Para uma cidade mais saudável

Para uma cidade mais saudável

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

O programa “Estratégia de Saúde da Família”, antigo Programa Saúde da Família (PSF) visa a reversão do modelo assistencial vigente, em que predomina o atendimento emergencial ao doente, na maioria das vezes em grandes hospitais, tornando a família o objeto de atenção no ambiente em que vive. Segundo o programa de Políticas Nacionais de Atenção Básica (PNAB), a estratégia “inclui ações de promoção da saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes.”
No ano de 2001, foram implantadas na cidade de Ponta Grossa as três primeiras Equipes de Saúde da Família. Atualmente, a cidade contabiliza 54 Unidades Básicas de Saúde (UBS) participantes do programa, com 80 Equipes de Saúde da Família, totalizando cerca de 800 servidores. Instaladas próximas ao local onde as pessoas moram, as unidades desempenham um papel central no acesso à saúde de qualidade. Os bairros atendidos pelas UBS são definidos pela proximidade às mesmas, visando o contato pessoal e o diálogo com a comunidade.

“Responder, perto da casa das pessoas, à maioria das necessidades de saúde, com agilidade e qualidade e de modo acolhedor e humanizado” é uma das diretrizes das PNAB, segundo o Ministério da Saúde.
O direito constitucional à saúde e a criação de um Sistema de Saúde Universal e Integral trouxeram novas provocações às Instituições de Ensino Superior (IES) e às práticas de educação dos profissionais de saúde. Nesta direção, o Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde, o Pró-Saúde, e o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde, o pet-saúde, são ferramentas de apoio institucional do MS que tem possibilitado a discussão local e nacional da formação em saúde, integrando ensino-serviço-comunidade e resultando na geração de possibilidades de desenvolvimento de pesquisas científicas diretamente relacionadas com as necessidades imediatas da população atendida pelo SUS. De acordo com o MS, dessas políticas indutoras a médio-longo prazo, espera-se a formação de profissionais aptos para a integralidade do cuidado e a participação da comunidade na construção e implantação das redes de atenção à saúde no Brasil.
Esses questionamentos têm sido determinantes para a implantação de várias estratégias com o intuito de favorecer e estimular as IES brasileiras e os serviços de saúde como formadores de profissionais das áreas das ciências de saúde. A Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), foi contemplada com o primeiro Pet-saúde em 2012. Esse programa incluiu acadêmicos da área da saúde, como Medicina, Enfermagem, Odontologia, Educação Física e Farmácia, assim como acadêmicos de Serviço Social, que tiveram atuação direta dentro das UBS do município em contato com a comunidade. De acordo com o Ministério da Saúde, o PET-Saúde “tem como pressuposto a educação pelo trabalho e pretende ainda promover e qualificar a integração ensino-serviço-comunidade, envolvendo docentes, estudantes de graduação e profissionais de saúde para o desenvolvimento de atividades na rede pública de saúde, de forma que as necessidades dos serviços sejam fonte de produção de conhecimento e pesquisa em temas e áreas estratégicas do SUS.”
Desde 2012 até 2018, 40 alunos da UEPG receberam bolsas de Extensão e Pesquisa pelo programa PET-Saúde,

gerando diversos artigos e conteúdos científicos, além de atividades práticas voltadas ao dia-a-dia do SUS.
Além disso, criou-se na UEPG, em 2017, a disciplina de diversificação e aprofundamento chamada “Linha de Estudos Multiprofissionais”. Estão matriculados na mesma sala acadêmicos dos cursos da área da saúde e serviço social que, com tutoria de professores dos respectivos cursos, passam a ser desafiados a desenvolver um projeto junto a uma UBS. Uma das criadoras dessa disciplina foi a Diretora do Setor de Ciências Biológicas e da Saúde na UEPG, a professora Fabiana Postiglione Mansani. Um dos pontos fortes da inserção formal de uma disciplina como essa no currículo da UEPG, segundo a professora, é “fortalecer essa interdisciplinaridade na formação profissional, visto que hoje o profissional de saúde não trabalha mais sozinho. As ações são multidisciplinares, e isso as próprias diretrizes das patologias e das intervenções junto ao paciente exigem que haja a relação entre as diversas profissões que cuidam do paciente”.
Um dos projetos que resultou do trabalho do PET-Saúde, foi apresentado em um congresso no Peru, em 2017. A pesquisa “Uma medicina personalizada através do Projeto Terapêutico Singular” permitiu que os internos percebessem a realidade distinta da população e que nas UBS que aperfeiçoem a relação médico-paciente e acima de tudo, melhorassem a qualidade de vida e assistência aos pacientes e famílias acompanhadas. O Projeto Terapêutico relatou a melhora clínica da qualidade de vida que pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica grave apresentaram após o acompanhamento dos acadêmicos. Outros casos corroboram que as visitas domiciliares regulares pelos acadêmicos fazem com que os pacientes melhorem a adesão ao tratamento e em última analise e recupere suas doenças.
Para a professora Fabiana a importância é comprovar que durante todos esses anos de PET-Saúde foram desenvolvidas ações de educação em saúde, de inserção do acadêmico na prática e também pela importância do trabalho científico mesmo, podendo demonstrar por vias científicas o conhecimento desenvolvido na UEPG, além de inserir o aluno no desenvolvimento dessas ações junto ao SUS e as UBS.

Trabalho com gestantes

A UBS Nilton Luiz de Castro, do bairro Tarobá, localiza-se a seis quilômetros do Terminal Central de Ponta Grossa e é umas das unidades pioneiras do programa na cidade. A unidade atende aproximadamente a 12 mil habitantes em uma área de 10 bairros ao seu entorno. Fazem parte do quadro de funcionários uma farmacêutica, três médicos intercambistas, três enfermeiras e uma equipe de seis técnicos em enfermagem, dois funcionários administrativos, uma zeladora e 13 agentes comunitários de saúde.
A unidade do Tarobá oferece, além dos atendimentos clínicos, diversos serviços para a comunidade. Um deles é o grupo de gestantes. Funcionários da UBS se reúnem com as gestantes da comunidade e tiram dúvidas sobre amamentação, pré-natal e medicamentos permitidos durante a gestação. Para a enfermeira Carolina Weigel Sieklicki, o grupo de gestantes aproxima os funcionários da UBS com as famílias da comunidade que atendem. Carolina coordena a dinâmica que acontece semanalmente dentro da Associação de Moradores do Bairro Tarobá. Sentadas em um círculo improvisado estão quatro gestantes, três acadêmicos de Enfermagem da UEPG, extensionistas do projeto Saúde e Educação, e três agentes comunitárias. Uma caixinha com perguntas circula enquanto uma música toca. Quando a música para, uma das participantes retira uma pergunta e tenta respondê-la.
Dessa forma descontraída, as dúvidas das participantes são respondidas. “A gente não chega lá e dá uma palestra, a gente senta e conversa. Troca experiências. É um complemento ao trabalho feito na unidade”, analisa a enfermeira.

A técnica em enfermagem e moradora do bairro Tarobá, Simone Betim Soares, participa do grupo de gestantes sempre que pode e aproveita as reuniões para tirar dúvidas e trocar experiências. No primeiro trimestre de sua segunda gravidez, Simone conta que há 18 anos o processo de acompanhamento e esclarecimento não era nada parecido com hoje em dia. “Faz muita falta esse acompanhamento. Ser mãe, de primeira viagem ou não, não é fácil. E esse contato olho a olho ajuda muito, porque mesmo com a internet facilitando as coisas, é muito mais seguro esclarecer as dúvidas com profissionais”, comenta.

A enfermeira Carolina ressalta que um dos objetivos de uma unidade de atenção básica não é só diagnóstico e tratamento, mas principalmente a o trabalho preventivo junto à comunidade. Muitas pessoas buscam um atendimento secundário como primeira opção, como o Pronto Socorro, por exemplo, e acabam retornando à UBS de seus bairros. A população consegue, através da unidade de saúde, o atendimento mais próximo de sua casa, possibilitando uma orientação mais rápida e capacitada para seu tratamento. “A gente cria um vínculo com a comunidade. Há crianças aqui que eu orientei os pais durante a gestação e agora já estão com 15 anos. Daqui a pouco elas vão começar a namorar, e eu vou estar aqui para orientar elas também. Essa familiaridade ajuda muito na hora do diálogo com a comunidade. Se um paciente fica um tempo sem aparecer, a gente corre atrás dele para cobrar mais participação, assim como eles cobram a gente também”, conclui.

Empoderamento do paciente

A unidade Nilton Luiz de Castro fica a 3 km do Campus de Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde fica a sede do curso de Farmácia da instituição. Um dos projetos de extensão oferecidos pelo curso é o “Educação e Saúde”, que existe desde 2010, mas que em 2012 iniciou as atividades integradas com a UBS do Tarobá. Um dos objetivos do projeto é orientar a população ao melhor uso da insulina através de visitas domiciliares e da avaliação da qualidade de vida dos insulinizados da região atendida pelo posto. As medidas tomadas no início do projeto visavam melhorar o conhecimento da população quanto a transporte, armazenamento, aplicação e rodízio de insulina.

Para a professora e coordenadora do projeto, Gerusa Halila Possagno, a aplicação do projeto permitiu que eles percebessem um fator característico do processo de educação em saúde que é a repetição das orientações. “Não é com uma orientação que a pessoa vai internalizar as informações. O processo é de repetição, de educação”, esclarece a professora. O projeto hoje realiza a consulta farmacêutica, que promove o encontro supervisionado dos acadêmicos com pacientes que a farmacêutica responsável da unidade de saúde considera necessário uma consulta aprofundada. Nesse espaço podem ser oferecidos diversos serviços de acordo com a necessidade do paciente, como revisão da medicação, conciliação dos medicamentos e encaminhamento médico.

O programa tem como objetivo auxiliar o serviço de farmácia do município a melhor atender os pacientes, através dos serviços farmacêuticos clínicos. A visita domiciliar dos alunos visa auxiliar pacientes insulinizados, mas é possível detectar outros problemas de saúde não tratados. Os alunos trazem essas demandas para a farmacêutica da unidade, paciente por paciente de maneira individual. “Até pensamos em uma orientação coletiva para otimizar tempo, mas o trabalho individual é mais proveitoso, porque os alunos conseguem detectar as dificuldades pontuais”, conclui.
A farmacêutica responsável há 16 anos pela unidade do Tarobá, Maria José Silva defende que o PSF foca na

Reportagem:
Pedro Guimarães

prestação de serviço para os problemas já instalados, como é o caso da diabetes, buscando evitar as futuras complicações, através de acompanhamento preventivo e educação. “A saúde no país só vai melhorar quando o próprio paciente tiver condições de ele mesmo saber cuidar da sua saúde. Esse processo de conscientização nasce do trabalho educativo”. Para a farmacêutica, a função da atenção básica na saúde é ajudar o paciente a se empoderar sobre a sua situação, pois só assim se pode alcançar o objetivo de aliar educação e saúde. Ela ainda ressalta a importância de projetos como o “Educação e Saúde”. “Iniciativas assim nos ajudam a ampliar nossas ações, amplia nossas competências e nos permite ter mais braços para atingir a comunidade”, analisa.

De acordo com o Secretário Adjunto de Gestão em Saúde, Robson Xavier, na Atenção Primária, 85% dos problemas em saúde de uma população podem ser resolvidos. “Investir nesse nível de complexidade além de ser uma estratégia nacional, também deve ser dos municípios, considerando que há um alto investimento na média e alta complexidade, às vezes, desnecessários, caso os problemas mais frequentes fossem enfrentados e resolvidos na Atenção Primária”, analisa. Robson ainda destaca que a melhoria de diversos indicadores, tais como a redução da mortalidade materna e infantil, bem como o aumento da expectativa de vida da população estão fortemente evidenciados e associados à Estratégia Saúde da Família.