Os 114 anos da Revolta da Vacina

Os 114 anos da Revolta da Vacina

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Em 1904, no dia 10 de novembro, iniciava a Revolta da Vacina, uma das mais importantes insurreições populares do Brasil

A revolta da Vacina se deu durante a Primeira República, período da história brasileira que se estendeu de 1889 a 1930. Em 1904, a cidade do Rio de Janeiro era a capital federal do Brasil. O clima de descontentamento popular com as medidas tomadas pelo governo era grande. Uma delas, que deu início à Revolta, foi a reforma urbana do Rio. O resultado foi o desalojamento de milhares de pessoas, depois da demolição de cortiços e habitações populares para construção de avenidas e edifícios modernos. Esses lugares eram habitados pela população mais pobre, que se refugiou nos morros cariocas ou em bairros distantes da periferia, originando as favelas.
Na época, a peste bubônica, a febre amarela e a varíola já eram epidemia na cidade.

Charge publicada na revista “O Malho” antes da revolta acontecer. “Napoleão da Seringa e Lanceta”. (Acervo da biblioteca da Casa de Oswaldo Cruz)

As favelas eram locais sem nenhuma estrutura ou saneamento básico, cuja superlotação agravou as epidemias.
Para controlar as doenças, o presidente Rodrigues Alves e o prefeito do Rio, Pereira Passos, chamaram o médico especializado em microbiologia, Oswaldo Cruz. O médico controlou a peste bubônica através da eliminação dos ratos da cidade. Com o feito, Oswaldo Cruz assumiu o cargo de diretor geral de saúde pública do Rio.

Sua primeira “missão” foi acabar com a febre amarela. O uso de carroças pulverizadoras e a diminuição dos mosquitos Aedes aegypti baixou drasticamente os casos de doença. O objetivo principal, no entanto, era erradicar a varíola.
A vacina contra o viral da Varíola já tinha sido utilizada na França, onde a principal substância era o próprio vírus causador da doença encontrado nas vacas. Isso deixou a população em pânico.
As favelas eram locais sem nenhuma estrutura ou saneamento básico, cuja superlotação agravou as epidemias.

Carroças pulverizadoras. (Acervo da biblioteca da Casa de Oswaldo Cruz)

Para controlar as doenças, o presidente Rodrigues Alves e o prefeito do Rio, Pereira Passos, chamaram o médico especializado em microbiologia, Oswaldo Cruz. O médico controlou a peste bubônica através da eliminação dos ratos da cidade. Com o feito, Oswaldo Cruz assumiu o cargo de diretor geral de saúde pública do Rio.

O professor especializado em saúde pública, Ronaldo Ribeiro Jacobina, em seu artigo “Educação em saúde e suas versões na história brasileira” conta que a higienização foi marcada por uma educação controladora. “Acreditava-se que apenas a divulgação de informativos seria suficiente para provocar as mudanças pretendidas nos comportamentos dos indivíduos”, explica Jacobina. O professor segue afirmando que não houve preocupação em alertar a população sobre a utilidade da vacina, ela apenas se tornou obrigatória obrigatória.

Bonde virado na Praça da República. (Acervo da biblioteca da Casa de Oswaldo Cruz)

As brigadas sanitárias passaram a invadir as casas e vacinar as pessoas à força. A população, sem informações suficientes, se recusava a tomar a vacina. Os agentes, que eram militares, tratavam as pessoas com violência e descaso. E foi aí que iniciou a Revolta, com duração de seis dias.
Vários prédios públicos e bondes foram destruídos. O governo federal decretou estado de sítio na cidade, impondo a suspensão temporária de direitos e garantias constitucionais. Segundo dados da casa Oswaldo Cruz cerca de 30 pessoas morreram, 100 ficaram feridas, 945 foram presas, das quais aproximadamente metade foram deportadas para o Acre.

A revolta conseguiu a revogação da lei da vacina, deixando de ser obrigatória por um tempo. Aos poucos a varíola foi desaparecendo, sendo totalmente erradicada somente em 1970.

“Ao considerar, que a maior incidência de doenças e mortalidade infantil ocorria na classe trabalhadora pela falta de cuidados pessoais, ou que esta situação era devido à ignorância desta população, os higienistas negavam a diferença de recursos necessários à preservação da saúde em decorrência da diferença entre classes sociais, entendendo, assim, que o melhor encaminhamento era propor ao Estado educar esta população. Esta educação se dirigia aos pobres não para mudanças das condições de vida geradoras de doença, mas para mostrar que eles eram os únicos responsáveis pelas doenças que sofriam”, afirma o professor Jacobina. A Revolta da Vacina tinha classe social, e ocorreu devido ao despreparo do governo em situar, educar e conscientizar a população.

Hoje, em 2018, 114 anos depois da Revolta da Vacina, o Brasil sofre novamente com frequentes surtos de doenças transmitidas por mosquitos e o risco de volta de doenças que haviam sido controladas. Um exemplo é a poliomielite, da qual o país não registrava um caso sequer desde 1989, e que o Ministério da Saúde emitiu um alerta no início de julho desse ano.

A meta nacional é manter uma taxa de imunização de 95%, mas ela está em queda, rondando os 60%. Essa crise na saúde pública mistura falta de investimento, restrições do acesso à vacina, e relaxamento, tanto do governo, quanto da população.

Fila de presos na Ilha das Cobras. (Acervo da biblioteca da Casa de Oswaldo Cruz)

Além disso, a publicidade institucional do Ministério da Saúde teve uma queda em 2016, somando R$20 milhões. Voltou a crescer neste ano, com R$34 milhões, mas ainda não chegou aos valores de 2013, R$ 232 milhões, segundo dados do Relatório de Investimento do Ministério da Saúde.
Assim, como vimos em 1904, a falta de informação, principalmente em relação a saúde, pode gerar um caos desnecessário. A divulgação das campanhas de vacinação é expressamente necessária para manter a população consciente sobre a necessidade da vacinação.

Reportagem:

Kimberlly Safraide