Desafios de pensar a mobilidade urbana em Ponta Grossa

Desafios de pensar a mobilidade urbana em Ponta Grossa

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Mobilidade urbana é um conceito que envolve todos os usos da cidade: dá acesso aos seres humanos para tentar sanar suas necessidades educacionais, de comércio, de trabalho, entre outras coisas. Ela impacta em vários aspectos a vida em sociedade, em como as pessoas vão se locomover entre diferentes espaços.
Discuti-la é fundamental, pois é a mobilidade que vai dar a inclusão ou não para o ser humano dentro do espaço que é a cidade. Porém, é preciso atenção: ela não se refere apenas ao sistema físico (ruas e estruturas), mas aos motivos pelos quais as pessoas precisam se deslocar na cidade.
A pesquisa Cidades: mobilidade, habitação e escala - um chamado à ação, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicada em agosto de 2012, revelou que o tempo médio gasto pelo brasileiro em deslocamentos cresceu 20% entre 2003 e 2010.

Os principais responsáveis por esse quadro de aumento, segundo a pesquisa, é a expansão horizontal das cidades e, consequentemente, o aumento das distâncias a serem percorridas diariamente. Essa situação não está restrita às grandes metrópoles, atingindo também cidades de médio porte. Não é preciso ir longe para encontrar vias onde o tráfego não flui: o fenômeno dos engarrafamentos já é realidade em Ponta Grossa.
No caso pontagrossense, é necessário pensar o processo de expansão da cidade que ocorreu sem os devidos cuidados com a urbanização e planejamento de mobilidade. A cidade completou 195 anos em 2018 e, para pensar a mobilidade, não podemos deixar de lado a idade dos principais bairros e a ainda crescente expansão horizontal, afinal vias que antes eram de uso dos moradores se tornaram ligações até novos loteamentos mais distantes do centro.

Um exemplo: 0 eixo nordeste

Ponta Grossa possui cinco eixos de direcionamento de tráfego dos bairros para o centro da cidade: Eixo Noroeste (Av. João Manoel dos Santos Ribas e Av. Ernesto Vilela), Eixo Nordeste (Av. Monteiro Lobato e Rua Otávio de Carvalho), Eixo Leste (Av. Carlos Cavalcanti e Rua João Ribeiro), Eixo Sul (Av. Visconde de Mauá) e Eixo Sudoeste (Av. Visconde de Taunay). Além de distribuir o tráfego da cidade, esses corredores também conduzem as pessoas para as saídas da cidade.
Sandra Maria Scheffer, Doutora em Gestão Urbana, pesquisadora e professora do departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa, considera a Lei de Zoneamento é essencial para o funcionamento da sociedade, devendo ser pensado o fato do centro ser o grande eixo de mobilidade entre os bairros da cidade. “Temos o problema do centro ser o grande eixo de Ponta Grossa de circulação para os outros bairros”, avalia.

A Monteiro Lobato é uma das principais vias de ligação da cidade, estando inserida no bairro Jardim Carvalho. De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2010, o bairro possui mais de 20.000 habitantes, mas quando se pensa o número de pessoas impactadas pela via, esse índice é muito maior, pois a Avenida é também um acesso para bairros como Órfãs, Boa Vista e Neves.

A Avenida também é caminho diário para os alunos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), localizada ao final da Monteiro Lobato, e também é utilizada por estudantes do Campus Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), pois é uma rota alternativa com desvio do centro da cidade para chegar até a UEPG. Além das duas Universidades, a região onde está inserida conta com 13 equipamentos de educação e três de saúde, conforme o mapa abaixo. Também é via para dois supermercados grandes e outros equipamentos como condomínios e cemitério.

Devido aos pontos acima, muitas linhas do transporte público trafegam por essa avenida, como as linhas UTFPR, Rio Pitangui, Santa Mônica, Santa Lúcia e Baraúna. Além do transporte coletivo, a Monteiro Lobato também é caminho do transporte metropolitano, acesso à PR 151 e é cruzada pela Ferrovia Linha Apucarana - Ponta Grossa.

Como está a mobilidade urbana?

Em Ponta Grossa, a Prefeitura Municipal, através do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Iplan), está revisando o Plano Diretor e elaborando o Plano de Mobilidade Urbana. A professora do Departamento de Engenharia Civil e Diretora de Planejamento Físico da UEPG, Nisiane Wambier, aponta que para se fazer um bom plano de mobilidade é preciso entender que deslocamento as pessoas fazem e se esses deslocamentos são realmente necessários, se fazem por que querem ou precisam fazer ou se fazem por que não têm outra opção ou alternativa melhor.

“Ponta Grossa é uma encruzilhada de caminhos, está numa posição privilegiada, ao mesmo tempo em tem muitos desníveis”, afirma Nisiane. “A parte mais importante do bairro está próxima à via principal, onde tem tanto comércio quanto serviços, contando com uma boa estrutura. Já o fundo do bairro vai estar virado para o rio. O Centro é mais antigo, com vias mais estreitas, mas com pontos mais atrativos (prefeitura, terminal central, comércio, serviços, bancos). As vias são mais largas, enquanto o centro é mais estreito”, completa.

Ao longo do desenvolvimento dos Planos, foram realizadas oficinas com a comunidade, para que essa apresentasse ideias e propostas de ações.

Para a professora Sandra Maria Scheffer, a mobilidade é uma temática de bastante interesse da população, que nas oficinas deram diversas ideias. Nisiane Wambier afirma que a participação da população é fundamental para se formular o plano de mobilidade, para entender qual necessidade daquela comunidade, pois na maioria dos casos, os técnicos e gestores responsáveis não utilizam aquilo que está sendo planejado. “A população tem um conhecimento que o desenvolvedor do plano não tem”, ressalta.
Uma alternativa para melhorar a mobilidade urbana em cidades de médio porte, como Ponta Grossa, são os subcentros, Essa possibilidade, para Nisiane, não teria como intuito desativar o centro da cidade, mas ser uma opção para aqueles que estão mais longe.
Os novos centros seriam os bairros, tendo espaços comerciais, bancos, serviços públicos, subprefeituras, correio, cartório, com possibilidades para as pessoas acessarem ali, sem a necessidade de ir até o centro, diminuindo o estrangulamento que acontece. Além disso, Wambier aponta como essencial para o município funcionar a tríade: os vários centros, uma boa ligação entre bairro e centro, e uma boa ligação entre os bairros.
Uberlândia, em Minas Gerais, é um exemplo de cidade que implantou subcentros para mudar a mobilidade. O Plano Diretor da cidade, oficializado em 2006, tem como uma das suas diretrizes a consolidação de subcentros, porém ainda sem critérios científicos. Segundo os pesquisadores do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o Mestre Marcus Vinicius Mariano de Souza e o pós-Doutor Vitor Ribeiro Filho, “é necessário realizar estudos para compreender como se configuram e quais as características destes subcentros, para que as políticas implementadas pelo poder público sejam baseadas em fatos concretos, evitando o desperdício dos recursos públicos”.

O Plano Diretor é o principal instrumento para planejamento urbano de uma cidade, uma lei municipal, elaborada pelo Poder Executivo e aprovada pelo Poder Legislativo, que estabelece regras, parâmetros, incentivos e instrumentos para o desenvolvimento da cidade . De acordo com o Estatuto da Cidade, artigos 39º e 40º é “o instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana”, deve promover o diálogo entre os aspectos físicos/territoriais e os objetivos sociais, econômicos e ambientais do município. O objetivo do plano diretor deve ser distribuir os riscos e benefícios da urbanização, induzindo um desenvolvimento mais inclusivo e sustentável.
O Plano de Mobilidade Urbana é o instrumento de efetivação da política Nacional de Mobilidade Urbana, cujo objetivo é integrar o planejamento urbano, transporte e trânsito, observando os princípios de inclusão social e da sustentabilidade ambiental. Tem como função reduzir as desigualdades e promover a inclusão social; promover o acesso aos serviços básicos e equipamentos sociais; proporcionar melhoria nas condições urbanas da população no que se refere à acessibilidade e à mobilidade; promover o desenvolvimento sustentável com a mitigação dos custos ambientais e socioeconômicos dos deslocamentos de pessoas e cargas nas cidades; e consolidar a gestão democrática como instrumento e garantia da construção contínua do aprimoramento da mobilidade urbana.

A cidade mineira tem, segundo o último censo do IBGE, mais de 600 mil habitantes. Os autores da pesquisa “Caracterização dos Subcentros comerciais em cidades médias: análise de novas centralidades na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, Brasil”, Souza e Filho, indicam que, para compreender os subcentros, é necessário considerar “algumas características básicas para um local ser considerado como subcentro - multiplicidade de funções e coexistência de algumas atividades, como comércio múltiplo e especializado, serviços financeiros, profissionais liberais, lazer, transporte, comunicação”, além de conceitos de tipos de comércio (cotidiano, frequente, pouco frequente, raro), afinal “os estabelecimentos de consumo cotidiano, como padaria e mercearia, não servem para caracterizar os subcentros”.

Ao planejar a mobilidade urbana, segundo a professora da UEPG, Nisiane Wambier, é preciso olhar tanto o geral quanto o específico, entender a partir do ser humano. “As pessoas têm necessidades análogas, mas como serão resolvidas, é específico de cada bairro. Todos precisam acessar saúde, educação, saneamento, etc. mas é no bairro que se tem a resposta de qual será a estratégia específica”. Entretanto, não se pode pensar apenas em um determinado bairro, é necessário entender quais as diferenças e o que pode ser tratado de forma igual para todos. Na mobilidade urbana, o deslocar (a rua) não tem o mesmo nível de importância do trabalho, lazer, estudo, saúde, é um complemento, tem que ser um mero facilitador para que as outras atividades aconteçam.

Reportagem:
Bruna Alexandrino
Giulia G. do Prado
Foto:
Angelo Rocha