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Rio Pitangui: equilíbrio entre conscientização e qualidade

Contaminações através da ação humana atinge principal bacia hidrográfica dos Campos Gerais, o que afeta também a qualidade da água que a população recebe

O rio Pitangui banha parte dos municípios de Castro, Carambeí e Ponta Grossa, nos Campos Gerais, e é um dos principais curso d’água do estado do Paraná. O Pitangui é responsável por 70% do abastecimento de Ponta Grossa e os outros 30% são provenientes da represa do Alagados, que é o próprio Pitangui barrado artificialmente.

A nascente do rio está localizada na parte sudeste de Castro, assim junta-se com o rio Jutuva, Rio Verde (a nascente fica no Capão da Onça) e São João (nascente em Carambeí). Sua foz está no rio Tibagi.

O conjunto de águas do rio Pitangui penetra na Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devo-niana, banhando uma área de aproximadamente 927,3 km², o que garante 100% de abastecimento hídrico em Ponta Grossa. Segundo o professor do departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa

(UEPG), Gilson Burigo, a bacia do Pitangui é vinculada ao que acontece dentro da APA, assim, tudo que ocorre no local impacta também no Rio. “As práticas que têm sido executadas atualmente na área já têm colocado em risco a integridade dos processos naturais que garantem quantidade e qualidade das águas”, explica Gilson.

Conforme as determinações do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o Pitangui é classificado como rio de classe 2, o que
significa que as águas podem ser destinadas à preservação da vida aquática e usadas para abastecimento doméstico após tratamento convencional, atividade de esporte e lazer, aquicultura, pesca e irrigações. Contudo, o potencial das águas do rio Pitangui não são exploradas totalmente devido seu estado atual de impureza.

O livro “Pitangui, Rio de contrastes: seus lugares,seus peixes, sua gente” organizado e produzido por pesquisadores da UEPG traz estudos sobre as características físicas e biológicas do Pitangui. Como mostram as pesquisas, um dos fatores que ajuda a determinar a qualidade das águas de um rio é a quantidade de oxigênio dissolvido (OD) nele. A concentração do composto é um parâmetro que revela a possibilidade de manutenção da vida dos organismos aquáticos que habitam nos rios.

Conforme o estudo, em determinados pontos de coletas, as concentrações de oxigênio foram menores do que as estabelecidas pelo Conama. A falta de OD pode ocasionar morte dos organismos aeróbicos. A redução de oxigênio no Pitangui está relacionada com o aumento da concentração de matéria orgânica na água. Isso significa haver uma intensa atividade bacteriana no local. Ou seja, a presença excessiva de lançamento de esgotos e efluentes orgânicos aumenta o consumo de oxigênio, fazendo com que cresça a demanda por OD nas águas.

Outros componentes que influenciam na qualidade da água são os teores de nutrientes inorgânicos, como fósforo e nitrogênio. O fósforo é importante para a manutenção da vida das moléculas dos organismos vivos e serve como nutriente limitante para  a produção de células de organismos vegetais. Contudo, os pesquisadores descobriram, a partir de coleta de amostras do rio, que as concentrações de fósforo do Pitangui estão acima do limite determinado pelo Conama. Esse aumento ocorre pela grande carga poluidora de esgotos domésticos de Ponta Grossa e a presença de atividade agrícola nas margens do rio.

O fósforo está presente em fertilizantes químicos usados no solo e em resíduos urbanos que contêm polifosfato de produtos de limpeza.
Geógrafo e representante do Laboratório de Mecanização Agrícola (Lama), Átila Santana, explica que a principal fonte de contaminação do Pitangui é proveniente do esgoto doméstico que afeta diretamente a vida dos peixes e a qualidade da água consumida pelos humanos.

Os agrotóxicos também são apontados como vilões para a saúde do rio. Átila aponta ainda que o assoreamento causado pela agricultura mal manejada ocasiona eliminação de solo e matéria orgânica em excesso. “Parte do esgoto se dilui e a oxigenação do rio resolve um pouco desses problemas. Mas alguns componentes do agrotóxico, por exemplo, não se tornam puros”, conclui o geógrafo.

De acordo com a professora do departamento de Geociências da UEPG, Maria Lígia Cassol, o rio Pitangui passa por processos erosivos, eventos naturais que têm sido acelerados pelas atividades humanas. As ações realizadas na região, sejam elas humanas ou derivadas de atividades urbanas, têm impacto nos processos que afetam no médio curso do rio. O Pitangui recebe também águas de seus afluentes, como o Rio Verde. “O impacto decorre de resíduos sólidos e significativos efluentes domésticos, oriundos de habitações que não estão conectadas ao sistema da Sanepar”, aponta a geógrafa.

Segundo Gilson, a expansão urbana é um fator que contribui para a contaminação do solo e das águas. “Há uma tendência de expansão da área urbana ao leste do município, trecho muito sensível. O substrato é a formação Furnas, que tem características que a torna incompatível com a urbanização, por conta de solos mais rasos. A construção de edifícios nesses terrenos pode ser problemática, pois a superfície pode ceder”, afirma o professor. A região acomoda a água que abastece as bacias e também grande parte do patrimônio natural da cidade.

O Instituto das Águas do Paraná (IAP) é o órgão executivo gestor do Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SEGRH/PR). O órgão também é encarregado de controlar as contaminações que ocorrem em águas superficiais, assim como o Pitangui, como explica o chefe do núcleo regional do IAP, Marco Czerwonka. “A pessoa ou empresa que pretende lançar resíduos no rio precisa fazer o pedido do lançamento; em seguida, passa por uma triagem e é entregue aos técnicos capacitados para análise das informações passadas, emitindo parecer técnico sobre liberar ou não o lançamento”. O controle de contaminações contribui para que haja menos poluentes nas águas e que seja possível proteger a natureza de forma consciente.

Preservação e o incentivo pela educação ambiental

A poluição está visível em praticamente todo o curso do rio Pitangui e suas margens ganham um aspecto mais sujo quando se atenta para a quantidade de lixo depositado. Os resíduos comprometem a parte estética e a capacidade de circulação das águas.

“Parte do esgoto se dilui e a oxigenação do rio resolve um pouco desses problemas. Mas alguns componentes do agrotóxico, por exemplo, não se tornam puros”

Átila Santana, representante do Lama

“A partir da naturalização do lixo, a questão é educacional, deveria estar na lista dos pontos principais para a minimização do problema, pois existe uma série de consequências para a população”, expõe Burigo. O professor ainda afirma que seria injusto colocar a responsabilidade da preservação em cima apenas dos órgãos públicos,

 

quando o papel fundamental também é da sociedade.

Uma das alternativas apontadas por Átila Santana para melhorar a qualidade da água do Pitangui é a adequação das propriedades rurais, considerando as Áreas de Preservação Permanente (APPs) do rio, além do isolamentos dos animais para que eles não cheguem perto das águas e do tratamento dos efluentes que são lançados. Um dos problemas de contaminação que não é tratado diz respeito à “saúde” do Rio Verde. As águas da região são praticamente depósitos de esgoto de Ponta Grossa. O mestre em Zoologia e doutorando pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Estevan Silveira conta que os estudos estão focados somente na qualidade do Pitangui, esquecendo que o Rio Verde é um dos seus maiores poluidores. Estevan estuda a qualidade e saúde dos peixes que compõem esse ambiente aquático. Uma das suas pesquisas consiste na coleta de peixes em quatro pontos de coleta do rio.

Como mostra o mapa acima, o ponto 1 está localizado na região do Capão da Onça, em uma parte de cabeceira do rio; o ponto 2 está próximo do cemitério do Jardim Paraíso. O ponto 3 fica perto do antigo matadouro do bairro Rio Verde e, por fim, o ponto 4 localiza-se nas proximidades do Pitangui. Nas águas do Verde há espécies aquáticas peculiares da região. Contudo, uma questão preocupante é que no ponto 4 de coleta, mesmo realizando a mesma metodologia, só foram coletados peixes em cinco meses, sendo que a pesquisa foi realizada em doze meses. Estevan explica que a presença excessiva de amônia na água prejudica o processo de excreção dos peixes, causando impactos para o equilíbrio do corpo do dos animais. “As coletas dos nossos estudos comprovaram que capturamos realmente o máximo de espécies que existe no Rio Verde nos pontos um, dois e três. No entanto, o ponto quatro não atingiu uma estabilidade, isso porque há realmente espécies faltando no local”, afirma. Portanto, os parâmetros de contaminação do rio afetam diretamente a manutenção da vida dos animais aquáticos. As pesquisas concluíram que há um excesso de amônia, cloreto, sólidos suspensos e um fundo assoreado por areia e lodo que prejudica a manutenção da vida no Rio Verde. “Conseguimos perceber o poder de degradação da ação humana que infringe essas áreas. Os peixes são como uma ferramenta para avaliar as condições que o rio se encontra”, conclui.

Apesar de não influenciar na água consumida pelos pontagrossenses, ao desembocar no Pitangui, o Verde contamina as águas e interfere na saúde e manutenção do Rio. Além de que, não tem como se preocupar somente com um rio, pois todos estão interligados. “Os órgãos ambientais sozinhos não conseguem resolver a contaminação dos rios. É preciso haver políticas públicas, para que os recursos sejam geridos de maneira sustentável e com responsabilidade”, conclui Estevan.

 

Rio Pitangui pede socorro: os impactos na qualidade da água e vida dos peixes

Confira a entrevista com a Doutora em Ecologia e Recursos Naturais e organizadora do livro “Pitangui, Rio de contrastes: seus lugares, seus peixes, sua gente”, Ana Maria Gealh

Ana Maria Gealh é organizadora do livro "Pitangui, Rio de contrastes: seus lugares, seus peixes, sua gente".

Ana Maria Gealh possui graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), mestrado em Zoologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutorado em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pós-doutorado pelo Núcleo de Pesquisas em Limnologia Ictiologia e Aquicultura (NUPELIA) da UEM. Atualmente é professora aposentada do Departamento de Biologia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). 

Confira na entrevista a seguir os detalhes da situação que o rio Pitangui se encontra.

Nuntiare: Como a contaminação das águas interfere na saúde dos animais aquáticos e na paisagem que compõe a bacia do Rio Pitangui?

Ana Maria: Quando você joga o esgoto para dentro do rio, muda-se completamente a qualidade da água, ou seja, ali você está jogando todos os tipos de produtos que são inadequados, como os saponáceos, remédios, dejetos humanos. A qualidade da água do rio que teria que ser muito boa, pura e rica em oxigênio acaba ficando em péssimas condições, com pouco oxigênio e um excesso de bactérias, fungos e outros componentes que podem atrapalhar diretamente o desenvolvimento de organismos aeróbicos dentro do rio. Nesse contexto de presença de esgoto, os animais como insetos que servem de alimentos para os peixes também não conseguem se desenvolver ali, porque não possuem condições primárias. Naqueles locais onde antigamente encontrava-se uma grande quantidade de vegetação - locais onde os peixes ficavam para se reproduzir - atualmente, encontram-se apenas garrafas pets, sofás, fogão e lixos em uma quantidade imensa. Mesmo que o peixe conseguisse sobreviver às contaminações da água, ele não teria uma vegetação adequada para fugir de predadores e se desenvolver dentro do rio. Então, a vida acaba e fica aquilo que não presta, como: bactérias, fungos terríveis e animais oportunistas que podem fazer mal para a saúde do homem.

 

Nuntiare: Como é possível caracterizar o potencial e o perfil do Rio Pitangui?

Ana Maria: O Rio Pitangui tem o potencial tanto de abastecimento para a população 

como é hospedeiro de peixes e paisagens maravilhosas que podem ser usadas para lazer. Durante nossas pesquisas, percorremos o Pitangui inteiro e percebemos que, apesar de alguns resquícios de vegetação ainda conservadas, a maior parte do Rio está muito comprometida. Percebo que há um número muito pequeno de pessoas que se preocupam com a manutenção dessas águas. Há uma falta de interesse do poder público e da população em cuidar do Pitangui. Os grandes vilões da saúde do rios são o poder público e a própria população. É todo um um contexto de falta de conscientização e educação ambiental, uma população que não faz sua parte e não cobra dos políticos. Essa é uma questão que só percebe quem vai até os rios e nota as poluições presentes nas águas. Os dois maiores rios que contaminam o Pitangui, são o Rio Verde e o Rio São João que vêm de Carambeí, com problemas de poluição provenientes da agricultura e agrotóxicos.

 

Nuntiare: Como a qualidade do rio influencia diretamente no tratamento que deve ser feito para água ficar em condições de consumo da população?

 

Ana Maria: Na realidade, já existem estudos que comprovam que quando há um tratamento forte do manancial da bacia, gasta-se muito pouco no tratamento da água e sua qualidade torna-se bem melhor. Primeiro é preciso descontaminar a água do rio, e quanto mais contaminada está, mais substâncias serão usadas no tratamento que prejudicam diretamente a qualidade do líquido. Por isso, a contaminação oriunda da agricultura e compostos químicos interferem tanto na qualidade da água consumida pela população.

 

Nuntiare: Como surgiu a proposta e quais os objetivos do livro “Pitangui, Rio de contrastes: seus lugares, seus peixes, sua gente” ?

Ana Maria: O livro surgiu a partir de uma proposta do Lions Clube Pitangui, que estava fazendo aniversário e queria homenagear o Rio por meio de uma coleta de lixos e peixes. Quando fui conversar com os representantes do Clube, ressaltei que um trabalho de pesquisa não era realizado dessa maneira. Primeiro que o trabalho de coleta de lixo não resolve nada se não trabalharmos o lançamento desse lixo para o rio. Por isso, expliquei que teríamos que fazer o levantamento de peixes do rio inteiro e também uma coleta de água para análise de sua qualidade. No fim, cheguei para o Departamento de Biologia da UEPG e comecei a conversar com outros professores, tivemos algumas ideias e resolvemos ampliar a proposta do trabalho. O livro foi resultado de estudos interdisciplinares que juntou o pessoal da Agronomia, Geografia, Botânica e Química. O nosso objetivo era mostrar para a população que a situação do Rio Pitangui estava muito ruim, porém quando comecei a fazer o trabalho percebi que o  Rio estava bem pior do que eu imaginava. Por isso, resolvemos ainda fazer uma exposição com fotos da parte contaminada e não contaminada do Pitangui. O nosso intuito, de pesquisadores, era criar um espírito de mobilização da população. Mas, confesso que é muito frustrante para o pesquisador quando a população e o poder público não toma ciência da situação grave que o Pitangui está.

Reportagem
Aline Cristina
Ana Luisa Vaghethi
Kethlyn Lemes

Fotos
Angelo Rocha

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