Mais que (a)gosto, aleitamento materno é saúde pública

Mais que (a)gosto, aleitamento materno é saúde pública

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Você sabia que o leite materno possui anticorpos, que juntamente com as vacinas previnem doenças nos bebês? Isso porque ao amamentar, a mãe produz imunoglobulinas específicas para proteger as crianças de diversas patologias; e também porque o líquido é um dos componentes essenciais para o desenvolvimento e saúde do neném.

mãe amamentando bebê

Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS) o leite materno é o único alimento que o bebê necessita até atingir os seis meses de vida, dispensando inclusive a água, já que contém todas as proteínas e gorduras suficientes para garantir a nutrição e a sustentação dos recém-nascidos. De acordo com uma pesquisa divulgada pela revista científica de medicina The Lancet do Reino Unido, em 2016, 800 mil mortes infantis seriam evitadas no mundo, por ano, se a prática da amamentação fosse universal, sendo essa a principal forma de prevenção à mortalidade infantil. O estudo também indica que os custos de saúde pública seriam reduzidos em US$ 300 bilhões.

Apesar de a OMS indicar a prática do aleitamento exclusivo para as crianças até os seis meses de idade, o órgão, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), divulgou dados estatísticos do Brasil na cartilha Capture The Moment, em 2017: aqui as mães amamentam em média apenas 54 dias após o parto, ou seja, quando o bebê ainda não possui nem dois meses de vida.

Foi com o intuito de debater e conscientizar sobre a

importância da amamentação para os nenês, que em 2017, o Congresso Nacional estabeleceu a Lei 13.435/2017.

A norma tem como objetivo estabelecer que o mês de agosto seja voltado às campanhas de incentivo ao aleitamento materno, criando assim o Agosto Dourado, que faz alusão à definição da OMS para o leite materno: alimento de ouro para a saúde dos bebês.

No entanto, segundo a nutricionista e professora de Nutrição do Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais (CESCAGE), Sunáli Batistel, não é só em agosto que o debate sobre a importância do leite materno deve ser feito, pois a prática deveria ter um incentivo maior em outros períodos do ano também; levando em consideração que a amamentação é uma questão de saúde pública e que o Brasil está abaixo da média indicada pela OMS para a realização do aleitamento exclusivo. Segundo a nutricionista, quando o bebê ingere somente leite artificial, ele terá apenas seus próprios anticorpos (presentes em níveis pequenos) e um sistema imunológico imaturo, o que o torna vulnerável a infecções.

tipos de leite materno

Os três tipos de leite materno.

A fonoaudióloga Gabriele Alves de Paula trabalha no Hospital Regional Universitário dos Campos Gerais (HURCG) orientando as mães, nas primeiras horas após o parto, sobre a prática da amamentação. A profissional também fez uma pesquisa de mestrado em Desenvolvimento Comunitário que tinha como tema o aleitamento materno. De acordo com Gabriele, a prática do alactamento promove o desenvolvimento e a musculatura facial através da respiração e da sucção, o que ajuda na mastigação futuramente. “A lactação estimula o desenvolvimento da mandíbula de forma mais otimizada e faz com que, futuramente, o bebê possa mastigar melhor. A mamadeira, por sua vez, faz com que a criança tenha outra forma de sugar”, ressalta a pesquisadora.

Um dos trabalhos da fono é adaptar a ‘pega correta’ do recém-nascido ao seio da mulher. Conforme a doutora em Enfermagem Ana Paula Ravelli, que estuda e atua em projetos de extensão sobre a amamentação no período pós-parto, a falta de manejo clínico é o principal fator que contribui para que muitas mães decidam por não amamentar, podendo ocasionar os famosos “bicos rachados”, ou seja, as fissuras nas mamas. “Se a mulher não possui o entendimento da conduta correta para amamentar o bebê, ela vai sentir dor, e isso faz com que ela não tenha estímulos para alimentar a criança exclusivamente com o próprio leite”.

Mesmo não amamentando o neném, os hormônios da produção do leite vão continuar trabalhando; com isso, o líquido parado no seio da mãe pode virar um ingurgitamento (leite empedrado), que se não ordenhado pode ocasionar uma mastite (inflamação na mama).

A pega correta consiste na maneira eficaz de amamentar o bebê. Nela o neném precisa abocanhar o bico do seio juntamente com a aréola para facilitar a saída do leite e não causar nenhuma dor para a mãe. Quando a criança pega somente no bico do seio, pode ocasionar ferimentos como fissuras no mamilo.

Grupo de Extensão ‘Consulta de Enfermagem no Pré-Natal e Pós-Parto’

Foi através da carência local em Ponta Grossa de cuidados após o parto que o grupo de extensão Consulta de Enfermagem no Pré-Natal Pós-Parto (CEPP) foi criado, em 2006. O projeto é o mais antigo do Departamento de Enfermagem e Saúde Pública da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Até 2016, a atuação era exclusiva na maternidade do Hospital Evangélico do município. A partir de então, o Hospital Regional Universitário dos Campos Gerais (HURCG) passou a contar com uma maternidade, e as ações do grupo foram transferidas para lá, já que facilitava o trabalho dos acadêmicos de enfermagem, por ser localizado próximo à universidade.

As reuniões acontecem mensalmente, mas as atividades no HURCG feita pelos acadêmicos ocorrem de segunda à sexta. Os alunos são distribuídos por dia para atuarem no hospital oferecendo a consulta de enfermagem pós-parto às mães e orientando-as com questões referentes à saúde delas e dos bebês. A rotina dos estudantes com relação ao projeto, no que diz respeito à consulta no pós-parto, é adentrar os quartos de maternidade para a distribuição de folders e orientações direcionadas às mães com o acompanhamento de um álbum para facilitar a compreensão. Junto às visitas, alguns questionários são aplicados para coletar os dados delas que, posteriormente, servirão como materiais de pesquisa, também desenvolvido pelo grupo, para determinar os perfis dessas mulheres.

Projeto CEPP atua no Hospital Universitário fornecendo orientações às mães sobre questões relacionadas ao pós-parto, como o aleitamento. (Foto: Gabrieli Oliveira)

Conforme as pesquisas feitas pelo grupo, as mulheres que mais são atendidas pelo projeto dentro do HURCG são as que possuem de 20 a 33 anos. A maioria das mães encontra-se em relação estável, em média na segunda gestação; e 97% delas estão em processo de aleitamento exclusivo.
Algumas das indicações feitas pelos integrantes do grupo são: a importância do aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses após o parto; a composição do leite; como deve ser a pega correta do bebê nos seios das mães; o perigo de o neném sugar a outra mama sem que a anterior seja esvaziada, que pode causar o empedramento do leite; e o risco da amamentação cruzada.
Segundo o estudante do último ano de Enfermagem e

integrante do grupo, Murilo Rossi, que apresentou o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com o tema da educação em saúde com mulheres no pós-parto, a amamentação cruzada deve ser evitada. Esse procedimento ocorre quando uma mãe amamenta o bebê de outra. “A “mãe de leite” não é recomendável porque pode ocasionar alguma incompatibilidade com o organismo do neném, pois os anticorpos da mãe são compatíveis com os do seu filho, e isso faz com que ele se desenvolva de forma mais saudável”, explica Murilo. O estudante ainda orienta que, caso a mãe possua leite de sobra, pode se dirigir até o Banco de Leite Humano de PG, pois lá, após a coleta, o leite é tratado para alimentar outros recém-nascidos das maternidades de Ponta Grossa.

Memória em Ação

O TCC de Murilo Rossi, defendido ao fim do primeiro semestre de 2018, consistiu em criar um jogo da memória que facilitasse a compreensão das mulheres a respeito do período pós-parto. Ele contém cartas com ilustrações e informações sobre a amamentação, a pega correta e os cuidados que as mulheres devem ter durante o puerpério. A pesquisa foi aplicada pelo grupo de extensão Consulta de Enfermagem no Pré-Natal Pós-Parto (CEPP) como um dos materiais de orientações para as mães. Durante as visitas na maternidade, as mulheres podem jogar umas com as outras. Enquanto as cartas são viradas, os integrantes do grupo dão orientações às lactantes a partir do tema de cada peça. Confira:

Banco de leite humano em PG

Banco de Leite Humano (BLH) é o responsável pela coleta e tratamento do leite materno em Ponta Grossa, possibilitando que o alimento possa ser consumido por outros bebês sem a preocupação da incompatibilidade dos microorganismos da mãe doadora com os dos recém-nascidos. Isso porque, ao ser tratado, toda impureza do alimento é eliminada e ele pode ser estocado no local por até seis meses, em uma temperatura de -18ºC. Segundo a nutricionista do BLH, Sunáli Bastistel, a média de leite fornecida pelo Banco em PG é de 100 litros por mês.

Pela baixa quantidade de doadores com relação ao número de crianças que necessitam da oferta, a prioridade do BLH é fornecer o alimento aos recém-nascidos com baixo peso, risco nutricional e prematuridade que estão internados nas Unidades de

Terapia Intensiva (UTIs) da cidade, localizadas na Santa Casa de Misericórdia e no Hospital Regional Universitário dos Campos Gerais (HURCG). “É preciso que mais mães tenham o interesse em doar o leite. É uma prática que não é dolorida e que não faz falta, já que o que é doado é a sobra de leite contido nas mamas. A doação é o que permite que muitos recém-nascidos tenham do que se alimentar, pois nos casos de prematuridade, por exemplo, a mãe não produz o leite necessário para alimentar o bebê, e ele também não possui o reflexo suficiente para sugar o peito da mulher. Isso exige que ele tenha que ser amamentado com leite tratado através de sondas”, ressalta a nutricionista. Sunáli também orienta as mulheres que não podem ou decidem não amamentar: “o mais indicado é que recorram às fórmulas infantis, já que o leite de vaca não possui a mesma genética e elementos necessários para a saúde e desenvolvimento da criança”, alerta.

Para ser uma doadora de leite, é necessário fazer um cadastro no hospital, estar amamentando e não pode fumar mais de dez cigarros por dia. Ao realizar o cadastro, os funcionários do Banco fornecem o material de coleta e a mulher pode realizar a ordenha do leite na própria residência ou até mesmo na instituição de saúde. Após a primeira retirada, o líquido deve ser congelado em um frasco de 500 ml - até a mãe preencher o frasco - e guardado até 15 dias, que é o prazo de validade do leite sem o tratamento

adequado, que garante a manutenção da qualidade e a diminuição da perda nutricional.
Após a coleta completa, as mães devolvem o frasco recebido no BLH, onde é feito o tratamento do leite humano. O procedimento é realizado com base em testes de laboratório, como a determinação do pH e do índice calórico do líquido; o aquecimento em banho-maria para tirar as impurezas do leite; e o resfriamento do alimento. O método detalhado pode ser conferido no infográfico abaixo e no vídeo a seguir.


(Clique nos ícones roxos)

O horário de funcionamento do BLH em Ponta Grossa é de segunda à sexta-feira, durante o horário comercial; com exceção das terças e quintas-feiras em que o expediente se encerra às 14h. Confira como é o processamento do leite:

Na contramão da resolução da ONU

Em maio de 2018, os representantes de governos de diversos países do mundo se reuniram em Genebra (Suiça) para a Assembleia Mundial da Saúde, promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma das pautas de discussão era uma resolução internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) que determinava o incentivo à amamentação, com base em pesquisas que foram desenvolvidas pelo órgão. Entre as indicações propostas pela determinação da ONU está a de que os governos limitassem o marketing de métodos substitutivos à amamentação. A delegação dos Estados Unidos, no entanto, se manifestou de forma contrária à indicação da instituição e tentou retirar o trecho da resolução que orientava os governos a

“proteger, promover e apoiar a amamentação” e o que pretendia restringir o marketing dos substitutos do leite materno, além de ameaçar impor proibições comerciais aos países pró-aleitamento. Por fim, os EUA não conseguiram derrubá-la, já que a Rússia conseguiu fazer com que os norte-americanos desistissem das intimidações.

Mesmo não levando adiante a proposta de barragem da resolução pró-aleitamento, a tentativa de retirada desses trechos da deliberação da ONU, por parte dos Estados Unidos, demonstra uma prioridade em atender os interesses dos fabricantes de fórmulas e alimentos infantis em detrimento do aleitamento materno. Ele é considerado pela OMS como uma questão de saúde pública e, portanto, deve estar na agenda dos países como um meio de promover o bem-estar e a saúde da população.

Para além da saúde do bebê

ndependente dos benefícios que o leite materno traz para a saúde do bebê, a prática da amamentação também possui vantagens ao bem-estar da mãe que amamenta. Conforme a doutora Ana Paula Ravelli, durante o aleitamento materno, há o estímulo de dois hormônios principais: a prolactina e a ocitocina. A primeira atua na glândula mamária e, após o parto, age nas células produtoras de leite, acelerando a sua produção. Já a segunda é o hormônio que incide na liberação do líquido armazenado.
Quando o bebê suga o líquido, ele estimula a liberação desse hormônio. A ocitocina é conhecida

popularmente como o hormônio do “amor”, pois a liberação da substância promove o apego materno. Ao ser liberada, ela pode suscitar o aumento da libido, o alívio do estresse e da ansiedade, e a sensação de tranquilidade e relaxamento. “É algo totalmente biológico. Não há fórmula e alimento industrializado algum que será capaz de trazer anticorpos necessários para a prevenção das doenças dos bebês; e nem de trazer uma sensação de bem-estar, tranquilidade e um fortalecimento do vínculo materno à mãe. Não é à toa que na produção do leite humano esteja envolvida a ocitocina, que é conhecida como o hormônio do amor”, observa Ana Paula.

Reportagem:
Andressa Zaffalon
Gabrieli Oliveira