Diagnóstico preciso: dificuldade no tratamento do Alzheimer

Diagnóstico preciso: dificuldade no tratamento do Alzheimer

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Entrevista com doutora em Ciências Biológicas e presidente da Associação de Estudos, Pesquisa e Auxílio aos Portadores de Alzheimer revela aspectos da doença

O mês de setembro é dedicado à doença de Alzheimer, considerada a enfermidade do esquecimento. A patologia causa a perda de funções cognitivas, o que acaba reduzindo a capacidade de relações sociais e de desenvolvimento de atividades do dia a dia. No Brasil, o número de pessoas com Alzheimer chega a 1,2 milhão e apenas metade delas realiza o tratamento, de acordo com a Associação Brasileira do Alzheimer. Além disso, a cada duas pessoas com a doença, apenas uma sabe que tem.
O sintoma inicial e mais característico do Alzheimer é o esquecimento, mas ainda não há consenso entre os cientistas sobre o motivo do declínio cognitivo. O que se tem conhecimento é que a enfermidade tem incidência maior na população idosa, já que a degeneração do cérebro começa geralmente a partir dos 50 anos e, conforme a idade vai avançando, aumenta a probabilidade de desenvolvê-la, pois o cérebro vai perdendo automaticamente suas funções cognitivas.
A pesquisa científica é um caminho para estudar a doença, encontrar novas maneiras de tratá-la e, assim, retardar os seus efeitos. Com essa tentativa, a Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Unicentro/UEPG, Juliana Bonini, se dedica a pesquisar o Alzheimer desde 2012. A docente é doutora em Ciências Biológicas e presidente da Associação de Estudos, Pesquisa e Auxílio aos Portadores de Alzheimer (Aepapa), localizada em Guarapuava. Em entrevista à equipe de reportagem da Nuntiare, Juliana conta um pouco sobre o que descobriu através das pesquisas realizadas e sobre o trabalho desenvolvido pela Aepapa.

1) Como surgiu o interesse em pesquisar o Alzheimer?

Surgiu a partir de uma dissertação de mestrado orientada em 2012 [na Unicentro], em que a gente fez a avaliação nutricional dos idosos com Alzheimer em Guarapuava e viu que eles tinham uma desnutrição considerável. Mas o meu doutorado foi sobre a fisiologia da memória, então, indiretamente, eu já estudava isso. Somente depois que eu cheguei aqui [na pós graduação da Unicentro] é que eu comecei a trabalhar com pacientes, porque antes eu trabalhava com ratos, e como aqui não tinha os animais para trabalhar eu fui investigar os seres humanos. Então a gente viu a questão da desnutrição nesses pacientes.

 

2) Quais as principais dificuldades enfrentadas para o tratamento do Alzheimer na contemporaneidade?

Eu acredito que, no Brasil, a principal dificuldade para o tratamento do Alzheimer é fazer o diagnóstico preciso da doença.

 

3) E por que é tão difícil o diagnóstico do Alzheimer?

Porque as pessoas são diagnosticadas erroneamente como demência de Alzheimer, elas têm demência vascular, de Parkinson... existe uma confusão no diagnóstico, e a gente percebeu isso através da pesquisa de análise de prontuário. Ali nós vimos que a maior parte dos pacientes é diagnosticado com Alzheimer, mas eles não têm a doença.

 

4) E como diferenciar essas doenças que são confundidas com frequência, a demência de Parkinson, de Alzheimer e o próprio Alzheimer?

Pela etiopatologia dessas enfermidades, ou seja, são doenças diferentes. Seria como se eu falasse que tuberculose é igual gripe e não é. Existe a demência de Alzheimer, de Parkinson, e infelizmente elas são tratados da mesma forma e isso está errado. Isso acaba ocorrendo por falta de médicos preparados para fazer um diagnóstico diferencial.

 

5) Quais são os principais fármacos utilizados para combater o Alzheimer e como eles atuam no controle da doença?

São Donepezil, Rivastigmina e Galantamina, e eles agem inibindo o acetilcolinesterase, que é a enzima que degrada a

A acetilcolina é um hormônio neurotransmissor produzido pelo sistema nervoso. Ele atua em várias partes do corpo como uma espécie de mensageiro entre as células nervosas. A ingestão de alimentos ricos em acetilcolina pode prevenir doenças degenerativas. Quando há uma quantidade diminuta ou aumentada do hormônio, alguns problemas de saúde podem ser ocasionados. Os alimentos ricos em acetilcolina são: gema de ovo, soro de leite, queijo, aveia, soja, feijão, salmão, amendoim, noz pecã, cogumelos, sementes de girassol, fígado e levedura.

Então o objetivo é aumentar o acetilcolina na fenda sináptica (o espaço entre dois neurônios), mas não curam a doença, apenas fazem com que ela avance mais devagar. Não há cura para o Alzheimer.

6) Hoje em dia, quais os principais fatores que podem ocasionar a doença de Alzheimer?
Existem vários, mas alguns dos principais são a obesidade, hipertensão e baixa escolaridade.

7) Como que a baixa escolaridade pode ser um fator de risco para a enfermidade?

O assunto é abrangente, são várias questões que estão por trás da baixa escolaridade, porque uma pessoa que tem alta escolaridade, vai conseguir ter uma dieta mais adequada, normalmente; faz atividade física de maneira preventiva, se preocupa com obesidade. Então existem fatores sociais que estão por trás da doença de Alzheimer, é como se fosse um “guarda-chuva”. A pessoa, tendo melhor escolaridade, tem mais noção na busca de tratamento, também pode conseguir pagar um médico, pois, inclusive, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) há a demora em média de dois anos para conseguir uma consulta com um neurologista para diagnosticar a doença. Isso em Guarapuava. Então muitos pacientes chegam a óbito antes de diagnosticar a doença.

8) Como o Alzheimer se manifesta nas pessoas?
O sintoma mais característico é a perda de memória recente, por exemplo, do que aconteceu na semana passada, essa é a primeira manifestação. Primeiramente as memórias recentes que são perdidas, posteriormente isso vai se agravando. Há outros fatores, mas o principal diagnóstico é feito em cima disso, mesmo que a perda de memória seja característica de outras patologias também.

 

9) E o que causa a perda de memória?
São vários fatores também, a diminuição da acetilcolina é uma das causas.

 

10) Por que o Alzheimer está mais relacionado com o envelhecimento da população?
O principal fator de risco da doença é a idade. Pessoas acima de 85 anos tem 70% de chance de desenvolver a patologia, porque, conforme aumenta a idade, crescem os depósitos de emaranhados neurofibrilares e de hiperfosforilação da Tau, que está relacionada com a neuroquímica da patologia

Os emaranhados neurofibrilares são alterações intracelulares observadas no citoplasma dos neurônios. Eles se acumulam na região do hipocampo do cérebro. São formados principalmente pela proteína tau, que estabiliza os microtúbulos dos axônios, estruturas responsáveis pela formação e manutenção das interações entre os neurônios.

11) O IBGE divulgou em julho o estudo “Projeto da População Brasileira”, estimando que, em 2039, o número de pessoas idosas do país vai superar o de crianças, acelerando o envelhecimento da população. Isso pode proporcionar o aumento dos casos de Alzheimer?

Com certeza, como o fator de risco é a idade, com mais idosos maior a chance de a doença ocorrer.

 

12) Algumas das pesquisas que você orientou abordam o estado nutricional e cognitivo dos portadores da doença de Alzheimer. O que vocês perceberam com os estudos?

O que a gente percebeu é que, quanto maior o risco nutricional do paciente, mais há relação com a perda cognitiva. Então elas andam junto, quanto maior a perda nutricional, maior a perda cognitiva consequentemente. Isso já havia sido mostrado em outros estudos,  não é inédito, mas conseguimos mostrar nessa população, porque a gente trabalha com pessoas que vivem no interior, e a maior parte delas tem baixa escolaridade e está extremamente desnutrida.

 

13) Então pode se afirmar que uma alimentação saudável pode retardar o avanço da doença, já que tanto a obesidade quanto a perda nutricional podem ser fatores de aumento da perda cognitiva?

Sim, mas isso interfere na progressão da doença, não quer dizer que se alguém se alimenta de maneira saudável não vai desenvolver a doença. Não é uma causa e consequência. Digamos assim, se a pessoa tiver uma alimentação adequada a progressão pode ser alterada; se, em dois anos, ele avançaria de um nível da doença para outro, com uma alimentação saudável isso pode levar cinco anos, mas não que isso vai deixar de acontecer.

 

14) Como é o trabalho da Aepapa (Associação de Estudos, Pesquisas e Auxílio aos Portadores de Alzheimer), entidade que você preside?

A gente trabalha tanto com a parte da pesquisa como com a parte assistencial. A pesquisa de 2012 foi o início de tudo; inclusive, parte dos animais que utilizamos nas pesquisas-base a gente compra com dinheiro da Aepapa, e isso já está regularizado. Todas as pesquisas, tanto em animais como em humanos, são financiadas pela Associação. A parte assistencial é multiprofissional, com atendimento das fisioterapeutas, farmacêuticas, psicopedagoga e assistentes sociais que vão até a casa do paciente para auxiliar no tratamento da doença, dando orientações.

Atendidos pela Aepapa, pacientes e familiares participam de projetos que visam a inclusão social

15) Quais são as formas de auxílio que a Aepapa faz com os pacientes?
Além do acompanhamento dos profissionais que vão até a casa do paciente, com trabalho de fisioterapeutas e nutricionistas, a Aepapa fornece fraldas, cestas básicas... Tem um encontro que se chama ‘Envolver-se’ que leva os cuidadores e os pacientes até a sede da instituição e desenvolve atividades com música e pintura, que depois são expostas.

16) Todas as pessoas podem participar dos projetos da Aepapa?
Todas as pessoas que têm um laudo médico comprovando a doença podem ser beneficiadas pelas atividades da Aepapa.