Revista Nuntiare

OMS aponta movimento antivacina como uma ameaça para a saúde

Redes sociais contribuem para a popularização e globalização do movimento

Ana Lopes e Rafaela Martins

Em janeiro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) caracterizou o movimento de antivacinação como uma das maiores ameaças para a saúde mundial. Em relatório, a OMS afirma que as vacinas previnem de 2 a 3 milhões de mortes por ano. Ainda de acordo com a instituição, doenças que já estavam em processo de erradicação, como o sarampo, registraram um aumento de 30% no número de casos no mundo.

Para Pollyanna Borges, professora do Mestrado em Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), a hesitação em relação às vacinas caracteriza um retrocesso no campo da saúde. “As vacinas são, de longe, uma das principais tecnologias desenvolvidas no século XX, que mudaram completamente o padrão de adoecimento e de morte mundial. Foi por meio das vacinas que deixamos de perder milhares de pessoas todos os anos por doenças transmissíveis, em especial as crianças e idosos que têm menor imunidade e dependem diretamente da proteção que as vacinas oferecem”, afirma.

Em artigo, Vasconcellos-Silva, Castiel e Griep, médicos da Escola Nacional de Saúde Pública do Rio de Janeiro, relatam que a popularização das ideias antivacina ocorreu quando o médico britânico Andrew Wakefield publicou um trabalho no periódico médico inglês Lancet, em 1998, que relacionava a incidência de autismo à aplicação da vacina da tríplice viral, que previne o sarampo, a caxumba e a rubéola. Wakefield alegou que substâncias contidas na vacina, como o mercúrio, causavam autismo nas crianças vacinadas.

No entanto, o estudo foi desmentido em 2010, através de relatório divulgado pelo General Medical Council (Conselho Médico Geral) inglês britânico, após a identificação de provas de que o médico havia fraudado os dados da pesquisa. Desde então, a comunidade científica já publicou dezenas de artigos a fim de reforçar que a ligação entre vacinas e autismo é inexistente. O estudo mais recente sobre o tema foi publicado em março deste ano, na revista americana Annals of Internal Medicine, e pode ser considerado um dos mais importantes já realizados. Os pesquisadores analisaram dados de 657.461 crianças nascidas na Dinamarca entre os anos de 1999 e 2010, provando, mais uma vez, a não relação das vacinas com os casos de autismo no país.

Acredita-se que a expansão das redes sociais nos últimos anos contribui para uma maior propagação dos ideais do movimento antivacina, principalmente através de grupos criados nas redes Facebook e WhatsApp, nos quais os defensores compartilham relatos e argumentos do movimento, sempre embasados em informações já desmentidas pela ciência, como o artigo de Wakefield. De acordo com Pollyana Borges, embora as redes sociais sejam propagadoras de ideias errôneas como as que pregam o movimento antivacina, elas têm o papel de desmenti-las. “Surgem movimentos lançando tendências que se propagam pela população sem embasamento técnico-científico. As redes sociais tem ajudado na propagação de notícias falsas, mas, ao mesmo tempo, nos auxiliam a contrapô-las e explicar para a comunidade a verdade”, afirma a professora.

A repercussão do movimento também pode ser atribuída ao posicionamento de pessoas influentes. Em 2014, o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu a relação entre vacinas e autismo em uma publicação no Twitter, que dizia “Healthy young child goes to doctor, gets pumped with massive shot of many vaccines, doesn’t feel good and changes – AUTISM. Many such cases!” (“Criança pequena vai ao médico, é bombeada com uma grande dose de muitas vacinas, não se sente bem e muda – AUTISMO. Muitos desses casos!” – em tradução livre).

Segundo o princípio científico da “imunidade coletiva”, quanto mais pessoas forem vacinadas, haverá menor chance de uma bactéria ou vírus encontrar um sujeito não imunizado – ou seja, os indivíduos que optam por não serem imunizados ou não imunizarem os filhos acabam sendo protegidos pelos que são vacinados. “Um dos meios de se combater qualquer estratégia antivacina, é continuar vacinando todos os que se dispuserem a ser vacinados. Assim, a possibilidade de termos propagada uma doença transmissível se reduz muito, e os que não se vacinam também são beneficiados”, explica Borges.

Segundo dados da OMS, uma a cada cinco crianças não é vacinada no mundo. Apesar da popularização do movimento antivacina, este número também se dá porque alguns indivíduos não têm informação suficiente sobre a importância da imunização, e outros acreditam que, por uma doença não ser mais recorrente, não se faz necessária a vacinação. Neste contexto, é papel do Estado orientar a população através de campanhas e divulgação de informações para combater as notícias falsas.

Todos os países devem possuir um calendário de vacinação, de acordo com as exigências da OMS. No Brasil, o Ministério da Saúde garante, através do Plano Nacional de Imunização, 27 vacinas, ofertadas a toda população gratuitamente. Todo brasileiro possui uma caderneta de vacinação, e é dever dos pais manter o documento dos filhos menores de idade atualizado. Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê multa de três a vinte salários mínimos caso as vacinações obrigatórias não sejam cumpridas.

Liga Acadêmica contra o movimento antivacinação

Um estudo desenvolvido no Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa fala sobre a importância da vacinação e do combate ao movimento antivacina. A pesquisa também descreve as atividades desenvolvidas pelo projeto de extensão que os autores participam, a Liga Acadêmica de Terapêutica Médica (LATEM), que realiza ações comunitárias no campo da saúde. De acordo com os pesquisadores, o propósito da atividade é informar a comunidade sobre a imunização e esclarecer as ideias equivocadas do movimento antivacina. Foram distribuídos cartazes informativos no meio acadêmico e em demais pontos da cidade, como as unidades básicas de saúde. Outra dinâmica proposta pelo grupo são discussões realizadas com especialistas na área de vacinação a fim de capacitar os futuros profissionais de medicina.

 

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