O mercado das publicações científicas

O mercado das publicações científicas

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

A publicação em revista científica tem importância fundamental tanto para o pesquisador, que estará divulgando o resultado do seu trabalho, quanto para a sociedade, que será beneficiada com aquela divulgação. O intuito dos periódicos científicos é disseminar os estudos e pesquisas, entretanto este não é o único motivos das publicações. A divulgação em revistas científicas tem bastante peso no currículo do pesquisador: além de ser requisito para aprovação em Programas de Pós-Graduação, aumenta a pontuação em concursos para ingresso na docência em universidades públicas e privadas. Ou seja, quanto mais artigos ou pesquisas você tem publicado, mais reconhecimento terá.

Como as revistas são qualificadas?
No Brasil, o Qualis-Periódicos é um sistema da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) que classifica as revistas científicas dos Programas de Pós Graduação (PPG). A classificação é feita com base nas informações do aplicativo “Coleta de Dados” e visa atender as necessidades específicas do sistema de avaliação.
As revistas científicas são estratificadas nos indicativos de qualidade A1 e A2, de excelência internacional, B1 e B2, de excelência nacional, B3, B4 e B5, de relevância média, e C - de baixa relevância. De acordo com informações da Plataforma Sucupira, essa classificação é realizada por comitês de consultores da cada área de avaliação, com critérios previamente estabelecidos “que procuram refletir a importância relativa dos diferentes periódicos para uma determinada área”.
Segundo o próprio portal, “a função do QUALIS é exclusivamente para avaliar a produção científica dos programas de pós-graduação”. Além da classificação, os periódicos avaliados pela CAPES possuem o International Standard Serial Number, o ISSN, um identificador aceito internacionalmente para individualizar o título de uma publicação seriada.

Publicações pagas X Publicações gratuitas
As publicações em revistas científicas podem se dar basicamente de duas maneiras: de forma gratuita ou com algum tipo de taxa. Nos periódicos com publicações gratuitas, o autor é convidado a escrever um artigo ou submete o texto, que passa por um processo de avaliação e seleção.
Na modalidade paga, são duas etapas que podem ser taxadas: antes ou após a aceitação do artigo. As taxas de pré aceitação são de submissão e de inscrição. O pagamento no momento da submissão geralmente é cobrado com o pretexto de financiar a administração editorial e a revisão. O taxamento de inscrição é um pagamento único, para custear o processo editorial, revisão e possível publicação.
Quando se trata do acesso às revistas, também são duas as modalidades: revistas de acesso restrito, onde quem paga é o leitor - que pode ser uma biblioteca ou uma instituição - e revistas de acesso livre, geralmente disponibilizadas online.

Como funciona na UEPG?
A Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) possui 21 Programas de Pós Graduação (PPG), além de 3 Mestrados Profissionais, divididos nas grandes áreas: Agrárias e de Tecnologia; Biológicas e da Saúde; Exatas e Naturais; Humanas, Letras e Artes; e Sociais Aplicadas. Ao todo, são 20 revistas de divulgação científica, todas de acesso gratuito no Portal de Periódicos um serviço no qual os periódicos científicos dos PPGs da Universidade são disponibilizados em acesso livre, permitindo leitura e pesquisa por usuários do mundo todo.
O investimento financeiro feito pela Editora UEPG nos periódicos institucionais é o relativo ao pagamento da taxa de D.O.I

O “Identificador de Objeto Digital” (DOI) é um padrão de letras e números atribuídos ao objeto digital para que este seja unicamente identificado na internet

“O custeio restante é de responsabilidade do órgão proponente e muitas vezes estes contam com financiamento externo proveniente de editais CNPQ e Fundação Araucária. A Editora também apoia os periódicos por meio dos trabalhos de diagramação”, afirma Beatriz Gomes Nadal, Diretora da Editora UEPG.

 

Os PPGs costumam financiar publicações em outras revistas ou é cada pesquisador por si?

A reportagem entrou em contato com Programas de Pós-Graduação da UEPG. Segundo o PPG - Odontologia, eles não financiam publicações dos pesquisadores em revista científica e publicam em revistas que não cobram. A coordenadora do programa, Professora Doutora Denise Wambier, explica que grande parte das revistas científicas da área são de acesso gratuito, por isso não precisam comprar, por conta própria, revistas internacionais.

Para o professor Roberto Artoni, pesquisador e coordenador do PPG - Biologia Evolutiva, as políticas que gerem a área da pesquisa no Brasil fazem com que os pesquisadores tenham que custear suas publicações.

“O Brasil tem buscado freneticamente pela formação de doutores nas últimas décadas, haja vista que este é um dos índices em que nosso país fica muito abaixo dos demais países do BRICS [bloco econômico formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Contraditoriamente, o investimento na pesquisa e na pós-graduação só tem diminuído, e hoje lutamos para não ter reduzido à metade o orçamento de 2019, este que em 2018 já havia sofrido um corte de cerca de 70% em relação aos anos anteriores. Novamente, com a desculpa de um sistema inflado de

programas de pós-graduação, a política dos nossos órgãos reguladores é a de apertar o cinto, exigindo mais publicações e com maior fator de impacto. Especialmente neste quesito, sem contar todo o importante viés da boa formação acadêmica e de pesquisa, sofremos mais uma vez. A tendência global é de que as grandes editoras se convertam mais e mais na opção "Open Access". O que isto significa? Que a informação está disponível para livre acesso por qualquer cidadão que tenha acesso a internet. Fantástico, democratizar e socializar a informação científica. Contudo, os custos de editoração e publicação recaem sobre os autores. Nos países desenvolvidos é diferente, pois eles contratam estas editoras e seus pesquisadores têm livre acesso também para publicar seus artigos. Assim, se não quisermos ter os nossos programas descredenciados ou manter a produtividade e, com isto, a competitividade pela busca de financiamento de novos projetos, somos obrigados a fazer vaquinha ou custear diretamente nossas melhores publicações. Imagine esta situação neste cenário de incerteza política e financeira onde o dólar sobe a índices estratosféricos. Esta é a nossa realidade”.

“Publicações Predatórias”
No mundo acadêmico, um serviço que chama a atenção dos pesquisadores são as chamadas Publicações Científicas Predatórias, que aceitam qualquer material para publicação, sem revisão e sem indexação em bases de dados confiáveis. Um exemplo disso seria a Global Journal for Research Analysis (GJRA), periódico internacional de acesso aberto, que fornece espaço para pesquisas na área médica. A publicação não é apenas composta por artigos, sendo também aceitos resenhas, comunicações breves e relatos de caso. Segundo o comunicado da GJRA, “autores são encorajados a publicar seus resultados experimentais e teóricos sobre os processos moleculares e celulares na doença, aumentando assim a compreensão dos princípios fundamentais e das questões biológicas dos medicamentos”. A reportagem da Revista Nuntiare entrou em contato com a GJRA para compreender a política de publicação, mas não obteve retorno.
Contudo, algo chama a atenção: após o envio do material, a publicação acontece em até três dias úteis. A questão é o pagamento dos pesquisadores. Para autores de fora da Índia, país de origem da revista, o autor deve pagar 100 dólares (384 reais) para um artigo de duas mil palavras. Para cada autor adicional, é cobrado 50 dólares (192 reais) a mais, assim como para palavras extras: a cada 750 palavras cobram-se 50 dólares (192 reais). Os valores não são reembolsáveis, e o pagamento pode ser feito via cartões de crédito ou PayPal.
A publicação em revistas consideradas predatórias ajuda a encher o Curriculum Vitae daqueles que usam desse recurso e, consequentemente, prejudica tanto resultados de concursos acadêmicos, onde o CV é levado em consideração no resultado, quanto estatísticas de produção científica. Para o Prof. Dr. Marcos Palacios, do PPG em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, publicar em revistas efetivamente predadoras estigmatiza como desonesto academicamente o autor que recorre a esse atalho facilitador. “Num ambiente de enviesamento produtivista, como é o caso atualmente no Brasil, é preciso estar atento e não ceder à tentação das publicações ‘fáceis’, que engordam currículos, mas podem manchar reputações”, ressalta Palacios.