeira aponta que  “o indivíduo inseguro emocionalmente pode apresentar-se ansioso, tenso, angustiado, desconfiado, com medo, raiva ou temor”.

A psicóloga Bianca aponta que tudo que a pessoa vivencia em sua vida, interfere nos sentimentos de insatisfação e de frustração que esta desenvolve. Bianca apresenta dois exemplos que podem gerar casos de insegurança emocional, são eles a perda de um ente querido e casos de bullying contra uma criança. “Nesses casos, a pessoa pode achar que é incapaz de realizar certas coisas e certas tarefas. Temos muito medo de sermos criticados ou rejeitados, e o medo, mesmo sendo um mecanismo de proteção para algumas coisas, para algumas tomadas de decisões e algumas ações, pode, de maneira inconsciente ser prejudicial”.

A psicóloga comenta ainda que os traumas da infância são muito prejudiciais, pois nessa época é mais difícil de compreender o que se passa. “Muitas das inseguranças vem do tempo em que éramos crianças e naquele tempo não tínhamos a maturidade para lidar com certas situações que hoje a gente conseguiria”.

O psicanalista e professor Daniel Frances, reforça o ponto de que a maioria das inseguranças emocionais surgem na infância “do momento em que você está na barriga da sua mãe você já tem uma criação de sua estrutura espiritual e humana e aí vem as fases de estado de espírito. A medida que você vai crescendo, a forma com que seus pais te tratam, a família te trata, a escola te trata, o bullying, tudo isso vai gerando insegurança”.

A estudante de farmácia Isabella (nome fictício no intuito de proteger a fonte, que prefere não ser identificada), hoje com 20 anos, é uma das milhares de pessoas que convivem com a insegurança emocional. Ela afirma ter sofrido bullying durante o período escolar, de colegas e até mesmo de membros da família devido a características de sua aparência, o que gerou inúmeros problemas com auto-estima e saúde.

Isabella conta que percebeu que tinha problemas com auto-estima desde muito nova. “Isso tudo começou bem cedo por volta de uns 10/11 anos, quando meu corpo começou a se desenvolver. Mas logo percebi que era diferente, pois era longe do que era considerado “normal” na época. Percebi que era diferente, muito mais alta e muito mais magra e até então, estava tudo bem para mim”, afirma.

Em seguida a estudante comenta que não observava nada de errado em sua aparência e seu desenvolvimento, porém, isso começou mudar quando começaram a surgir críticas e comentários maldosos em relação a sua aparência. Isabella relata, “o problema foi que para o restante das pessoas não estava tudo bem. Para eles, de alguma forma, aquilo – altura – chamava a atenção. As pessoas falavam coisas para mim, assim como vinha a mente deles, sem medir palavras,  com risadas, xingamentos e até mesmo comparações. Tudo isso de forma perturbadora, que fazia com que eu não me sentisse bem em ser quem eu era”.

Essas situações ocorreram no período de desenvolvimento de Isabella ainda na infância, ela ilustra a situação dentro da escola, “as ofensas vieram da sala de aula – eram os piores momentos – e até mesmo na  minha própria família, havia quem fizesse esse tipo de julgamento. Eram muitas piadas devido a altura. Eu sempre fui a maior da classe, a maior entre as irmãs e os primos, sempre e é claro que isso gerava situações de desconforto do tipo “para trocar uma lâmpada não precisa de escada”.

As situações que Isabella relata, são consideradas bullying. Em 2016, a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (organização intergovernamental regional autônoma), em parceria com o Ministério da Educação, fez um Diagnóstico Participativo das Violências nas Escolas, que identificou que 69,7% dos jovens entrevistados já presenciaram algum tipo de agressão dentro das escolas. Entre elas, agressão verbal, física, discriminação, bullying, furto, roubo ou ameaças.

O que é Bullying ou Violência Sistemática?

“Minha altura logo começou a abrir espaços para outras coisas, como para o cabelo “ruim”. As pessoas me diziam coisas do tipo “o pente vai te pagar” e entre outras coisas, que viraram cotidianas na minha vida, junto com os comentário sobre a minha magreza”, desabafa Isabella sobre alguns dos comentários que conviveu durante o período escolar.

Em 2015, foi criada uma lei para combater o bullying dentro do ambiente escolar. A lei n° 13.185, de novembro de 2015 prevê que “todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.” é considerado Bullying (Intimidação Sistemática).

O Artigo 2° da Lei elenca quais ações se enquadram na Intimidação Sistemática, são elas: ataques físicos, insultos pessoais, comentários sistemáticos e apelidos pejorativos, ameaças por quaisquer meios, grafites depreciativos, expressões preconceituosas, isolamento social consciente e premeditado e pilhérias.

O Artigo 3° apresenta as diferentes formas que o bullying pode ser identificado, são elas: verbal: insultar, xingar e apelidar pejorativamente; moral: difamar, caluniar, disseminar rumores; sexual: assediar, induzir e/ou abusar;  social: ignorar, isolar e excluir; psicológica: perseguir, amedrontar, aterrorizar, intimidar, dominar, manipular, chantagear e infernizar; físico: socar, chutar, bater; material: furtar, roubar, destruir pertences de outrem; virtual: depreciar, enviar mensagens intrusivas da intimidade, enviar ou adulterar fotos e dados pessoais que resultem em sofrimento ou com o intuito de criar meios de constrangimento psicológico e social.

A Lei também prevê a capacitação dos profissionais da área de Educação para melhorar o atendimento aos alunos que passam por essas situações e impedir que elas aconteçam. Além de impor a implementação e disseminação de campanhas de educação, conscientização e informação sobre o tema. Outros dois itens que merecem destaque e atenção é a obrigatoriedade de orientação aos pais, familiares e responsáveis diante da denúncia desse tipo de violência e  a assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e aos agressores.

O bullying é um dos fatores que causam insegurança emocional e ocorre, geralmente no ambiente escolar, porém as consequências na vida de quem sofre esse tipo de violência podem persistir por toda a vida. Este é o caso da estudante de farmácia Isabella.“As inseguranças que carrego hoje em dia, são derivadas de todo esse bullying que sofri. Para tentar fugir de todos esses fantasmas e na busca de recuperar minha auto estima, eu mudei tudo que pude, diante do reflexo que via no espelho. Mudei, principalmente, o  meu cabelo e meu peso, porém sigo frustrada, porque todas essas mudanças parecem em vão. Já que jamais poderei mudar minha altura!”.

Da infância para a vida

Os impactos da experiências vividas perpassaram a infância e trouxeram problemas para a vida adulta da estudante de farmácia, Isabella. “Esses comentários eram ouvidos e absorvidos por mim, dia após dia na minha fase de formação como pessoa,  e isso afetou muito minha vida. Me afetou não só na época em que eu deixava de realizar atividades normais, como usar cabelo solto, ou usar determinados tipos de roupas, mas principalmente em relação a minha postura”.

Isabella conta que desenvolveu problemas físicos por ficar arqueada para não parecer ter a altura real, “não falo só da cabeça baixa por medo de encarar todos aqueles comentários, mas também da minha postura corporal. A altura que tanto me assombrou fez com que eu perdesse a postura cada vez mais. Com o intuito de não parecer tão grande, vivia arqueada ou então apoiada de forma inadequada e isso me afeta até hoje,  com um desvio na coluna por minha falta de postura, desde ainda criança”.

Além da dor física, as inseguranças emocionais também atrapalham a vida em outros setores, “fiz apenas um vestibular na vida e  não tive êxito, isso fez com que me fechasse para isso e não acreditasse no meu potencial. Entrevistas de emprego são sempre muito difíceis pra mim, ainda mais com profissões que lidem diretamente com o público”, afirma Isabella.

Questões de autoestima são problemas que afetam vários setores da vida cotidiana do ser humano. E muitas dessas inseguranças e dos ataques em forma de bullying, vem das imagens estereotipadas e dos padrões de beleza impostos há anos pela sociedade.

Mulher e sociedade 

A psicóloga Bianca Elisa Kubiak explica que a sociedade desenha o formato de uma beleza ideal e impõe que as mulheres sigam esse padrão, quando isso não ocorre, surgem os problemas com autoestima.  “É importante dizer que vivemos em uma sociedade consumista, que muitas vezes há o excesso de preocupação com a beleza, desnecessária, pois o conceito da beleza é bem relativo. Mas caso uma pessoa não entre nesses padrões , pode ocorrer a insegurança, insegurança pelo não reconhecimento dos outros, sentimento de não capacidade, de não acreditar em si, angústia, pessimismo e ansiedade, que podem levar a depressão”.

A psicóloga Bianca Kubiak ainda completa “a busca pela beleza ideal pode resultar em prejuízos emocionais, prejuízos físicos e sociais, devemos nos entender então, com a nossa beleza real e aprender a aceitá-la, pois a aceitação nos traz mais segurança”.

Isabella relata sua experiência em relação a isso, “a sociedade prega essa coisa de mulher frágil ou ainda segundo a estatura  “a mulher, obrigatoriamente, tem que ser menor que o homem”. Sendo assim minha relação com outras pessoas é sempre de insegurança. Eu acredito, sempre, que as pessoas possam ter vergonha de andar comigo na rua, contínuo, deixando de fazer coisas normais como sair, conhecer pessoas novas e fazer amizades. Eu vivo com isso, de sempre me achar inferior, por não me encaixar nos padrões”.

Na tentativa de se descobrir e viver bem consigo mesma, a estudante Isabella passou a encarar os problemas de uma maneira diferente,  “hoje em dia eu entendo que tenho que me aceitar e amar exatamente como sou. Sendo uma mulher de 20 anos com 1,78 m de altura e que está tudo bem, sim! Que isso não vai definir minha capacidade mental e nem sentimental. Eu posso conseguir o emprego que eu quiser, eu posso amar e ser amada, não vai ser sociedade nenhuma que vai mudar isso. Eu ainda tenho muita insegurança e isso é uma luta diária, mas já me sinto muito orgulhosa por ter vencido todas essas batalhas”.

Outras situações que podem causar insegurança emocional

Há outros fatores que causam insegurança emocional, como a presença de uma doença na família. A pesquisadora Cecília Lottermann, aponta em seu estudo que a presença da “doença provoca uma mudança na vida normal do indivíduo que poderá ocasionar, entre outras coisas, um distúrbio de autoimagem e autoconceito, abalando sua segurança pela conscientização de sua vulnerabilidade”.

Além disso, Cecília destaca que o ambiente hospitalar impessoal, a solidão, falta de dinheiro para pagar o hospital, medo da dor, de ser manuseado, de dar trabalho às pessoas, da dependência física, de perder o autocontrole, são sentimentos que expressam insegurança. A autora destaca que junto com esses fatores vêm a ansiedade, “a ansiedade que sempre acompanha os processos patológicos, aparece provavelmente porque qualquer doença significa falha do organismo e uma falha completa significa morte.

O psicanalista Daniel Frances, aponta que a insegurança emocional, também pode levar o indivíduo a vícios, “basicamente, tem pessoas que acham que se soltam quando bebem, na verdade é um “eu” que não consegue transparecer verdadeiramente no dia-a-dia e que o álcool libera, na mesma maneira então a propensão às drogas, como cocaína, êxtase”. Ele ainda destaca que é por isso, essas drogas se transformaram em drogas tão fortes perante a juventude, principalmente  a partir da década de 80 para frente.

Um dos maiores problemas com vícios no mundo, é a questão do alcoolismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o álcool mata todos os anos, cerca de 3,3 milhões de pessoas no mundo, o que representa cerca de 5,9% das mortes. Esses dados também mostram que o consumo de álcool no Brasil aumentou 43,5% de 2006 para 2016. O alcoolismo pode ser causado por insegurança emocional e pode causar essa mesma insegurança aos indivíduos ao seu redor.

Há um estudo realizado pelas pesquisadoras: Professora Doutora Joseane de Souza, Professora e Mestre Daniela V. Zanoti Jeronymo e Professora Doutora Ana Maria Pimenta Carvalho, onde elas estudam as consequências da doença no ambiente familiar. Segundo o levantamento 58% dos cônjuges apresentam risco de desenvolverem distúrbios mentais, dificuldades no relacionamento familiar e agressividade.

Já nas crianças, as estudiosas perceberam a “predominância de sentimentos de insegurança e inadequação associados à depressão, apatia e repressão, rebaixamento de auto-estima, alto índice de carência afetiva, com a utilização de defesas como a negação de problemas, evidenciando empobrecimento na capacidade de solucionar problemas, isolamento e maturidade precoce”.

A pesquisa também observou a influência de pais alcoólatras na vida das crianças divididas por gênero. O resultado foi “as crianças do sexo feminino, filhas de alcoolistas, apresentaram mais sinais emocionais e problemas comportamentais que as meninas filhas de não-alcoolistas. Segundo a percepção das mães, as meninas filhas de alcoolistas são agitadas, impacientes, briguentas, irritáveis, desobedientes e agarradas à mãe”.

Como identificar um indivíduo com insegurança emocional?

A psicóloga Bianca Kubiak aponta como identificar um quadro de insegurança emocional, “existem algumas práticas que revelam a insegurança emocional como a inveja, o ciúmes, a dependência emocional, a baixa autoestima, a baixa autoconfiança, raiva e a vulnerabilidade.”

No estudo de Cecília Lottermann, Enfermagem e Segurança Emocional, a autora também elenca alguns dos sintomas emocionais causados pela insegurança, são eles: mudanças frequentes de posição corpórea; insônia; vontade natural de comer ou de obter determinada satisfação orgânica ou espiritual exagerada; movimentos constantes das mãos, membros inferiores ou superiores; incoordenação de movimentos; tremores; desatenção; dispersão; falta de participação; alteração do fluxo da linguagem; gagueira momentânea; perguntas ou respostas bruscas; falar gritando; choros; risos aparentemente imotivados; diarreias; constipação intestinal; eliminação vesical constante; elevação da pressão arterial, pulso e temperatura; sudorese; náusea; vômitos e outros.

Além disso, o psicanalista Daniel Frances, aponta que o indivíduo que sofre com a insegurança emocional, tem dificuldades para seguir com a vida, “a pessoa que é insegura, ela logicamente, vai paralisar sua existência, você acaba, conforme o grau dessa frustração, dessa insegurança , você acaba paralisando sua vida, o medo da rejeição da crítica, ele, no inconsciente do ser humano, ele acaba se agravando a níveis altíssimos”.

Por isso é importante ressaltar a importância de tratar essas inseguranças emocionais, pois elas podem acarretar em uma série de situações das mais simples até as mais complicadas, onde a própria pessoa ou os indivíduos que vivem ao seu redor podem sair prejudicados.

Os profissionais em psicologia e psicanálise dão dicas de como amenizar o impacto da insegurança emocional na vida dos indivíduos

A psicóloga Bianca Kubiak apresenta algumas ações que podem ajudar a lidar com a insegurança, “há algumas maneiras para tratar a insegurança emocional, como elevar a autoestima, se auto-conhecer e questionar essa insegurança, dando o tamanho certo para ela. Vale pensar também que cada medo superado se torna um aprendizado para novas experiências”.

Segundo Bianca a pessoa que é insegura emocionalmente, precisa se perceber de outra forma, de uma forma mais positiva, dando ênfase às suas qualidades e se aceitando acima de tudo. “Não tem problema de errar, porque não somos perfeitos, e todo mundo erra, quanto mais segura a pessoa é, mais difícil fica será para ela alcançar a realização pessoal. O melhor é concentrar-se nas suas forças, confiar em si mesmo, se culpar menos, parar de se comparar com os outros”.

O psicanalista Daniel Frances aponta que o combate a essas inseguranças devem ser feitas de forma gradativa e destaca a importância da terapia, “eu sempre digo, todo ser humano precisa fazer terapia, nem que seja terapia de grupo, quem está na universidade deveria fazer terapia, todos deveriam. Porque nós somos neuróticos pela própria sociedade em que nós vivemos, a gente compete com máquinas, com uma sociedade que deseja seres perfeitos, inigualáveis, que mereçam ganhar o oscar ou um nobel”

O psicanalista Daniel também destaca alguns pontos que podem ser trabalhados individualmente para amenizar a insegurança “você tem que passar por um processo de autoconhecimento de rever todas as crenças que você tem, perceber que os pensamentos que você produz, a forma com que você age”. Segundo os especialistas Daniel e Bianca, o autoconhecimento é o melhor caminho para desconstruir essas inseguranças emocionais.

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