Yoga busca equilibrar corpo e mente para o alcance de uma busca saudável

Yoga busca equilibrar corpo e mente para o alcance de uma busca saudável

dezembro de 2018 0 Por Nuntiare

“Não é fácil lidar com as emoções no dia a dia. Mas aqui eu me sinto mais leve. Hoje, por exemplo, eu cheguei mal neste espaço; desmotivada. Quando comecei a praticar os exercícios de relaxamento, foi como se os movimentos liberassem algo bom em mim. Eu pude me sentir capaz e me encontrar comigo mesma”, relata a servente escolar de 48 anos, Marina Ukrainski, após uma aula de Yoga. A mulher, que já sofreu com embolia pulmonar (causada por acúmulo de coágulos de sangue no pulmão), encontra na atividade uma forma de se livrar da tensão do dia a dia e praticar técnicas de respiração que a auxiliam no tratamento da doença e aperfeiçoam sua condição motora. “Na minha rotina eu sempre lembro das palavras de incentivo do professor, porque eu já tive depressão. Hoje a minha coordenação motora também melhorou, pois, como usei cadeira de rodas e bengala devido ao agravamento da doença, um lado do meu corpo ficava comprometido. Agora eu consigo me locomover e me movimentar sem sofrer tanto com a falta de ar”.

O Yoga, prática realizada por Marina, teve origem há aproximadamente sete mil anos na parte oriental do globo terrestre, mais especificamente na Índia, conforme a doutora em Educação Física e docente da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Rosimeide Legnani. De acordo com a pesquisadora, o Yoga é a base de muitas técnicas de ginástica. “A metodologia de ensino dessa atividade pode promover a concentração, o relaxamento, a meditação e o bem-estar, por meio de técnicas corporais conhecidas como asanas. O Yoga pode ser trabalhado como uma filosofia de vida, mas também como prática de exercícios físicos, com o objetivo de melhorar a performance, assim como a saúde mental”, destaca a professora.

Apesar de ser uma técnica milenar, os estudos científicos que comprovam os benefícios do Yoga só começaram a ser desenvolvidos veementemente a partir dos anos 2000 nas universidades ao redor do mundo, como indica a pesquisa de doutorado de Cláudia Poletto em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Conforme Cláudia, que foi entrevistada pela Nuntiare via e-mail, os programas de intervenções de Yoga através de posturas corporais (asanas), técnicas respiratórias (pranayamas), relaxamento consciente (niydra) e meditação têm se demonstrado benéficos para melhorar casos de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, dores lombares, asma, hipertensão arterial, espectros de autismo, diabetes, insônia e até mesmo o câncer.

A doutora em Educação Física, Rosimeide Legnani, que leciona na UEPG, também explica que o Yoga é uma das técnicas mais indicadas para praticar com pessoas que possuem ou já sofreram com o câncer, conforme observado nos resultados preliminares de um estudo desenvolvido para ser publicado em 2019.  “A atividade trabalha o emocional, que geralmente fica abalado com a doença”, ressalta a pesquisadora.

Mais do que um exercício físico

A filha de Marina, Marília Ukrainski, de 26 anos, é engenheira civil e também pratica Yoga. Ela conta que o interesse em desenvolver a atividade surgiu com o intuito de incentivar a mãe a buscar uma forma de melhorar a qualidade de vida. Mas, além dos benefícios que o Yoga proporcionou a Marina, a filha também destaca que a técnica possibilitou um aperfeiçoamento de sua própria saúde. “Meu trabalho é estressante; a rotina é puxada, e eu vivia ansiosa. No Yoga eu relaxo, limpo minha cabeça do nervosismo do dia a dia. Antes de praticar eu não tinha ideia de como é. Hoje eu sou uma pessoa mais leve, não me estresso com tanta facilidade igual antes. Vivo mais tranquila. Em princípio eu vinha mais para acompanhar a minha mãe, hoje eu mesma não consigo passar uma semana sem praticá-lo”, conta Marina.

A afirmação de Marília de que a prática do Yoga ajuda a controlar a ansiedade e a tensão do dia a dia

também é ressaltada por pesquisadores. Conforme a doutora em Psicologia Transpessoal pela Universidade de Greenwich na Grã-Bretanha, Susan Andrews, entrevistada após o lançamento de seu livro “Meditação: o que dizem os cientistas e sábios”, em Curitiba, o Yoga é essencial para combater a ansiedade.  Nesse sentido, segundo Susan, a prática deveria ser mais explorada e incentivada no Brasil, país que possui a maior taxa de transtornos ansiosos do mundo, conforme os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde divulgados em 2017. “A meditação desenvolvida no Yoga estimula o córtex cerebral, que é uma das regiões do cérebro capaz de controlar a amígdala, órgão que concentra boa parte da tensão e dos pensamentos ansiosos”.

De acordo com o professor de Yoga Moisés Pariona, que oferece um curso de Yoga na Pró- Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais da UEPG, a atividade atua no corpo do indivíduo através da movimentação dos músculos e do estímulo das glândulas e hormônios integrados com a mente, já que envolve pensamentos de concentração, foco e positividade. “Por exemplo, muitas pessoas guardam coisas ruins dentro de si, como raiva, ódio, rancor, ciúme, e vão armazenando isso. Através do Yoga você começa a mexer com

muitas energias, inclusive com as que estão inseridas no subconsciente. De tal modo, a prática busca substituir essas energias ruins pelas positivas”, ressalta Pariona.

Integração corpo e mente: princípio da medicina oriental

Essa capacidade de o Yoga explorar movimentos que atuam na integração entre corpo e mente é derivada de técnicas orientais que se diferenciam das práticas ocidentais no que diz respeito aos cuidados com a saúde. Conforme a doutora em Psicologia Transpessoal, Susan Andrews, a diferença entre as duas abordagens é que a ocidental, mais conhecida como alopática, busca trabalhar com o conceito de doença específica, ou seja, utiliza-se de métodos diretos para remover os sintomas de determinada enfermidade, como por exemplo os fármacos e as cirurgias. Já as técnicas orientais prezam pela visão holística do ser humano para combater qualquer tipo de mal estar, como a meditação, o Yoga, a acupuntura, a ventosa, entre outros. “Desde que Descartes utilizou uma teoria para separar a mente e o corpo, o sistema biomédico também passou a separar uma coisa da outra. Atualmente, a medicina ocidental está se dando conta de que os dois são integrados. A medicina oriental, indiana e chinesa, vem falando já há mais de mil anos que existe psiconeuroimunologia, ou seja, que a mente afeta os hormônios e o sistema imunológico; nesse sentido, é preciso cuidar não apenas do corpo, mas da mente também”, sustenta a psicóloga.

Na concepção da doutora em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia, Cláudia Poletto, outra diferença entre os distintos tipos de abordagens ocidentais e orientais com relação à medicina é que essa não é hegemônica como a primeira. Para a pesquisadora, que estudou a relação entre o Yoga e a ciência em sua tese de doutorado, a medicina ocidental envolve uma complexa rede de processos históricos, educacionais, industriais, econômicos e políticos que se institucionalizaram na sociedade contemporânea.

Segundo a terapeuta ocupacional e doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo, Ana Tereza Galvanese, que foi entrevistada por e-mail, os métodos das duas formas de concepção medicinal devem possuir uma relação de complementaridade. “É uma lógica relacionada a um somar de cuidados: um ‘e’, que se diferencia do ‘ou’. São mais complementares do que alternativas”, indica a pesquisadora, que estudou as práticas integrativas corporais e meditativas em sua tese de doutorado.

No Brasil, desde 2006 há a construção da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, que foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). No entendimento de Ana Tereza, a ideia é essencial no país. No entanto, há dificuldades práticas que perpassam a implementação do programa. “Há desafios na definição de parâmetros técnicos e administrativos; no aporte de insumos e no acompanhamento, avaliação e formação de recursos humanos”, aponta a pesquisadora. De acordo com ela, a partir de sua pesquisa de doutorado, observa-se que no Brasil ainda há pouca interlocução entre as duas perspectivas de cuidados ocidentais e orientais no que diz respeito à saúde. “Do meu ponto de vista, este é um desafio cultural, cuja superação passa pela formação profissional”, analisa Ana Tereza.

Atualmente, o SUS reconhece 29 tratamentos alternativos, dentre eles a acupuntura, a homeopatia, a fitoterapia, a dança circular, a meditação, a musicoterapia e o Yoga.

Yoga na UEPG

Em 2018, a UEPG ofereceu dois programas para quem quiser praticar o Yoga. Um é desenvolvido pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais da universidade, em que a sociedade ponta-grossense pode praticar a atividade nas quartas ou quintas-feiras no período noturno, com valor de R$30,00 por mês. O outro é uma ação desenvolvida pela professora Rosimeide Legnani, nas terças e quintas-feiras, através do projeto de extensão Total Wellness, a partir das 17h. As aulas acontecem no Laboratório de Avaliação Física, Saúde e Esportes (Lafise), no Campus de Uvaranas, e possui um taxa mensal de R$ 50,00 para a comunidade interna da UEPG e R$ 70,00 para a população externa.