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Equipamentos públicos versus mobilidade urbana

Ponta Grossa é uma cidade “esparramada”. O último censo populacional, realizado em 2010, indicava que Ponta Grossa possuía 311.611 habitantes, mas a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para 2018 indica uma população de mais de 348.000 pessoas. Ainda segundo o órgão, apenas 37% dos domicílios urbanos da cidade estão em vias públicas com urbanização adequada, isto é, com a presença de bueiro, meio-fio, pavimentação e calçada.

Porém, olhar apenas os dados divulgados não bastam. O coordenador do INCT/Observatório das Metrópoles e doutor em desenvolvimento urbano, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, afirma que “se é verdade que as pessoas não estão mais em casebres de zinco e madeira reutilizada, como nos primórdios das favelas, vilas, barriadas etc, hoje elas moram em casas insalubres e totalmente inaptas à função de sustentação de uma vida digna”.

A organização da cidade e a mobilidade urbana que o município proporciona influem diretamente no acesso da população a equipamentos públicos, como escolas e centros de saúde. Um dos fatores determinantes do planejamento da mobilidade é justamente pensar o uso do centro urbano - onde a pessoa mora e onde estão localizados os equipamentos que ela poderá precisar.

Ponta Grossa tem aproximadamente 250 equipamentos públicos, considerando a àrea da educação e da saúde. Segundo informações da Prefeitura Municipal, a cidade está totalmente coberta pelos equipamentos de saúde, sendo a quantia adequada ao tamanho populacional. “Na Atenção Básica, 85% da população é coberta pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) - usuários exclusivos do Sistema Único de Saúde (SUS) - e, nas Unidades de Pronto Atendimento, o número de atendimentos fica em torno de 15 mil por mês”, declara a assessoria de comunicação.

Em relação à educação, são 84 escolas municipais e 60 Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), que atendem cerca de 31 mil crianças. Para a Prefeitura, as unidades estão espalhadas por toda a cidade, considerando a evolução histórica da demanda pela educação em Ponta Grossa. “Os critérios para a construção e manutenção de vagas na Educação levam em consideração a demanda populacional, o crescimento das comunidades, a capacidade de atendimento das regiões, entre outros fatores, como por exemplo a execução de políticas públicas nacionais e municipais”, afirma a assessoria municipal. Ainda segundo o órgão, novas UBS são construídas em locais escolhidos de acordo com o crescimento e desenvolvimento dos bairros.

Contudo, é necessário ir além dos números, buscar compreender os fluxos de pessoas dentro da cidade para garantir que, de fato, todos tenham acesso aos serviços básicos. Neste ponto, entra a mobilidade urbana, que não se refere apenas ao sistema físico, como as ruas e a infraestrutura. Ela envolve o por quê de as pessoas precisarem se deslocar, para depois pensar de que forma elas se deslocam.

Anicoli Romanini, doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Integrante do Grupo de Pesquisa Urbanidades: Forma Urbana e Processos Socioespeciais, com base na sua pesquisa sobre “Planejamento Urbano e Equipamentos Comunitários” na cidade de Passo Fundo (RS), indica dois modos para pensar a área de abrangência média de um equipamento de educação: 800 metros para escolas de ensino fundamental e 1600 metros para escolas de ensino médio; ou acesso a pé em não mais que 15 minutos, o que corresponderia a cerca de 800 metros também. A preocupação com a abrangência dos equipamentos públicos em Ponta Grossa reflete não apenas na pós-graduação, mas inicia-se em pesquisas na graduação. Victor Eduardo Kraeski e Matheus Santana Carrer, orientados pela professora doutora
Andrea Tedesco, desenvolveram a pesquisa Sistemas de informações geográficas aplicados ao planejamento urbano: Diagnóstico da urbanização nas cidades de Ponta Grossa-PR e Cascavel-PR como trabalho de conclusão de curso em Engenharia Civil da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

“Na mobilidade urbana, o “deslocar” não tem o mesmo nível de importância do trabalho, lazer, estudo, saúde. A rua é um complemento, tem que ser um mero facilitador para que as outras atividades aconteçam”.
Nisiane Madalozzo.

O trabalho comparou as características de duas cidades de médio porte do Paraná, sendo um dos aspectos pesquisados a disposição e abrangência dos equipamentos públicos de educação e saúde dos municípios. "Na nossa pesquisa, utilizamos o conceito de raio de abrangência, que consiste num raio no entorno do equipamento público que indica a área que o equipamento deve atender", explica Kraeski.

O resultado pode ser conferido nos mapas abaixos, cedidos pelos autores:

 

Os maiores vazios são encontrados quando se observa a distribuição dos equipamentos de educação infantil. “Contudo, isso não quer dizer que o número de centros infantis é inferior ao necessário. Este não foi o nosso foco”, explica Kraeski.

Os mapas de distribuição dos equipamentos de saúde mostram uma boa quantidade, sendo o bairro Cará Cará a região com menor presença de unidades de atendimento.

Os autores ressaltaram que a pesquisa observou a distribuição, e não a questão de vagas em escolas de atendimento nos postos de saúde. Porém, os mapas demonstram um vazio de equipamentos nas regiões periféricas.

Nisiane Madalozzo, professora do Departamento de Engenharia Civil e Diretora de Planejamento Físico da Universidade Estadual de Ponta Grossa, afirma que a mobilidade envolve todos os usos da cidade, onde a pessoa mora e onde estão os equipamentos. Por isso, é preciso “entender quais deslocamento as pessoas fazem e se esses deslocamentos são realmente necessários, se fazem por que querem ou precisam fazer ou se fazem por que não tem outra opção ou alternativa melhor”, afirma.

Já Sandra Maria Scheffer, doutora em Gestão Urbana, pesquisadora e professora do departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa, entende que é a mobilidade que vai dar a inclusão ou não para o ser humano dentro do espaço que é a cidade. “Ela [a cidade] tem uma lógica, função social, a mobilidade é um dos aspectos dessa função social, aspecto central”, explica.

Reportagem:
Bruna Alexandrino
Giulia G. do Prado
Foto:
Angelo Rocha

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