Revista Nuntiare

O veneno que bebemos

Por Maíra Orso

No mês de abril, o Batalhão de Polícia Ambiental – Força Verde, unidade de polícia Militar do Paraná especializada em combate ao crime contra a natureza, completou 62 anos de fundação. Na comemoração, realizada no Palácio Iguaçu, em Curitiba, foi entregue à corporação a Medalha do Mérito Ambiental, maior honraria da unidade. 

No entanto, o ritmo não é de comemoração se considerarmos as relação de dados divulgados originalmente pela Agência Pública, sobre contaminação da água por agrotóxicos no Brasil. Na matéria do dia 15 de abril deste ano, a Agência de jornalismo investigativo divulgou dados que colocam o Paraná como segundo Estado do Brasil com mais agrotóxicos detectados na água, ficando atrás apenas de São Paulo. O Paraná também se classifica em quarto lugar nos Estados com o maior números de cidades onde o mesmo agrotóxico foi encontrado na água por quatro anos seguidos.

A limpeza dos córregos, e a conscientização de cada um no exercício da cidadania, na fiscalização de ligações clandestinas de esgotos e o lançamento de resíduos nos rios Pitangui e Rio Verde é essencial para proteger e recuperá-los e consequentemente seus afluentes na região dos Campos Gerais. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Ponta Grossa, conta com três grupos de pesquisa que estudam o assunto. O departamento de Engenharia Química da UTFPR é o que mais se destaca no estudo sobre recursos hídricos.

No grupo da Professora Giani Lenzi, onde o trabalho se concentra em soluções sintéticas e também com influentes reais, a equipe de pesquisa trabalha principalmente com fotocatálise heterogênea – que é uma reação que envolve radiação natural e artificial e catalisadores na degradação de poluentes. Exemplos desses poluentes encontrados na água e estudados na pesquisa da doutora Lenzi são a cafeína, corantes, herbicidas e fármacos, que são os chamados contaminantes emergentes.

Lariana Beraldo é mestre em Engenharia Química pela UTFPR e conclui seu Doutorado na mesma universidade. Ela afirma que os agrotóxicos realmente causam graves influências negativas na vida dos cidadãos que os ingere, principalmente se misturado com outros contaminantes. “A gente fez uma pesquisa no grupo da professora Giane, um aluno testou a água com herbicida, porém a pesquisa não vingou pois o aluno mudou o contaminante. Mas a intenção da professora é testar a remoção deste herbicida presente na água por fotocatálise heterogênea”, comenta Beraldo.

A universidade também tem o grupo da professora Juliana Martins Teixeira de Abreu Pietrobelli, que trabalha com adsorção de contaminantes presentes na água. O foco principal das análises é a identificação de novos adsorventes e de preferência que eles sejam baratos – adsorventes são processos de descontaminação das águas, e este grupo busca estudar adsorvências naturais com baixo custo para melhor gestão do Estado em sua composição e aquisição. Um dos exemplos é a adsorção de corantes presentes na água que utilizam bagaços da cana de açúcar e malte.

Existe, por fim, a pesquisa do professor da UTFPR, Ciro Mauricio Zimmermann, que trabalha em torno de efluentes e com a qualidade da água em si. O foco é descobrir como está a qualidade dos rios de Ponta Grossa e da região e de como sai a água dos afluentes das estações de tratamento de água.

Eduarda Liebert é toxicologista, formada na Universidade Federal do Paraná, estudou as enfermidades causadas por agrotóxicos constatados pelo país, incluindo a região dos Campos Gerais. Agentes químicos, muitas vezes presentes na água que o paranaense ingere causa inúmeras doenças e enfermidades. Liebert afirma que esses problemas podem ser derivadas de agrotóxicos ingeridos através da água, porém poucas pessoas que se contaminam e adoecem descobrem de fato a origem de sua causa. Se torna muito difícil identificar quando os agrotóxicos se fundem, pois geralmente são estudados individualmente em laboratórios.

“Esse é um problema que cerca a vida de muita gente, principalmente da área rural, que tem câncer, depressão ou outras enfermidades e nunca consegue entender de onde surge tantos casos na família com essas mesmas doenças. Pesquisando mais a fundo descobrimos que pode ser causada pela contaminação do solo e da água”, afirma. Liebert reitera: “mesmo que um agrotóxico sozinho não tenha efeito sobre a saúde humana,  mesmo em pequenas quantidades, seu uso contínuo e a mistura das substâncias como coquetéis podem causar inúmeras doenças”. 

Outro problema é o fato do Brasil não ter um limite fixado para regular a mistura de substâncias agrotóxicas. O pesquisador da UTFPR em purificação de água, Daniel Spezia Martins, afirma que “vítimas da insensatez e do descuido do próprio cidadão ocasionam problemas para saúde da população, porém, o Estado tem o dever incontestável de solucionar essa questão da água e adquirir responsabilidade para ações de sustentabilidade que envolvem toda população”.

“Devemos reconhecer que as mudanças climáticas e a perda da fauna e flora são tão importantes, não apenas para o meio ambiente, mas também para as questões econômicas e de desenvolvimento”, indicou a geóloga e técnica em recursos hídricos Cristina Ferreira Scheiffer. A estudiosa pesquisou na UTFPR sobre os rios da região e comenta que para manter um planeta sustentável que forneça serviços para as comunidades locais deve-se mudar a trajetória nos próximos anos, e investir em medidas de preservação e leis que impeçam o uso abusivo de agrotóxicos. “Essas práticas incentivarão os atores sociais e gestores públicos a implantarem políticas de incentivos a redução da demanda da água nos diferentes setores sociais”, pontua Scheiffer.

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