A guerra perdida dos antibióticos

A guerra perdida dos antibióticos

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Os antibióticos estimulam os mecanismos de defesa dos micro-organismos, que estão cada vez mais fortes

Microscópicos seres vivos cuja existência em nosso planeta data de pelo menos 3 bilhões de anos, as bactérias resistem em número demasiado maior que o dos seres humanos, presentes no ar, solo, água e até mesmo em vulcões. Elas não têm passaporte nem fronteira, e podem viajar o mundo de um lado para outro na hora que quiserem, sendo carregadas por nós mesmos. O que muitas vezes é ignorado pelo senso comum é o fato de que uma pequena parte das bactérias é patogênica, ou seja, causadora de doenças; uma vez que no corpo humano a quantidade desses seres é dez vezes maior que a de células.

No início da espécie humana, havia uma grande diversidade bacteriana. Como explica Marcos Pileggi, professor doutor em genética com ênfase em microbiologia, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), nosso sistema imunológico ignorava as bactérias encontradas no organismo, devido à sua grande quantidade. “Hoje em dia, todos os métodos antibacterianos fizeram com que essa quantidade reduzisse e, com isso, nosso sistema imunológico passou a se preocupar com coisas não tão importantes assim”, relata o professor. A consequência disso é a incidência cada vez maior de problemas como diabetes, alergias e doenças autoimunes.

Emergente como uma solução a enfermidades causadas por bactérias patogênicas, a intenção do antibiótico é, através de substâncias químicas, matá-las ou impedir sua reprodução no organismo atacado. O medicamento pode funcionar, mas, caso isso não aconteça, a bactéria ganhará um novo gene, como se ganhasse um novo superpoder de resistência.

O novo superpoder

A resistência das bactérias é observada desde 1940, doze anos depois da descoberta do primeiro antibiótico: a penicilina, produzida pelo médico microbiologista britânico Alexander Fleming. Seu poder de reprodução é um fator importante. “Para os humanos, demora quase 20 anos para uma nova geração ser produzida. Para uma bactéria, cerca de 20 minutos. Sua reprodução é muito rápida”, explica Pileggi.

Enquanto o corpo busca uma solução para os efeitos do microrganismo, algumas bactérias conseguem uma alteração genética que faz com que elas se tornem resistentes a determinados antibióticos. O medicamento pode matar a maioria delas, porém, como há vários tipos de antibióticos com substâncias diferentes, ocorre uma seleção. Dessa forma, algumas bactérias sensíveis morrem, deixando espaço para as poucas resistentes, e estas se reproduzem, podendo se tornar maioria. Assim, cria-se uma nova família bacteriana, e as substâncias presentes em tal antibiótico perdem sua eficiência.

Antibiótico: herói ou vilão?
Os antibióticos salvaram milhões de pessoas no decorrer dos anos e, junto da vacinação, foram marcos da medicina moderna. Acreditava-se que, graças a eles, seriam eliminadas todas as doenças causadas por bactérias. De 2016 para 2017, houve um aumento de 6% na venda de antibióticos no Brasil. Isso quer dizer que passaram de 120 para quase 130 milhões de unidades comercializadas, de acordo com o IQVIA Auditoria de Mercado Farmacêutico PMB, e a expectativa é de que o consumo de antibióticos no mundo aumente 67% até 2030.
A médica infectologista Gabriela Gehring defende o uso do antibiótico. “São ótimas drogas e devem ser usadas para tratar infecções e salvar vidas. Porém, é necessário serem usados de forma adequada e controlada”, explica. Ela revela que 20% das prescrições de antibióticos são inadequadas - principalmente na indicação, dose, duração e intervalos posológicos. Para Gehring, em pouco tempo as infecções consideradas simples não terão mais opção terapêutica para tratamento, por isso o medicamento só deve ser usado sob prescrição médica. O uso indiscriminado de antibióticos cria as chamadas “superbactérias”, que podem levar a morte.

 

O antibiótico e a agropecuária

Um estudo feito pelo pesquisador Van Boeckel e colaboradores, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, publicado em 2015 no Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, calculou que, no mundo, mais de 131 mil toneladas de antibióticos foram utilizadas em animais criados para o consumo humano, muitas vezes para fazer com que cresçam mais rápido e ganhem peso. Além disso, a pesquisa aponta também que, em 2030, essa quantidade deverá ultrapassar 200 mil toneladas.
A pesquisa de Boeckel traz o Brasil como o terceiro no mundo que mais emprega antibióticos na produção de proteína animal, atrás apenas da China, com uso superior a 400 mg/kg, e dos Estados Unidos, cuja utilização chega a quase 200 mg/kg. A meta razoável seria de 50mg para cada quilo do animal, uma vez que, quando o ser humano come a carne, absorve a substância.

 

O que dizem as autoridades

Desde 2015, existe o Plano de Ação para Controle de Resistência Microbiana. O documento tem como foco o estabelecimento de ações de prevenção e controle, detalha as atividades descritas no Plano de Ação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serviços de saúde e define estratégias nacionais para detecção, prevenção e redução da Resistência Microbiana (RM) em serviços de saúde. O documento segue as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e foi elaborado para ser executado nos cinco anos sucessivos à sua elaboração. A previsão para implementação da proposta era a partir de 2018, com expectativa de conclusão até 2022; porém, as ações acontecem lentamente.

Em 2017, a Justiça Federal de São Paulo, aceitou a ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal, proibindo a fabricação e o uso de aditivos zootécnicos que contenham o antibiótico Colistina (Poliximina E).

O antibiótico era utilizado como suplemento na ração animal para acelerar o crescimento para o abate, principalmente em suínos e aves. A Colistina, também está na lista da Organização Mundial da Saúde de medicamentos que devem ser considerados último recurso no tratamento de infecções bacterianas multirresistentes nos seres humanos.

Segundo nota emitida pelo MPF, o consumo da carne de animais alimentados com a ração misturada ao Colistina, como acontecia, levaria à resistência ao medicamento, tornando-o ineficiente nos humanos.

Na ocasião o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) autorizou o uso da substância, que ainda estivesse em estoque nos abatedouros, até novembro de 2018. O órgão informou que dessa forma seria mais fácil a adaptação da cadeia produtiva, conforme solicitação de entidades representativas do setor produtivo. O que para o Ministério Público Federal, em nota, “privilegiou os interesses econômicos envolvidos, sem atentar para os riscos à saúde pública relacionados à questão”.

 

Um apocalipse microbiológico?

Em 2017, um relatório do governo britânico sobre resistências bacterianas constatou a seguinte estimativa: em 2050, as infecções bacterianas matarão mais pessoas, em esfera mundial, do que acidentes de trânsito. Isso iria dizimar a humanidade. Mas será o fim do mundo por conta das bactérias? Segundo o professor Marcos Pileggi, não. O uso excessivo do antibiótico se dá por falta de conhecimento sobre as bactérias. “Nós usamos muito o antibiótico, porque temos pânico de bactérias. Porém, de todas as que conhecemos apenas 1% são patogênicas. As outras nos ajudam. Se esses microrganismos não existissem, nós não estaríamos vivos”, esclarece o professor. Ele acredita que é preciso que a medicina aprenda a “conversar” com elas e chegar a um acordo, porque “as bactérias estão em equilíbrio conosco, nós é que não estamos em equilíbrio com elas”.