Desinformação: a volta de doenças erradicadas no Brasil

Desinformação: a volta de doenças erradicadas no Brasil

novembro de 2018 0 Por Nuntiare

Febre amarela, poliomielite e sarampo voltam a preocupar a saúde nacional

O grande avanço da medicina no decorrer dos anos garantiu a extinção de doenças que assolaram muitas vidas. Um exemplo é a varíola, considerada erradicada mundialmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS), quando fez a última vítima fatal em 1977, na Somália. Outra doença considerada erradicada mundialmente em 1942, a febre amarela voltou ao Brasil em 2014, segundo registros do Ministério da Saúde, e em 2016 o vírus causador da doença emergiu no extremo leste brasileiro, causando o maior surto nas últimas décadas. Enquanto isso, patologias que não foram extintas, mas controladas, voltam a preocupar a população e a comunidade médica.

O sarampo foi considerado erradicado no país desde 2016. A poliomielite - responsável pela paralisia infantil - estava controlada, através da vacinação, com previsão para desaparecer no mundo todo em 2017. Entretanto, as duas doenças, que ainda entravam no calendário de vacinação nacional infantil, voltaram a infectar a população. Em julho deste ano, foram registrados riscos de pólio em mais de 300 municípios do país. O MS aponta a resistência à vacinação infantil como uma das principais causas, as localidades que não alcançaram a vacinação de 50% da população correm maior risco da volta da doença erradicada.

Em meados de 2014, a confirmação de uma epizootia em primatas não humanos (PHN) por febre amarela (FA) foi registrada em Tocatins, evidenciando a transmissão ativa do vírus durante o período de baixa ocorrência da doença. Esse evento foi um importante marcador da reemergência do vírus no país, do qual decorreu a publicação de um alerta feito pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS) sobre os riscos da dispersão da FA nos sentidos sul e leste do Brasil, contendo recomendações para intensificação da vigilância epidemiológica. (fonte: Boletim Epidemológico da Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde, 2017)

O primeiro dia de campanha contra o sarampo, em Ponta Grossa, aplicou 100 doses da vacina em crianças no centro da cidade

Baixa taxa de vacinação está ligada à volta de doenças

Em 2016, a taxa de vacinação contra a poliomielite foi a menor em 12 anos: 84% da população brasileira foi vacinada, 11% abaixo da meta nacional. Em Ponta Grossa, apesar da disponibilização de vacinas em 17 Unidades de Saúde localizadas nos bairros, alguns moradores não mantém o calendário de vacinação, adulto ou infantil, em dia. “Existem vários motivos. Um deles é a falta de objetividade nas campanhas do Ministério da Saúde, as campanhas não atingem toda a população, o Governo não consegue se fazer ouvir”, aponta Celso Luiz Borges, professor de Infectologia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

A tríplice viral, vacina contra rubéola, caxumba e sarampo, é aplicada em duas doses durante a vida: uma no primeiro ano e outra em adultos de 30 a 49 anos - ou, quando não imunizado na infância, duas doses entre 20 e 29 anos. Entretanto, em 2018, o Calendário Nacional de Vacinação liberou duas doses também para adolescentes, caso não tenham a recebido.
A presença das vacinas no calendário nacional, porém, não garante sua disponibilidade. Nem todas as unidades públicas de saúde mantém o estoque fora do calendário oficial de vacinação ou em datas de campanhas. “Teoricamente, a disponibilidade de vacinas deve ser durante o ano todo, independente de campanhas. As campanhas são situações em que se intensifica o processo, com o objetivo de mobilizar a população em um período reduzido e conscientizá-los”, explica Borges.
Neste cenário, campanhas tornam-se necessárias para atender às demandas daqueles que não conseguem senhas em postos de saúde, dos que perdem as datas de vacinação dentro do prazo previsto pela carteirinha imunológica ou de quem opta pela não-vacinação.
Com a elevada demanda pela vacinação infantil contra o sarampo, no dia 29 de agosto, uma quarta-feira, o Ônibus da Vacina ficou estacionado dentro do Terminal Central da cidade. Pela manhã, foram levadas apenas 50 doses, mas, durante o dia, a demanda exigiu o dobro de injeções.

Sem filas para atendimento, pais de crianças abaixo de 3 anos saíram dos bairros de Ponta Grossa para vaciná-los no centro e garantir a dose obrigatória

Uma boa campanha vacinal depende de aspectos de logística de distribuição de insumos, conforme a necessidade regional”, analisa a médica infectologista Eleonora Calixto. Ela explica que a falta de campanhas em situações de surto de doenças compromete não apenas o indivíduo, que se torna suscetível a ser infectado, mas toda a coletividade que está direta ou indiretamente em contato com ele.

Movimento anti-vacina influencia população

O movimento anti-vacina é tão antigo quanto a prática de vacinação. Parte da população considera a ação maléfica à saúde ou nega a prevenção às crianças por considerá-las sadias. Outros, por motivos religiosos, não se interessam pelo método de prevenção.
Em 1998, o ex-médico britânico Andrew Wakefield publicou, na revista científica The Lancet, um artigo que associou a vacina tríplice viral com o desencadeamento do autismo e de doenças ligadas ao intestino em bebês e crianças. O estudo foi baseado em amostras de sangue de 12 crianças convidadas para a festa de aniversário do filho do pesquisador, que supostamente apresentavam vestígios do vírus do sarampo nas amostras de sangue.

Anos mais tarde, em 2004, um dos médicos que auxiliou o estudo afirmou que Wakefield teria ignorado a não-presença do vírus nas amostras, para não atrapalhar o andamento da pesquisa. Além de estudos posteriores, que confirmam a falta de ligação entre a presença do componente antibactericida MMR e o desenvolvimento do autismo, foi levantado o conflito de interesses na publicação do artigo de Wakefield.
Em alguns casos, os próprios médicos brasileiros ajudam a repercutir e afirmar a ideia dos malefícios da vacinação - como as doses contra o Câncer de Colo de Útero, para adolescentes. Em 2016, através do TelessaúdeRS, projeto de pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi publicada uma avaliação crítica sobre a imunização do HPV, escrita em 2014 por Eno Dias de Castro Filho, médico de família e comunidade que atua no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre (RS).
Anos mais tarde, em 2004, um dos médicos que auxiliou o estudo afirmou que Wakefield teria ignorado a não-presença do vírus nas amostras, para não atrapalhar o andamento da pesquisa. Além de estudos posteriores, que confirmam a falta de ligação entre a presença do componente antibactericida MMR e o desenvolvimento do autismo, foi levantado o conflito de interesses na publicação do artigo de Wakefield.

O artigo publicado foi retirado dos arquivos da revista, que em 2018, com a epidemia de sarampo na Europa, se desculpou à população.

Em alguns casos, os próprios médicos brasileiros ajudam a repercutir e afirmar a ideia dos malefícios da vacinação - como as doses contra o Câncer de Colo de Útero, para adolescentes. Em 2016, através do TelessaúdeRS, projeto de pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi publicada uma avaliação crítica sobre a imunização do HPV, escrita em 2014 por Eno Dias de Castro Filho, médico de família e comunidade que atua no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre (RS).
Na publicação, o médico cita a vacina contra o HPV como inadequada e desnecessária na prevenção de doenças, além de trazer dados sobre efeitos adversos e mortes causadas pela vacinação nas mulheres. “Considera-se segura a administração de uma vacina quando seus riscos são aceitáveis e seus benefícios os superam. No caso da vacina contra o HPV, não há conhecimento sobre qualquer benefício em termos de proteção contra o câncer ou redução de mortalidade”, defende Castro Filho no site do Telessaúde.

Saídas para voltar a conscientizar e vacinar a população

Em busca da garantia de proteção de crianças e adolescentes contra doenças contagiosas e previamente erradicadas, a Lei Estadual 19.534, de junho de 2018, torna obrigatório em toda a rede pública e privada de ensino no Estado do Paraná a apresentação da Carteira de Vacinação no ato de matrícula de alunos até 18 anos, sob pena de denúncia ao Conselho Tutelar. O artigo 3º da Lei explica que “só será dispensado da vacinação obrigatória o matriculando que apresentar atestado médico de contraindicação explícita da aplicação da vacina”. Dessa forma, todos os alunos que se matricularem deverão estar em dia com o Calendário de Vacinação da Criança e Calendário de Vacinação do Adolescente, ou será impossibilitado de realizar a matrícula na instituição de ensino.
Alguns movimentos anti-vacina, entretanto, se mostram contra a obrigatoriedade, alegando que o Estado não deve interferir na decisão de pais e responsáveis de não seguir os calendários previstos pelo Ministério da Saúde. Mas, como reitera o professor e pesquisador Celso Luiz Borges, “a vacinação é um mecanismo de proteção individual, para o caso de possíveis exposições ocupacionais”.
A conscientização é a principal arma contra a volta de doenças, através da capacitação de equipes de saúde e da informação sobre a importância da prevenção. “Uma população bem informada não acredita em movimentos especulativos e tem ciência de que a prevenção é um bom negócio e perder vidas para doenças que podem ser prevenidas é um desperdício”, alerta Calixto.

Saídas para voltar a conscientizar e vacinar a população

Reportagem:
Ellen Almeida