Adaptados ao ambiente cavernícola

Adaptados ao ambiente cavernícola

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Há sete anos uma espécie rara, endêmica e relicta de troglóbio foi identificada em Ponta Grossa

A Caverna das Andorinhas, com altitude de 1.080 metros, possui um salão em formato de elipse com 153 metros de comprimento e um desnível de 57 metros. A gruta, situada na Área de Preservação Ambiental da Escarpa Devoniana, em Ponta Grossa (PR), é formada em arenito e faz parte da Formação Furnas. Nesse habitat foi encontrado um troglóbio (animal especializado para viver dentro de cavernas) raro, relicto (espécie encontrada em locais específicos) e endêmico (nativo da região).
Em 2013, a doutora especializada em Biologia Animal, Giovanna Cardoso, publicou o artigo

“Espécies de Hyalella Smith, 1874 (CRUSTACEA, AMPHIPODA, DOGIELINOTIDAE) encontradas em ambientes subterrâneos”, no qual descreve que a entrada da Caverna das Andorinhas estava no interior de uma falha coberta por vegetação densa. Na época da pesquisa, todo o entorno encontrava-se alterado por conta das atividades agrícolas existentes. A cavidade natural possui como característica uma inclinação descendente e, em sua porção mais profunda, era possível encontrar um lago habitado por dezenas de animais da espécie de invertebrados denominada cientificamente como Amphipoda Hyalella formosa.

O Hyallela formosa é o primeiro troglóbia (ser especializado e que vive unicamente em ambiente cavernícola) identificado na Região Sul do Brasil. Durante o 31º Congresso Brasileiro de Espeleologia, em 2011, o biólogo e professor da Universidade Federal de Lavras, Rodrigo Lopes - um dos pesquisadores que estudou a espécie - relata que, junto com representantes do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (CECAV), realizou uma visita à Caverna das Andorinhas para coletar a espécie.

Lopes explica que a população estava na parte mais profunda da caverna, em contato com o nível freático. “Trata-se de uma espécie muito bonita, cega, branca, bastante troglomórfica (modificada morfologicamente), um bicho realmente bonito e endêmico da caverna das andorinhas, nesse caso ela é uma espécie rara e consequentemente protege integralmente a caverna”. Na atual legislação, o artigo quatro do Decreto 6.640/2008 indica que a presença de troglóbios raros, endêmicos ou relictos colocam uma cavidade em grau máximo de relevância para conservação.

O que é um troglóbio?

Troglóbios são animais restritos às cavernas ou incapazes de estabelecer populações viáveis fora delas. Por outro lado, descendem de organismos que ainda têm capacidade de viver no exterior destas cavidades, bem como evoluíram devido às condições do ambiente. As mutações ocorrem de maneira aleatória e em uma taxa fixa constante.

As mutações podem ser negativamente selecionadas, prejudicando o organismo; positivamente selecionadas, acarretando em aspectos positivos; ou neutras, não trazendo nenhuma diferença ao organismo.

Algumas teorias explicam que a regressão de estruturas e padrões comportamentais e fisiológicos

em troglóbios incluem teorias adaptacionistas, baseadas na seleção natural e teorias neutralistas.

A professora e pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos, Maria Elina Bichuette, explica que a Teoria Adaptacionista, envolvendo seleção direta, considera a economia energética como a força seletiva que direciona a regressão de caracteres nos troglóbios. Os olhos, e principalmente a retina, estão entre as estruturas que mais consomem essa energia. “No ambiente subterrâneo típico, pobre em alimento, é um luxo manter estruturas inúteis energeticamente dispendiosas – a energia economizada de um olho que não se forma pode ser utilizada para a produção de um ovo (um descendente) a mais”, ressalta a pesquisadora.

Os indivíduos que não formam olhos, pigmentação melânica ou não expressam funções e comportamentos inúteis ao ambiente escuro das cavernas têm vantagens sobre os demais. Isto porque dispõem de energia extra para a produção de mais descendentes que irão herdar os caracteres regredidos e, assim, espalhar para a população.

A teoria neutralista, por outro lado, baseia-se na noção de que, mesmo que ocorram por acaso, as mutações possuem mais o efeito de desorganizar do que de aperfeiçoar. Se forem necessárias para a boa performance do indivíduo e, consequentemente, à continuidade da espécie, então as mutações prejudiciais serão eliminadas da população.

“A diferença com relação à teoria anterior da seleção por economia de energia (adaptacionista) é que, para esta última, indivíduos com olhos (e outras estruturas que perderam a função no meio subterrâneo) têm desvantagens em relação àqueles sem olhos, sendo objeto de seleção negativa (eliminação gradual da população)”, ressalta Bichuette.

Assim, pela teoria do acúmulo das mutações neutras, os indivíduos com e sem olhos têm a mesma aptidão, ou seja, os olhos passam a ser um caráter neutro, sem qualquer valor adaptativo, positivo ou negativo. A pesquisadora indica ainda que existem teorias modernas baseadas na noção de seleção indireta. Um exemplo recente que vem sendo estudado é o desenvolvimento embriológico de lambaris troglóbios mexicanos.

Rodrigo Lopes, professor da Universidade Federal de Lavras, salienta que muitos troglóbios, justamente por terem evoluídos nas cavernas, tendem a reduzir a pigmentação da cor e os olhos, se tornando muitas vezes anoftálmicos (cegos). “Eles podem alongar os apêndices (pernas, antenas). Os locomotores, no caso de insetos, ficam com uma perna mais comprida do que a outra, ou as antenas tornam-se apêndices sensoriais”, explica. Mas de fato o que define o troglóbio é a sua restrição ao ambiente cavernícola.

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Para qualquer tipo de pesquisa que envolva coleta de material em caverna, sejam animais, sedimentos, espeleotemas ou outros elementos, é necessário obter autorização do ICMBIO/SISBIO. Ou seja, para que um visitante entre em uma caverna e recolha algo é preciso da licença concedida por uma autoridade responsável. Confira os procedimentos realizados desde a coleta até a publicação de uma espécie nova:

Antes, as pesquisas eram feitas na Caverna das Andorinhas, assim como também um acompanhamento dos impactos ambientais. Atualmente, uma placa indica a proibição da entrada, por se tratar de uma propriedade particular. Segundo o primeiro artigo do Decreto 6.640/2008, “as cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional deverão ser protegidas, de modo a permitir estudos e pesquisas de ordem técnico-científica, bem como atividades de cunho espeleológico, étnico-cultural, turístico, recreativo e educativo”. A Constituição Federal define ainda, no inciso IX do art. 30, que é competência dos municípios promoverem a proteção do patrimônio local.

A presença de espécies de invertebrados encontrados em cavernas da região ainda desconhecidos pela ciência também mostra a diversidade biológica dos ambientes. O exemplo mais notório encontrado na Caverna das Andorinhas em Ponta Grossa é o troglóbio Hyalella formosa.

Entrada da Caverna das Andorinhas, onde atualmente os turistas e pesquisadores são impedidos de entrar. (Foto: Angelo Rocha)

Na foto, a entrada que os pesquisadores utilizavam para monitorar a caverna. O mesmo local por onde Rodrigo Lopes acessou a caverna junto com representantes do CECAV encontra-se com barreiras que impedem tanto uma visita turística, como o monitoramento contínuo da caverna e dos troglóbios. A grande dúvida que permanece é: será que esse troglóbio ainda existe? Será que o lago existente em anos anteriores não secou por conta das atividades agrícolas e de reflorestamento ao redor?

Reportagem:
Angelo Rocha
Danielle Farias