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Clubes Negros nos Campos Gerais: memórias e sociabilidades

Todas as terças-feiras e domingos, no Clube Recreativo Treze de Maio, região central de Ponta Grossa, mulheres e homens dividem a pista de dança da instituição nos chamados Bailes da Terceira Idade. No Clube Recreativo dos Campos Gerais, localizado na cidade vizinha de Castro, a realidade por muito tempo foi parecida, com animadas festividades aos sábados à noite. Já o Clube Recreativo Estrela da Manhã, em Tibagi, o espaço serve para encontros e eventos da população local. Nos três casos, as ações são uma das maneiras de garantir recursos para a manutenção e preservação das instituições.

Mas a história desses clubes nem sempre foi assim. Fundados entre a última década do século XIX e início do século XX, período próximo à “abolição” da escravatura no Brasil, as instituições ascenderam como forma de resistência às condições sociais que negras e negros estavam condicionados. As criações dessas entidades serviam como uma resposta destes participantes que, excluídos da realidade social, buscavam reconhecimento, sociabilização e a possibilidade de desenvolver atividades sócio-recreativas, de lazer, literatura, dentre outras, visto que em muitos espaços não podiam ser frequentados por “pessoas de cor”.

 

“A origem dos Clubes Sociais Negros remete a uma luta antiga e até mesmo anterior à “abolição” da escravatura. Quando assinada a Lei Áurea, que impedia o exercício do trabalho escravo no país, alguns clubes de caráter negro já se encontravam em atividade, mas, somente a partir do início do século XX que estas instituições começam a se proliferar, demarcando fronteiras étnicas de cidadania, identidade e diferença (Woodward, 2000), enquanto espaços legítimos de resistência e memória negra”.

Trecho do livro “Clube em Memórias: Sociabilidades Negras nos Campos Gerais”

Imagens: IPHAN (2014)

No caso dos clubes negros situados nos Campos Gerais, as similaridades não são encontradas somente na atualidade, no caráter das atividades desenvolvidas. Mesmo que espacialmente localizados em municípios diferentes, as instituições atuaram em frentes semelhantes durante suas trajetórias. “São três clubes situados no Paraná, que dialogavam em vários sentidos. Foram criados por sujeitos negros, para a população negra, com a natureza das festividades semelhantes e uma relação com a matriz cultural do samba, onde o ritmo musical tinha característica de demarcação”, afirma a historiadora pontagrossense Merylin Ricieli dos Santos.

 

Espaços de negritude

A história desses três espaços e as formas de sociabilidade no interior dessas instituições são tema do livro “Clube em Memórias: Sociabilidades Negras nos Campos Gerais”, lançado em 19 de outubro no palco externo da Casa da Cidade, em Tibagi, e em 19 de novembro, durante VIII Semana da Consciência Negra do NUREGS/UEPG, em Ponta Grossa. Organizado pela professora do departamento de Estudos da Linguagem, Ione da Silva Jovino e da historiadora e doutoranda Merylin Ricieli dos Santos, a produção contou ainda com capítulos escritos por uma jornalista e um historiador.

“Foi uma experiência muito gratificante”, revela Mariana Laís Tozetto, uma das integrantes da equipe. De acordo com a jornalista, foram 12 meses de pesquisa sobre os clubes que resultaram no livro e, também, no documentário “Clube de Preto”. “Tentamos recuperar as memórias das pessoas que frequentaram esses espaços e, também, documentos e fotografias que serviram para embasar e ilustrar os capítulos. Conseguimos, assim, resgatar e contar um pouco da história dos clubes negros nos Campos Gerais”, afirma.

“CAPA DO LIVRO Clube em Memórias: Sociabilidades Negras nos Campos Gerais”, LANÇADO EM 2018.

Para a construção do trabalho, os pesquisadores realizaram levantamento documental, visitas às instituições, entrevistas com frequentadores, fotografias e o relatório de mapeamento dos clubes negros do Paraná, cedido pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN). No processo produtivo não foram questionados somente personagens negros, uma vez que as instituições abriam suas portas para todos os frequentadores que desejassem participar dos eventos.

A discussão principal do livro evidenciou os clubes negros dos Campos Gerais, incluindo o Clube Treze de Maio, fundado em 1980 em Ponta Grossa, o Clube Recreativo dos Campos Gerais, situado em Castro e de 1917 e o Clube Estrela da Manhã, em Tibagi, criado em 1934, enquanto espaços de sociabilidades negras, que preservam histórias, memórias e trajetórias a partir da identificação social com tais sociedades recreativas locais. Fizeram parte do projeto professores e estudantes das áreas de Letras, História e Jornalismo.

FONTE: MUSEU DOS CAMPOS GERAIS

Como similaridades, além de serem fundados com o mesmo objetivo e manterem relação com o samba, os três clubes possuíam grêmios recreativos e se assemelhavam nas festividades, com características religiosas, bailes de carnavais e concursos de beleza negra. Nas comemorações carnavalescas, como aponta o livro, havia interação entre as entidades com visitas entre os clubes. Outra semelhança, como recupera Merylin Ricieli dos Santos, havia uma preocupação em todas as instituições em manter a ordem, principalmente a partir da regulamentação das vestimentas usadas pelos frequentadores, na tentativa de que os clubes não ficassem mal vistos perante a sociedade.

Para a historiadora, a produção do livro “Clubes em Memórias: Sociabilidades Negras nos Campos Gerais” e do documentário “Clube de Preto” têm uma importância necessária, principalmente considerando as conjunturas políticas atuais, que não consideram as lutas das minorias. “Preservar e divulgar essas histórias é ajudar a construir identidades negras positivas e perceber o lugar da cultura negra na região, que por muitas vezes se coloca como branca. Além disso, a importância está em compreender e preservar essas histórias a partir de narrativas negras, de vozes de sujeitos que nesses espaços estavam inseridos e tinham os clubes como referencial de identificação”, aponta Merylin.

O “Clube em Memórias: Sociabilidades Negras nos Campos Gerais” está disponível para compra no site da Editora CRV e para download no aplicativo

“Sociabilidades Negras nos Campos Gerais: Histórias, Trajetórias e Memórias”

O projeto “Sociabilidades Negras nos Campos Gerais: Histórias, Trajetórias e Memórias”, desenvolvido pelo Núcleo de Relações Étnico-Raciais, de Gênero e Sexualidade (NUREGS) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e aprovado pela da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI), vinculado a Universidade Sem Fronteiras (USF), promoveu suas as atividades por 12 meses, a partir de abril de 2017. Desde 2010, o NUREGS atua em uma ampla abordagem, discussão e construção de propostas que contribuem para políticas públicas e ações que visem à desconstrução do racismo e estereótipos que se fazem presentes na realidade social, a partir de projetos, produções de livros, equidade na pós-graduação e cursos de formação de professores.

Reportagem:

Gustavo Ban

Foto:

Veridiane Parize

1 thought on “Clubes Negros nos Campos Gerais: memórias e sociabilidades

  1. Onde consigo encontrar o documentário Clube de Preto para assistir?? Procurei na Internet mas não achei. Agradeço!

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