A eterna construção da identidade

A eterna construção da identidade

dezembro de 2018 0 Por Nuntiare

Em entrevista à revista Nuntiare, os pesquisadores Edson Armando Silva e Ione da Silva Jovino explicam os fluxos identitários existentes em Ponta Grossa

Nos Campos Gerais, o que auxilia a compreender os fluxos identitários é a própria característica do espaço, que já foi definido como um encontro de caminhos. É preciso ressaltar que este lugar não possui uma identidade natural advinda de si mesmo. O sentido de espacialidade, ou de que as identidades são produzidas em um determinado local, surge pelas relações sociais ali existentes. Basta pensarmos na região como passagem tanto dos indígenas como, mais tarde, das tropas que se unem ao caminho do tropeirismo.

É possível preservar as referências históricas, elementos linguísticos, a culinária, mas a identidade não, ela segue um fluxo, não se mantém cristalizada. Cada geração tem a tarefa de reconstruir sua própria individualidade.

A Nuntiare conversou com os pesquisadores Edson Armando Silva e Ione da Silva Jovino  para compreender quais são as identidades existentes em Ponta Grossa e como elas se caracterizam conforme os fluxos existentes.

Pesquisador na área de história cultural, identidades, história da igreja, história regional e religiosidade, Edson Armando Silva explica o que é a identidade e o que auxilia na construção de cada uma delas, com enfoque no fluxo identitário existente em Ponta Grossa.

Nuntiare: A partir da história da cidade, existe alguma identidade que se sobressai desde o início?

Edson: Os Campos Gerais têm uma característica natural, já eram passagem no tempo dos indígenas e, posteriormente, surge o caminho das tropas, que se une ao caminho do tropeirismo e vai para o Sertão. Então as comunidades tradicionais, os caboclos, os indígenas de certa forma tinham na região um ponto de referência, de negociação, e essa mesma característica é aproveitada com a chegada das ferrovias, e depois na união entre os caminhos ferroviários e rodoviários, permitindo que essa região se comunique com Paranaguá e, através de Paranaguá, com a Europa. Ponta Grossa tem um lugar especial, o fato de ser um encontro de caminhos, um ponto de transição, é também local de encontro de pessoas que transitam por esses caminhos. Consequentemente, você acaba tendo uma forte presença de imigrantes europeus que chegam. Em Ponta Grossa, há imigrantes poloneses, russos, holandeses, alemães, japoneses, ao mesmo tempo que se encontram também as comunidades tradicionais quilombolas, caboclos. Cada um desses grupos produz as suas próprias identidades comunitárias. Como as pessoas conversam e se encontram, elas acabam produzindo características comuns que identificam não só a pessoa individualmente, mas o coletivo.

 

N: Entre o mesmo grupo há um contato, mas como é, por exemplo, o contato dos europeus com a comunidade quilombola?

E: Nesse caso, há os códigos que se criam socialmente para além daquele grupo. Cada um desses grupos sofre o que chamamos de forças centrípetas, que são os elementos que agregam e fazem daquele grupo a sua identidade. Há também a força centrífuga, que é aquilo que faz com que cada elemento do grupo se ligue às pessoas, aos grupos, instituições que estão fora. Então podemos ter uma comunidade imigrante hipotética que tem lá a sua religião, o seu espaço de lazer com as suas festas, o seu grupo folclórico, o cultivo da sua própria língua, ainda assim ele tem uma escola pública e, através desse local, ela tem contato com outros grupos. Dessa forma, cada grupo vive um dilema de preservação e de dispersão da sua própria identidade. O que é interessante, é que cada um desses grupos vai construindo a sua identidade aqui, isso significa que os alemães - que se sentem aqui alemães -, após uma ou duas gerações voltam para a Alemanha e não de identificam com o local, eles estão no meio de dois mundos, porque eles têm uma identidade comunitária que tem uma origem, um ponto de referência externo, mas que na verdade é construída aqui. Cada grupo possui a sua história nesse sentido. Então, entre os russos e alemães da comunidade Santa Cruz e da Colônia Sutil, você tem algumas relações de empregabilidade, de troca de serviços, de troca de favores, possuem convivência e ao mesmo tempo algo que separa, um não se sente exatamente igual ao outro.rução dessas identidade alternativas é relativamente recente. Não que não houvesse a presença na sociedade.

“Deveríamos valorizar o nosso caráter de humanidade. A minha identidade nacional como brasileiro não deveria me separar do paraguaio, do argentino ou do imigrante haitiano que chega no Brasil tentando a sua vida”.  - Edson Armando Silva

N: Como caracterizar as diferentes identidades em Ponta Grossa?

E:

Gênero e sexualidade: Há uma tradição da participação de mulheres em diversos momentos na história de Ponta Grossa, na literatura, na educação, na política pouco. É interessante que a valorização da presença da mulher no espaço pontagrossense não deixou muitas marcas. Parece que tendem a valorizar nesse momento o caráter conservador. Havia uma presença católica forte na cidade no início do século XX e há, no início do mesmo século, uma presença forte do espiritismo. Na França você tem um kardecismo vindo para o Brasil e chegando em Ponta Grossa rapidamente, justamente por Ponta Grossa ser um entroncamento ferroviário e ter a base militar. O Diário dos Campos foi veículo de vários artigos e debates em torno da presença do espiritismo, mas me parece que o afloramento de outros movimentos sociais - tanto o feminista como o LGBT - chega em Ponta Grossa a partir da década de 1980, quando há o fim da ditadura militar e um florescimento dos movimentos sociais, além da produção de um espaço de cultivo de identidades distintas. De modo geral, o fenômeno da possibilidade de construção dessas identidade alternativas é relativamente recente. Não que não houvesse a presença na sociedade.

Religião: Pensando na identidade religiosa em Ponta Grossa, eu diria que os primeiros indicadores de povoamento nos Campos Gerais está dentro do que chamamos de sociedade colonial e que se caracterizava por uma forma específica de catolicismo, um catolicismo popular e laico muito marcado pela presença de irmandades e crenças religiosas com características portuguesas. O catolicismo popular presente na região dos Campos Gerais com suas festas e marcos identitários. Em segundo lugar, você tem a presença de elementos indígenas e negros. Se o catolicismo se estrutura com a criação da diocese, já tem a presença do espiritismo, do presbiterianismo, já tem grupos luteranos, já tem a Comunidade Santa Cruz e grupos imigrantes que estão chegando e cada um deles chega com proposta própria. Então você já tem no ínicio do século XX um caldo de identidades religiosas que debatem e disputam esse ambiente em Ponta Grossa. De maneira pública e intelectual, há um grande debate com os espíritas, há intelectuais que discutem e provocam esses debates que acabam sendo veiculados pelo Diário dos Campos e, por isso, a gente acaba percebendo a presença deles.

Agricultura: Nos Campos Gerais há a atividade tropeira e a criação de gado. Então a característica de campo possibilita muito a criação, mais do que a agricultura que se formou junto com a modernização. A implantação dos campos de trigo, de arroz, milho, posteriormente, soja, vai se firmando de maneira hegemônica em Ponta Grossa. Se você voltar para a década de 1920, tem as grandes fazendas com criação e comercialização do gado na rota dos tropeiros e, no interior, a criação de uma diversidade de coisas. Ponta Grossa foi também um espaço de abate e comercialização com diversas fábricas de carne de porco, assim como Jaguariaíva. Nas décadas de 1960 e 70, há um movimento econômico chamado de ‘a modernização autoritária’, com a ideia de transformar o campo em uma extensão da fábrica. Os processos de mecanização, a adubação, a correção de solo, a plantação de monoculturas de maneira técnica, vão se implantando com poderosos incentivos governamentais. A modernização da agricultura teve como consequência a expulsão do pequeno proprietário, porque quando você produz em grande escala você reduz o preço, e o pequeno agricultor perde competitividade e começa a passar fome no campo. As pessoas que tinham acesso aos subsídios e ao financiamento do governo para a tecnologia vão ampliando suas áreas. De certa forma, se consolidam os grandes latifúndios, mudando de atividade - inicialmente o gado, depois a soja e o milho -, se consolida a grande propriedade.

Operários:  A chegada da ferrovia e a sua própria construção atraiu operários. E o fato de constituir o entroncamento ferroviário em Ponta Grossa faz com que a cidade se desenvolva como um centro de produção industrial de substituição de importação. Uma industrialização de baixa tecnologia, mas um centro comercial importante naquele momento, tanto varejista como atacadista. Isso, somado à região dos Campos Gerais, vai fazer com que haja uma grande migração rural-urbana, formando as periferias e, portanto, oferecendo uma mão de obra barata para as indústrias. No início do século, há as fábricas que acabaram se organizando em Olarias [hoje bairro Olarias], como o próprio nome diz um conjunto de olarias, a torrefação de café e a produção de óleo. E Oficinas [hoje bairro Oficinas] vivia em torno das oficinas ferroviárias.

Ione da Silva Jovino possui graduação em Letras e mestrado e doutorado em Educação. É integrante do Núcleo de Relações Étnico-raciais, Gênero e Sexualidade da UEPG e trabalha com os temas: criança, infância e raça; literatura infanto-juvenil e relações étnico-raciais; educação e diversidade étnico-racial-cultural; iconografia e representação; desigualdades no plano simbólico.

Nuntiare: O que é e o que auxilia na construção de identidade?

Ione: A identidade é formada pelas várias condições que atravessam as pessoas e pela intersecção dessas várias coisas que se constituem. É importante também pensar pelo ponto de vista de que a identidade não é fixa, ela muda. Por exemplo, a identidade racial negra é construída ao longo de toda a vida, e é importante pensar que existe uma diversidade na identidade racial negra. Você pode pensar na diversidade de gênero e analisar como é que estes lugares vivem a identidade negra. Pode pensar também numa variante geracional e em como os jovens negros vivem a identidade negra. Além disso, é possível pensar na variante regional para perceber como é que jovens negros no Amazonas vivem a identidade negra e como que os jovens negros no Rio Grande do Sul vivem essa identidade também. Então, a identidade é aquilo que nos constitui ao longo da vida e que dialoga com tudo o que a gente é e com tudo que a gente convive.

 

N: Quais são as políticas de identidade que existem em Ponta Grossa?

I: Como política municipal? Eu desconheço que exista alguma diretriz, alguma questão de política identitária em Ponta Grossa. Nos documentos da educação a gente pode pensar que tem alguns pontos da política de identidade, por exemplo, quando aponta que as crianças têm o direito de viver sua identidade racial, isso é falado especificamente nas diretrizes da educação infantil e não tanto nas diretrizes do ensino fundamental, mas é um apontamento rápido. O que a gente tem de política de identidade vem muito mais da ação das ONGs do que de uma política municipal. Até porque, nós estamos em um município que, além das identidades que ele tem de origem ucraniana e russa, ainda inventa uma identidade na cidade que nem é tão forte, como a identidade alemã. E a gente ouve pouco falar da identidade negra ou das identidades negras. Como é que os negros se organizam na cidade? Quais são os espaços negros? A gente tem pouca visibilidade. Eu acho que isso é um sintoma do Estado como um todo, e em Ponta Grossa é possível ver isso evidentemente.

 

N: Você comentou sobre as descendências europeias em Ponta Grossa, como é essa relação dos imigrantes ucranianos e russos com os descendentes negros?

I: Estudando a história da Colônia Sutil, por exemplo, a gente percebe que os historiadores locais tentam obscurecer a história desta comunidade para poder realçar a história da comunidade russa. É muito comum pegar textos contando a história dessa primeira comunidade e que colocam seus moradores como bobos, humildes naquele sentido de pessoas fáceis de serem enganadas, pessoas que perderam facilmente aquilo que ganharam porque foram ludibriadas com facilidade por alguém. A história de Ponta Grossa conta isso o tempo todo, ao mesmo tempo que aquela comunidade possui uma designação que nem ela mesma assume e nem a Fundação Palmares (que cuida da regulamentação dos territórios quilombolas). Para eles, a Colônia Sutil não é uma comunidade quilombola, é uma comunidade negra rural.

I: A Colônia Sutil não se reivindica comunidade quilombola, porque eles entendem que na cidade as pessoas tratam esse termo como pejorativo. Ao mesmo tempo, eles também querem se distanciar da ideia de que é uma comunidade de gente atrasada, sem estudo, que perdeu suas terras para imigrantes russos, só que essa é a história que os nossos livros contam, de que eles não sabem administrar, que não sabem ler e que ao mesmo tempo são submissos à comunidade que está ao lado (Comunidade dos russos - Santa Cruz). Os termos utilizados para se referir aos moradores da comunidade Sutil são extremamente pejorativos, e os termos utilizados para se referir à comunidade Santa Cruz são extremamente valorativos, dizem que eles eram imigrantes do leste europeu. Esse ‘europeu’ aparece com frequência na frase dos historiadores e é uma coisa de apagamento, como se essa comunidade não existisse.

I: O Clube 13 de Maio está no centro de Ponta Grossa, e eu demorei um tempo pra descobrir que ele existia. Embora ele seja recreativo, tem uma história que nasce no século XIX com dois negros libertos criando o clube que tem o nome de ‘Clube Literário Recreativo’. Isso é fantástico! Você imaginar uma sociedade dois anos após sair da escravidão, em que as pessoas negras se reúnem para formar um clube literário, isso é audacioso! A cidade deveria se orgulhar e contar isso aos quatro cantos. Por que quem cria um clube literário se não for uma pessoa letrada e que tenha a intenção de letrar outras pessoas? Era século XIX em Ponta Grossa, no interior do Paraná. Isso deveria estar no meio dos livros escolares das crianças em Ponta Grossa. E quando aparece nas pesquisas e nos livros de história regional, aparece de modo pequeno, como uma nota de rodapé, ou nem aparece.

 

N: A senhora comentou sobre os aspectos históricos, mas para além do Clube 13 de Maio, como a história e a cultura contribuíram para a formação dessas identidades étnico-raciais?

I: Dá para pensar tantas coisas. Por exemplo, na história de duas das minhas orientandas dá para pensar na questão da identidade racial dela, uma mulher negra que tem ligação com a fundação do Clube 13 de Maio.  Uma dessas minhas orientandas conta sobre o primeiro carnaval no Clube, que foi como um evento de família, ela ia com o pai e com a mãe, com a família toda para os carnavais. A outra, o pai foi fundador de uma das primeiras escolas de samba de Ponta Grossa, a escola chamava ‘O Tenente e suas cabrochas’, o tenente era o pai dela, e ele era membro do Clube, então tudo que acontecia com a escola de samba era comemorado, planejado e vivido dentro do Clube 13 de Maio. É a partir disso que as irmãs mais velhas dela, e depois ela, vão aprender sobre identidade negra, ou seja, a partir do carnaval do Clube, a partir da história do pai e da mãe no local. Então, muitas vezes a construção da identidade passa por esses espaços culturais, outras vezes passa pela questão do território, como é na comunidade Sutil, para mim isso está extremamente ligado. Uma ligação entre identidade cultural e identidade racial.