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A pesquisa como semente nos campos da UEPG

Fluxos de informação oriundos de pesquisas e aplicações dentro da Universidade formam pesquisadores e profissionais para demandas da região

A população mundial cresce exponencialmente a cada ano. Conforme a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, do inglês, Food and Agriculture Organization), dados mostram que a partir de 2050 é prevista a existência de 9 bilhões de pessoas no mundo. Para atender essa enorme demanda, há tanto a necessidade de melhor distribuição quanto de aumento da produção - estimativas da instituição indicam necessidade de ampliar em até 60% a produção mundial de alimentos. O uso da tecnologia se mostra fundamental para resolver essa complicada equação e, neste sentido, a expansão dos fluxos digitais se constitui como uma das principais apostas.

O problema de alimentação das futuras gerações passa por desenvolvimentos, investimentos e pesquisas na agricultura e tecnologia. A FAO indica que em países como a China já não existe mais área para expansão da agricultura. Desse modo, a única forma de aumentar a produtividade é otimizar ao máximo os processos de produção agrícola. É aí que a perspectiva tecnológica entra.

Através de sistemas chamados “inteligentes” e diferentes combinações de técnicas computacionais, é possível alcançar melhores resultados, evitando-se a necessidade de aumentar a área de plantio para ter maior produtividade. A pesquisa na área é ainda mais importante, visto a necessidade de resolver um problema real que vai além da simples aplicação tecnológica no campo. Também cabe às empresas e às instituições públicas e privadas atuarem em prol das gerações futuras desenvolvendo métodos de produção, distribuição e solução de problemas.

Campos Gerais

A região dos Campos Gerais é destaque nacional quando se refere ao agronegócio. Berço do plantio direto - considerado um dos métodos agrícolas mais revolucionários do país - e da formação de cooperativas. As safras 2017-2018 de milho, feijão e soja resultaram em 2,99 milhões de toneladas. Outro destaque é a bacia leiteira. Só em Castro, a produção chegou à marca de 255 milhões de litros de leite no ano de 2016, de acordo com o IBGE.

Para o professor doutor Rodrigo Matiello, atualmente diretor de pesquisa da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Propesp-UEPG), dentro das instituições de ensino superior todas as pesquisas realizadas trazem benefício direto ou indireto para a sociedade. “Na região de Ponta Grossa, considerando o agronegócio como grande alavanca para a região, não poderia ser diferente. Boa parte das temáticas que são levantadas dentro da Universidade tendem a chegar na sociedade, que necessita dessas novas tecnologias”, analisa. Segundo Matiello, técnicas desenvolvidas dentro da UEPG, como o uso de drones para agricultura, a agricultura de precisão e a avaliação fenotípica de campos, são uma série de ferramentas pesquisadas internamentes pelos diferentes programas da instituição que podem trazer resultados significativos para o agronegócio da região.

Um dos programas voltados para a pesquisa na área da agricultura é o Mestrado Acadêmico em Computação Aplicada, área de concentração – Computação para Tecnologias em Agricultura. Por meio do mestrado interdisciplinar, integrando a computação e a agricultura, são desenvolvidas pesquisas de inovação tecnológica que contribuem para o aumento da competitividade agrícola regional por uso de modernas técnicas computacionais.

O professor doutor em agronomia, Eduardo Caires, considera de grande importância para a sociedade da região o fato de a UEPG desenvolver pesquisas na área de computação aplicada à agricultura, pois essas pesquisas buscam viabilizar o acesso às soluções tecnológicas para os agricultores de pequeno, médio e grande porte. "As pesquisas também visam a resolver problemas ainda enfrentados pelo agricultor ao longo do desenvolvimento das culturas, como por exemplo, a obtenção e análise de dados do solo e da planta, identificação e tratamento de doenças e implantação de processos de rastreabilidade", analisa.

Bruno Asato, graduado em Engenharia de Software pela UEPG, está cursando o mestrado. Um dos projetos em que Asato pesquisa envolve o Laboratório de Infoagro, da Universidade. Esse projeto realiza estudos utilizando aeronaves remotamente pilotadas (ARP) para a produção de mapas interativos em áreas de plantio. O processo envolve um voo com a ARP que fotografa toda a área determinada para o estudo e que, com o auxílio de outro software, gera um mapa chamado de ortomosaico.

Os mapas permitem desenvolver parâmetros sobre a área estudada, visto que todo o processo é georreferenciado. O objetivo principal é auxiliar o produtor na tomada de decisões, possibilitando discriminar diferentes características da cultura estudada e gerando maior precisão na hora da plantação, da colheita, do uso de insumos e outras aplicações. Esses voos também geram mapas de reflectância muito mais definidos e detalhados.

Para o produtor, a vantagem desses mapas consiste na interatividade. Neles podem ser incluídos outros dados levantados pelo produtor. Seja uma análise de solo, de PH das plantas ou de produtividade, o objetivo do mapeamento é agregar conteúdo para auxiliar a tomada de decisão do produtor. Assim, ele tem acesso a uma gama de dados que só aumentam a sua segurança no campo e a precisão de sua agricultura.

Para o mestrando, a computação e a pesquisa interdisciplinar com a agronomia auxiliam que essa tomada de decisão do agricultor seja embasada em dados, em pesquisas. “O foco real é fazer todos os estudos necessários e ajudar na tomada de decisão do agricultor, seja no momento de aplicação de um insumo, na hora da colheita ou no planejamento futuro”, pondera.

 

Fazenda Escola

A Fazenda Escola Capão da Onça (FESCON) é um órgão suplementar da UEPG. Fundada em 1990, subordinada à Reitoria,  possui uma área total de 312,11 hectares, sendo que sua área útil é de 216,12 hectares. O objetivo é servir ao ensino em diversas áreas, assim como à pesquisa, extensão e produção, dando apoio aos cursos de Agronomia, Zootecnia, Engenharia de Alimentos, Medicina, Biologia, Engenharia Civil, Engenharia da Computação, Engenharia de Materiais, Química, Farmácia, Colégio Agrícola Augusto Ribas, entre outros órgãos da UEPG.

Para a professora do departamento de Zootecnia da UEPG e atual diretora do Fazenda, Maria Marta Loddi, o lugar se caracteriza como um grande laboratório de pesquisa em vários setores de conhecimento. “São realizadas pesquisas na Graduação - de Iniciação Científica e Trabalhos de Conclusão de Curso - e na Pós-Graduação, de Mestrados, Doutorados e Pós doutorados, além de pesquisas próprias dos professores para as suas linhas de pesquisas, bolsas de produtividade e projetos isolados”, observa.

Cabe ressaltar as parcerias formadas dentro da FESCON, como os convênios com empresas de pesquisa e produção, como a Basf, Bayer, Sygenta, FMC, Agrichen, Adama, Embrapa, além do grupo de Escoteiros dos Campos Gerais e de cursos de Extensão do Sindicato Rural e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). Para o professor Rodrigo Matiello, todas as pesquisas desenvolvidas na fazenda escola têm aplicação para o agronegócio. “Quem se beneficia disso, além da sociedade, são os nossos técnicos e profissionais engenheiros formados na universidade que saem melhor preparados para o mercado de trabalho”, ressalta.

 

Mercado de Trabalho Tecnológico

Atualmente, em diversos setores, é crescente a busca por profissionais com perfil interdisciplinar. O aluno que participa dos Mestrados na área do conhecimento agrícola passa a ter a compreensão de como resolver problemas de forma interdisciplinar, conhecimento esse que poderá ser utilizado em diversas áreas, extrapolando o segmento agrícola.

O professor Rodrigo Matiello defende que a interdisciplinaridade entre os cursos favorece a agricultura dos Campos Gerais, pois estes trabalham conjuntamente para o aprimoramento de tecnologias do agronegócio da região através da pesquisa e da prática. “Muitas tecnologias desenvolvidas aqui dentro passam a se tornar técnicas de manejo que são aplicadas no agronegócio do Brasil inteiro”, concluiu.

Um exemplo desse caso é o do mestrando em Computação Aplicada da UEPG, Hugo Petla, que já está inserido no mercado de trabalho, principalmente no mundo das StartUps. Esse processo de inserção começou antes do mestrado, quando Petla concluía a graduação em Engenharia de Computação na UEPG e começou a ver a necessidade do mercado e de produtores por sistemas de automação, de software e hardware para desenvolver soluções para a área agrícola. Pensando nisso e visitando alguns produtores de leite da cidade de Carambeí, o então graduando começou a entrevistá-los e descobriu quais eram alguns dos problemas que esses produtores enfrentavam.

Após essa primeira etapa, Petla seguiu o caminho que está em alta no mercado para resolução de casos como os que viu nos produtores de Carambeí: os sistemas de Internet das Coisas (IoT, do inglês, Internet of Things). A IoT cria sistemas ao conectar coisas, animadas ou inanimadas, à internet com identificadores exclusivos que oferecem contexto, o que proporciona visibilidade à rede, aos dispositivos e ao ambiente. Capacitada com conjuntos de dados completos e usando análise avançada, a IoT pode oferecer insights importantíssimos sobre o nosso mundo.

No caso de Petla, a solução desenvolvida é voltada para o produtor da cadeia leiteira. “A minha solução é voltada para o monitoramento dos tanques de leite, onde eu recolhia dados coletados por alguns sensores, como a temperatura do tanque de resfriamento, e enviava para um servidor em tempo real. Uma aplicação mobile também recebia esses dados, fornecendo essa informação na palma da mão do produtor, dando muito mais controle sobre a sua produção”, conta. Com isso, Petla foi premiado em primeiro lugar no Desafio Alltech Brasil 2016, que tinha como premiação uma viagem para os Estados Unidos, para participar do Alltech One, um congresso inteiramente voltado para inovações no Agro.

Para o professor Eduardo Caires, o Mestrado em Computação Aplicada da UEPG forma recursos humanos atendendo a uma forte demanda regional por profissionais capazes de desenvolver soluções tecnológicas inovadoras e acessíveis também ao pequeno e médio agricultor.  “Os profissionais, com esse Mestrado, estarão aptos a difundir e empregar esse conhecimento interdisciplinar em outras instituições de ensino superior, onde atuarão como docentes e pesquisadores, e também poderão trabalhar e/ou prestar serviços em cooperativas, institutos de pesquisa e demais empresas do segmento agrícola”, analisa.

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