O fluxo em corredores ecológicos

O fluxo em corredores ecológicos

dezembro de 2018 0 Por yuri silva

Animais e sementes podem migrar de um planalto ao outro através dos corredores ou trampolins ecológicos que possibilitam a ligação entre os diferentes ecossistemas, além de permitir que ultrapassem as barreiras de dispersão

O deslocamento de diferentes espécies de animais e vegetação cria um fluxo transitório pelo principal corredor ecológico de Ponta Grossa, o vale do rio Tibagi e seus afluentes. Em 2016, seria criada a Unidade de Conservação (UC) de proteção integral Refúgio da Vida Silvestre do Rio Tibagi, porém o projeto não se concretizou. Essa passagem possibilita que vários animais e sementes se desloquem entre a Reserva Biológica das Araucárias e o Parque Nacional dos Campos Gerais. Se essas mesmas espécies ainda forem capazes de vencer as barreiras geográficas ou biológicas de dispersão, poderão migrar do primeiro planalto para o terceiro, mas, para isso, precisam passar por essas áreas.

Os corredores ecológicos proporcionam a ligação entre os diferentes ecossistemas, unidades de conservação ou fragmentos florestais que foram separados, de alguma forma, pela interferência humana através das rodovias e plantações. “Trata-se de faixas de vegetação implementadas visando diminuir os impactos que o antropismo causou e está causando nestes ambientes naturais que perdem a ligação”, explica a bióloga e mestre em Gestão do Território, Lia Antiqueira. Dessa forma, são estabelecidos com base em estudos específicos que garantem que as necessidades de fluxo genético de sementes e de espécies da fauna permaneçam.

Para dispersar sementes, por exemplo, é possível encontrar na natureza algumas estratégias. Nos corredores ecológicos, a idéia é que isso ocorra da mesma forma. Se determinada espécie disseminar seus grãos aderidos ao pelo de animais, ou então ao serem ingeridos, o bicho será o responsável pela dispersão.

Durante o trajeto é possível que uma espécie migre do primeiro para o segundo ou terceiro planalto, porém é necessário que ultrapasse as barreiras de dispersão. Essa seria uma das funções dos corredores e também dos trampolins ecológicos. Por trampolins entende-se as áreas que não estão diretamente ligadas e funcionam como ilhas para os animais que transitam entre grandes espaços. “Se considerarmos que as sementes são dispersas pelo vento, água, morcegos, aves, pequenos roedores e primatas, podemos imaginar uma variedade de distâncias percorridas. Então, se o corredor ecológico ou o trampolim favorece este deslocamento e as condições de solo e clima forem favoráveis na instalação, as espécies podem migrar e se adaptar em outras regiões e planaltos”, explica Lia.

A paisagem não é a mesma para todas as espécies – um pássaro de interior de floresta não vai atravessar uma área aberta, por mais curta que seja. Neste caso, torna-se dependente de corredores de floresta para se deslocar em busca de alimento ou de um parceiro para a reprodução. Outras espécies atravessam pequenas distâncias sem problemas, como no caso da onça pintada, que necessita de grandes áreas contínuas para viver e raramente sai da floresta.

Além disso, as barreiras para a migração e dispersão variam também em função da espécie vegetal. “Plantas que disseminam suas sementes através do vento encaram menos barreiras do que aquelas que dependem de animais para isto. E mesmo a dependência animal é relativa, pois se a planta é disseminada por um animal que possui amplo território, como lobo-guará, ou que são capazes de longos deslocamentos, como macaco-prego, vai ter suas sementes levadas para grandes distâncias”, ressalta a pesquisadora da área de concentração Gestão do Território e Análise Sócio-ambiental, Rosemeri Segecin Moro. Ainda assim, as espécies só irão conseguir se estabelecer nos planaltos se encontrarem solo e clima adequados.

A não existência de corredores ecológicos tem como consequência áreas isoladas com predisposição para gerar condições de vulnerabilidade para diferentes espécies. Lia explica que “quanto mais isolada uma população ficar, ela corre mais riscos. O aumento de cruzamentos entre aparentados (endogamia) diminui a variabilidade genética e afeta diretamente a biodiversidade”. Desse modo, os corredores ecológicos são fundamentais para garantir a diversidade genética, além da diversidade ecológica e de espécies. As passagens são instaladas para que haja um fluxo gênico e natural no ambiente.

Na Reserva Biológica das Araucárias, predomina a mata de Araucária ou Floresta Ombrófila Mista, que é um ecossistema pouco fragmentado dentro do bioma Mata Atlântica onde prevalece o conhecido pinheiro do paraná (Araucaria angustifolia). A UC de mata contínua foi criada para proteger este ecossistema sob forte ameaça de extinção no Paraná. Rosemeri destaca a grande importância de garantir a preservação da mata para também promover a manutenção da fauna. “O corredor ecológico garante que as plantas que necessitam de animais para a sua disseminação tenham esses animais percorrendo o corredor”, salienta Rosemeri.

Já no Parque Nacional dos Campos Gerais, a sua função é proteger os diversos remanescentes do Bioma Mata Atlântica, dentre eles a Floresta Ombrófila Mista, os campos rupestres, os encraves (ilhas) de Cerrado que restaram da região frente a forte pressão da agricultura. Lia ressalta que nessas duas unidades de conservação há a ocorrência de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção.

No 1º planalto predominam áreas de florestas com araucárias, já no 2º planalto, existem grandes áreas de campos nativos, que, mesmo fragmentados, possibilitam a existência de espécies animais e vegetais que enfrentam menores barreiras por possuírem grande capacidade de deslocamento e disseminação. O Parque Nacional dos Campos Gerais é um corredor importante entre as populações do Parque de Vila Velha e do Parque do Guartelá.

Para a bióloga Lia Antiqueira, a criação do Refúgio da Vida Silvestre do Rio Tibagi tem o propósito de  “proteger os últimos remanescentes de várzea em bom estado da região que também estão sob forte pressão e fazer a importante conexão entre as Unidades de Conservação”.  Segundo um estudo do Ministério do Meio Ambiente (MMA), a área proposta para ser transformada em refúgio possui 31.698 ha, sendo que 13.613,19 ha (42,95%) destes se localizam no município de Ponta Grossa. O refúgio protegeria todas as áreas alagadas do rio Tibagi e se tornaria um corredor ecológico regional ao abranger, além de Ponta Grossa, também as cidades de Imbituva (2,51%), Ipiranga (9,39%), Palmeira (13,53%) e Teixeira Soares (31,62%).

O monitoramento dos corredores é realizado pelo IBAMA e IAP, através do Cadastro Ambiental Rural. Nas Unidades de Conservação (UCs) são realizadas pesquisas com a flora e fauna, as quais apontam se a biodiversidade se conserva, ou se está sob ameaça. No caso da vegetação, são realizados estudos florísticos que caracterizam as espécies presentes, os índices ecológicos e de fluxo gênico, isso permite estimar o grau de variabilidade genética de determinadas populações.

A conservação e/ou manutenção destes espaços inicia a partir do momento que a comunidade respeita a área de preservação ambiental e a reserva legal instituída pelo Código Florestal.  É possível que os proprietários disponibilizem espaços de suas propriedades para a instalação de corredores e autorizem a realização de estudos quando estes fazem parte do entorno ou dessas áreas em si. Caso isso não ocorra, pode haver efeitos negativos que elevam o risco de extinção de espécies, ecossistemas e diminuição drástica de níveis de biodiversidade. “Os proprietários devem proteger as áreas naturais que possuem e restaurar as que estiverem comprometidas pela exploração no passado, quando não se conhecia as questões para a manutenção da biodiversidade”, ressalta Rosemeri.

Reportagem:

Angelo Rocha

Danielle Farias

Fotos:

Moro