Ponta Grossa possui maior caverna de arenito do Sul do Brasil

Espeleológicas (GUPE) identificou 22 novas cavernas em arenitos no Parque Nacional dos Campos Gerais. O achado reafirma o potencial espeleológico da região, sendo Ponta Grossa considerada o município que mais possui cavernas no Sul do Brasil, com 98 cavidades subterrâneas. Destas, 96 são em arenito, as outras duas variam entre granito e metacalcário. Nos Campos Gerais, mais de 90% das cavernas são de formação rochosa arenítica.

A formação de cavidades subterrâneas acontece de diversas formas, mas, para o consultor ambiental e pesquisador de cavernas em arenitos no Brasil, Rubens Hardt, pode-se separar em dois grandes grupos: cavernas originadas simultaneamente à rocha (tubos de lava, cavernas em corais) e cavernas formadas posteriormente à formação da rocha (por processos como: dissolução, abrasamento, acomodação de blocos) - neste último grupo se incluem as cavernas em

arenito e em calcários, rochas de alta solubilidade.

Hardt sustenta que o processo de formação de cavernas de arenitos são complexos, mas o início ocorre com “uma ‘erosão química’ dos minerais; posteriormente, os processos mecânicos arrastam o que não foi corroído, transportando para o exterior da caverna e gerando o vazio”.

A Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana abriga mais de um terço das cavernas do estado do Paraná. A Escarpa é um degrau que separa o segundo do primeiro planalto, sendo sua gênese relacionada à um recuo erosivo. Há 140 milhões de anos, com a separação dos continentes Sul-Americano e Africano, uma anomalia térmica no manto elevou o relevo dos Campos Gerais, gerando diversas falhas e fraturas nas rochas da Formação Furnas e em outras unidades geológicas, como o Arenito Vila Velha do Grupo Itararé.

Estas diversas estruturas tectônicas (falhas e fraturas) ficam evidentes nas proximidades da Escarpa Devoniana, possibilitando a existência de várias cavidades naturais subterrâneas. “Em um quilômetro prospectado na escarpa foram encontradas 10 novas cavernas. Se a gente extrapolar esse dado e pensar que nós temos 280 km em linha reta da Escarpa, sem contar os contornos, é um potencial bem grande para a ocorrência de cavidades”, ressalta a geógrafa e mestre em gestão do território, Laís Massuqueto.

Por exemplo, próximo à Escarpa Devoniana está localizada a maior caverna em arenito do Sul do Brasil, o Sumidouro do Córrego das Fendas. Trata-se de um sistema de cavernas que se estende por mais 1300 metros de galerias mapeadas, mas que, segundo pesquisadores do GUPE, ainda possui centenas de metros que não foram topografados ou explorados. O córrego das Fendas nasce próximo da Escarpa e flui para o sentido da Furna Grande, mas no meio do caminho o curso hídrico é capturado por uma fenda, formando um sumidouro e uma cachoeira subterrânea com desnível de 30 metros.

Acomodação de blocos de arenitos no Sistema Fenda Sem Fim. (Foto: Angelo Rocha)

As cavernas em arenitos comumente possuem um ou vários salões interligados por condutos. Hardt indica que as características variam muito, pois dependem diretamente da rocha, devido à resistência mecânica e química ao processo de formação e desenvolvimento. Além da natureza da rocha, em geral, as cavernas em arenitos possuem menores dimensões, e não têm a profusão de espeleotemas que existem em cavernas de calcário, por exemplo.

Uma pesquisa recente desenvolvida pelo GUPE identificou as principais cavernas do Parque Nacional dos Campos Gerais (em Ponta Grossa) com base na avaliação dos elementos da geodiversidade e biodiversidade, conjuntamente com a fragilidade destes ambientes. O resultado da pesquisa indicou que o primeiro lugar do ranking é dividido entre a Caverna das Andorinhas e o Sumidouro do Rio Quebra-Perna.

Em terceiro lugar está o Sumidouro do Córrego das Fendas, seguido da Caverna do Zé e, por último, a Caverna da Chaminé. Além disso, o GUPE também verificou quais cavidades são sensíveis - aquelas que possuem elementos da geodiversidade e biodiversidade considerados vulneráveis -, e os resultados apontaram para 15 cavidades que se encaixam nesta classificação, sendo elas: Fenda Santa Maria 2, Sumidouro do Córrego das Fendas, Fenda Sem Fim, Fenda da Freira, Caverna do Bugio, Caverna da Chaminé, Caverna do Opilião, Caverna das Andorinhas, Poço das Andorinhas, Caverna dos Trezentos, Fenda Guacharos, Dolina do Matador, Caverna do Zé, Sumidouro do Rio Quebra-Perna e Sumidouro da Mariquinha.

Como caracterizar as cavernas da região?

É comum as pessoas - até mesmo quem trabalha na geografia e biologia - não levarem em consideração que as furnas são cavernas, ou seja, cavidades subterrâneas. “O grande diferencial das cavernas da nossa região são esses poços, esses abismos, chamados de furnas. Porém, furnas é um termo regional, esse tipo de caverna, como o Buraco do Padre e as Furnas de Vila Velha, são conhecidas mundialmente como dolinas, um termo técnico específico”, explica o geógrafo e membro do GUPE, Henrique Pontes. Para o pesquisador de cavernas em arenitos no Brasil, Rubens Hardt, “certamente as ‘furnas’ de Ponta Grossa possuem destaque, seja pelas dimensões ou por possuírem elementos que são significativos aos estudos científicos”.

Outra característica das cavernas em Ponta Grossa está no aspecto físico de formação. Quando olhamos os arenitos da Formação Furnas, percebemos que a areia foi depositada em bancos - chamados de estratos. Dessa forma, há um padrão de desplacamento que facilita na formação de abrigos, lapas e cavidades subterrâneas denominadas cavernas em blocos.

A queda destes blocos traz perigos, pois em muitos casos as cavernas possuem teto, paredes e

pisos compostos por blocos de diversas dimensões e empilhados. "Há diversos riscos para quem explora e estuda estes ambientes, desde um bloco desabar sobre nós, até o tombo de um pesquisador por causa de um bloco solto. Mas considero como maiores riscos os abismos existentes dentro destas cavidades, as vezes temos desníveis de dezenas de metros, porém já com poucos metros, a queda de alguém pode custar a vida, por isso a importância de entrar nestes locais apenas pessoas especializadas e com equipamentos específicos", salienta Pontes.

O clima também sofre algumas alterações, microclimas são formados dentro das cavidades e são facilmente percebidos. Por exemplo, quando um visitante faz a trilha em mata fechada até a Fenda da Freira, o clima é abafado e quente, mas quando entra no Buraco do Padre ou no interior da Fenda encontra outro microclima, com baixa temperatura e alta umidade, faz lembrar a sensação de um ambiente com “ar condicionado”.

Pontes explica que há uma carência grande de estudos sobre microclimas na região, porém indica a alta umidade como a responsável pela proliferação de microorganismo e fungos. “Tem situações de galerias em que a gente entrou e teve que recuar, por conta da quantidade de fungos que modificaram o odor da caverna, parecia até produto químico”, relata Pontes.

Mapeamento como base para entender um relevo

O mapeamento tem um rito, é necessário saber o que se vai mapear. Claro que, em algumas saídas a campo, uma nova cavidade é encontrada e o mapeamento é realizado antes de um planejamento prévio. Mas o ideal é sempre conhecer a caverna por completo através da exploração para depois realizar o mapeamento com segurança e planejamento. O GUPE realiza a preparação através de cursos, mas também com um “pré-campo”, com a checagem de equipamentos, planejamento de horários e previsão do tempo. Todos os processos são necessários para garantir a segurança dos espeleólogos - especialistas em estudo de cavernas.

Em relação aos processos práticos do mapeamento, antes o GUPE realizava de forma manual, ou seja, utilizando uma corda sisal marcada com nó a cada metro, uma trena métrica e papel milimetrado. O processo era mais demorado, trabalhoso e exigia pelo menos três ou mais pessoas, pois enquanto uma anotava as medidas e desenhava os detalhes da caverna (paredes, blocos, desníveis e demais elementos) em papel milimetrado, outra era responsável por esticar o sisal e alinhá-lo entre as bases topográficas e a terceira fazia as medidas de distâncias com a fita métrica e as leituras com a bússola (inclinação e azimute). Contudo, com este método e equipamentos, o erro era um dos problemas frequentes, bastava anotar um valor errado na planilha para que o mapa fosse distorcido.

Atualmente, o grupo utiliza uma trena a laser especial, que inclui sensores que medem distância, inclinação e azimute, ou seja, com este equipamento uma única pessoa consegue mapear a caverna. Os dados obtidos com a trena são inseridos em um aplicativo de smartphone, denominado “TopoDroid”, que gera um desenho digital da caverna, com planta baixa e modelo 3D. “Assim, já obtemos um mapa em campo, dentro da caverna, mas o levantamento não está finalizado. O GUPE vai dar uma cara para os mapas. Nós exportamos os dados do aplicativo e tratamos em um programa específico, vamos desenhando, aplicando os símbolos, aplicando cores para diferenciar os níveis, até chegar no produto final”, explica Pontes.

Reportagem:
Angelo Rocha
Danielle Farias
Fotos:
Angelo Rocha
2 thoughts on “Cavernas Gerais”
  1. Parabéns ao Angelo e Danielle, ficamos muito felizes da Nutiare retratar um pouco dos nossos trabalhos com o GUPE. Matéria e fotos excepcionais!

  2. Bem legal msm, mas da impressão de usarem técnicas muuuito antigas, embora com seu valor. Devem ter métodos mais modernos, eficientes e não tão caros. Hoje pesquisador deve ter 50% de formação p arrecadar recursos e 50% nas técnicas da área específica em que atua principalmente, não é fácil…

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