Parar de fumar: mudanças de hábitos ajudam a combater o vício

Parar de fumar: mudanças de hábitos ajudam a combater o vício

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Atuando desde 2008, projeto de extensão da UEPG já ajudou 42% dos pacientes atendidos a abandonarem o cigarro

Desde 1986, o dia 29 de agosto é comemorado como o Dia Nacional de Combate ao Fumo, criado pela Lei Federal 7.488, com o objetivo de reforçar ações de sensibilização e mobilização da população para os danos sociais, políticos, econômicos e ambientais causados pelo tabaco. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2018, o Brasil ocupa o oitavo lugar no ranking de fumantes no mundo, com 18 milhões de pessoas que consomem tabaco diariamente. Segundo o estudo “Tobacco Atlas”, produzido pela ONG norte-americana Vital Strategies, somente em 2016, foram consumidos 5,7 trilhões de cigarros no planeta.

Mesmo que o Brasil figure na lista, os números apresentam melhoras. Conforme dados do Ministério da Saúde de 2016, nos últimos 25 anos, o país reduziu o número de fumantes, e o percentual de consumidores diários caiu de 29% para 12%, entre os homens, e de 19% para 8%, entre as mulheres, colocando o país entre os que mais reduziram tabagistas.

Eduarda Marcondes, professora da rede estadual de ensino, é fumante há dez anos e tenta pela quinta vez

abandonar o vício. “Comecei a fumar aos 15 anos, em uma brincadeira com os amigos. Antes disso, eu tinha verdadeiro pavor ao cheiro quando minha mãe acendia um cigarro”, afirma. O consumo de cigarros entre crianças e adolescentes é uma realidade mundial. Conforme demonstra o “Atlas do Tabaco”, o número estimado de meninos e meninas entre 13 e 15 anos que fumam ou usam produtos de tabaco é de aproximadamente 38 milhões.

Ela está novamente em processo de desintoxicação e relembra as dificuldades. “É frustrante quando acontece uma recaída. É decepcionante para você e para todas as pessoas que confiam que dessa vez é para valer. Mas é um esforço desgastante, às vezes, é uma dor até física que a ausência do cigarro provoca”. Nas cinco tentativas, a professora mudou hábitos sociais, comportamentais e de consumo para manter-se longe do cigarro. “Mas é um vício, um hábito. Você fuma por que está feliz, fuma por que está triste, por que está ansioso. Qualquer motivo vira justificativa para acender um cigarro”, afirma.

De acordo com o Levantamento da Organização Mundial da Saúde, em 2020, cerca de 7,5 milhões de mortes terão como causa o hábito de fumar. Em 2011, o total foi de aproximadamente 6 milhões. (Foto: Gustavo Ban)

A dependência do tabagismo é causada, principalmente, pela substância nicotina, presente na composição do cigarro. “No cérebro, a nicotina interage com receptores colinérgicos nicotínicos, ligados à liberação de dopamina, responsável pelos efeitos euforizantes ou prazerosos que o cigarro causa”, afirma o clínico geral Fellipe Antônio Canhetti Corrêa. Além disso, a nicotina aumenta a liberação de enzimas que retardam a degradação da dopamina, levando a uma extensão de seus efeitos sistêmicos.

Um único cigarro tem entre 10 e 20 miligramas de nicotina. Dessa quantia, uma a duas miligramas entram na corrente sanguínea do fumante através dos pulmões ou por via das membranas mucosas. O vício se manifesta a partir da vontade que a pessoa tem pela substância quando ela atinge um baixo valor na corrente sanguínea.

Um receptor colinérgico é uma proteína integral de membrana que gera uma resposta a partir de uma molécula de acetilcolina. Encontra-se principalmente nas terminações neuromusculares e tanto no sistema nervoso central, como no periférico.

A dopamina é um dos neurotransmissores do sistema nervoso. Sua principal função é ativar os circuitos de recompensa do cérebro.

Cada dia é um novo dia sem cigarro

Jann Sauka é professor de economia e administração na rede pública e privada de ensino e passou oito dos seus 31 anos fumando. Há cerca de um mês e meio, a partir de um grupo de apoio criado por seus amigos, parou de fumar. Depois disso, outras motivações pesaram na escolha. "Principalmente relacionadas a questões de cheiro, aparência da pele e, também, à economia de dinheiro", garante.

“Tive que fazer um processo psicológico para não ceder. Os primeiros 15 dias são horríveis, tudo se altera, e a irritação é o sentimento que mais se faz presente. Com o passar dos dias, o cheiro e o paladar se modificam e fica mais agradável se alimentar e perceber que você e sua roupa não cheiram mal. Na ansiedade, tudo que eu desejava era um cigarro. Em momentos assim, focalizei em exercícios e em cozinhar, e deu bons resultados”, afirma.

Para a psicóloga Gisah Salloum, modificar comportamentos associativos ao cigarro e alterar a rotina que favorece o ato de fumar são algumas das estratégias adotadas no tratamento psicológico para quem deseja abandonar o vício.

De acordo com Gisah, que possui experiência em grupos terapêuticos tabagistas, existem ainda outras estratégias no tratamento, como a psicoterapia individual e em grupo. “Nos dois casos, é trabalhado o que motiva o sujeito a fazer o uso do cigarro e o porquê ele fuma. Tentar investigar se é a ansiedade, compulsão por fumar, se é um comportamento condicionado ou aprendido, se é uma questão cultural, onde ele está inserido, o que significa o ato de fumar, os estímulos que o fazem ter esse comportamento e de que forma o cigarro compensa o indivíduo, ou seja, quais os ganhos e prazeres que ele tem quando fuma”, afirma a psicóloga.

“Educando e Tratando o Tabagismo”

Desde 2007, existe na Universidade Estadual de Ponta Grossa uma iniciativa que atua na prevenção e educação sobre o tabagismo, sensibilizando a comunidade sobre os riscos do vício no tabaco e a ação no organismo. Trata-se do projeto de extensão “Educando e Tratando o Tabagismo”, com abordagem multidisciplinar envolvendo professores e estudantes de Enfermagem, Medicina, Odontologia, Farmácia e Serviço Social.
O projeto iniciou com o objetivo de atender a comunidade tabagista interna da universidade e demais fumantes da cidade de Ponta Grossa, encaminhados pelas Unidades Básicas da Saúde e Unidades de Saúde da Família. Os pacientes são atendidos a partir dos quatro manuais “Deixando de Fumar sem Mistérios”, do Instituto Nacional do Câncer em parceria com o Ministério da Saúde, como material de apoio.

Reportagem:
Gustavo Ban

De acordo com a médica Iara Iasmin Lima Grando, residente de Medicina de Família e Comunidade do Hospital Universitário Regional dos Campos Gerais (HURCG), o projeto funciona a partir de quatro encontros quinzenais, em grupos de aproximadamente 15 participantes. “Os encontros têm como principal atividade a abordagem cognitivo-comportamental em grupo e individualmente. São abordados temas como o porquê as pessoas fumam, benefícios do abandono do tabaco e como enfrentar a abstinência. Os participantes também passam por consulta médica a partir do segundo encontro, onde é avaliada a necessidade de terapia medicamentosa associada com terapia de reposição de nicotina ou uso de medicamentação”, afirma Iara, que participa do projeto desde 2017, como uma das atividades extras da residência. Segundo a médica, desde o início do projeto, 42% das pessoas que iniciaram o tratamento abandonaram o vício.