Estudo pretende comprovar eficácia de elementos naturais à base de tanino em comparação aos compostos químicos geralmente utilizados na purificação da água

Cada brasileiro consome, em média, 108,4 litros de água por dia, de acordo com o levantamento mais recente sobre o assunto, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados constam no relatório Contas Econômicas Ambientais da Água do IBGE, que traz o cálculo do uso das famílias, per capita, entre os anos de 2013 a 2015. Mas para onde vai a água que, entre tantas formas de uso doméstico, escorre pela torneira, escoa pelo ralo do chuveiro e pelo vaso sanitário?

Toda a água consumida atravessa um processo de tratamento rigoroso até chegar aos rios sem resíduos, como um efluente limpo – ou quase toda. Segundo o Instituto Trata Brasil, em Ponta Grossa, 86,71% da água consumida é tratada. Enquanto que, para a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), o tratamento atinge 100% dos recursos hídricos efetivamente consumidos na cidade, pois ela desconta o “volume de água que não retorna ao sistema de esgotamento, caso de rega de jardins”.

Existem técnicas diversas para tratar a água utilizada na cidade. Em geral, o processo tem início com uma etapa preliminar, que remove os sólidos grosseiros do volume líquido através do uso de grades e caixas de areia. Em seguida, o tratamento primário retira os resíduos sedimentáveis (que ficam no fundo dos dispositivos de tratamento), por intermédio da decantação, que separa as misturas sólidas e líquidas. O conteúdo decantado, que termina depositado no fundo do tanque, forma o lodo de esgoto e pode ser descartado em aterro sanitário ou utilizado para a fertilização do solo na agricultura, por ser rico em matéria orgânica. A próxima fase é chamada de tratamento secundário, em que se separa do efluente a matéria orgânica restante, que está dissolvida ou em suspensão no líquido. Existe ainda o tratamento terciário, destinado à remoção de poluentes específicos, porém não é utilizado no tratamento de esgoto convencional – apenas em alguns casos no ramo industrial.

Otimização do tratamento

A pesquisadora Fabiane Russo Sanches estuda o melhoramento de uma técnica usada na remoção de matéria orgânica do esgoto, cujo objetivo é tornar o tratamento da água mais curto e otimizado. Fabiane é mestranda em Engenharia Sanitária e Ambiental na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e pesquisa o tratamento de efluentes feito por um dispositivo chamado UASB. O termo vem do inglês Upflow Anaerobic Sludge Blanket, nome que identifica como é feito o processo de tratamento: há um manto de lodo anaeróbico – ou seja, sem oxigênio - no fundo do reator, pelo qual o efluente passa, em fluxo ascendente, de baixo para cima. A matéria orgânica do efluente é retida no lodo, também chamado de biomassa; além disso, há a geração de gás metano, que pode ser queimado ou usado para a geração de energia.

O UASB é conhecido também por outros nomes, como Reator Anaeróbico de Leito Fluidizado (RALF), termo mais utilizado no Paraná.

De acordo com a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), em Ponta Grossa, nove entre as dez Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) utilizam sistemas compostos por RALFs. A ETE Verde, por exemplo, que trata quase 50% do esgoto coletado na cidade, possui quatro reatores.

Fabiane explica que apesar de otimizar o processo de tratamento do esgoto, apenas o tratamento com RALF não torna a água suficientemente tratada. “Os reatores são bastante eficientes, têm uma remoção de matéria orgânica de 70% em média. Mas, para atender aos padrões, precisa de um pós-tratamento, para atender à legislação”, ressalta a pesquisadora. Entre padrões que regulamentam a qualidade do efluente estão a resolução N. 430 do Conselho do Meio Ambiente (Conama), a nível federal;

 

e a resolução 21 da Secretaria do Meio Ambiente (SEMA), em âmbito estadual. O pós-tratamento pode ser realizado por filtração biológica ou por coagulação,um procedimento químico usado para desestabilizar as partículas pequenas que não se sedimentam. Para o processo de coagulação, é necessário acrescentar produtos químicos à água. Fabiane aponta que os coagulantes mais utilizados são sulfato de alumínio, cloreto férrico e cloreto de polialumínio (PAC). Apesar de eficientes, os compostos utilizados podem trazer prejuízos ao tratamento. “Esses agentes acrescentam elementos químicos ao efluente final e ao lodo. O lodo é utilizado para a agricultura e isso dificultaria sua destinação”, exemplifica.

A pesquisa de Fabiane propõe uma opção aos coagulantes usualmente utilizados. “A alternativa são os coagulantes naturais à base de tanino. Nós estamos testando três diferentes coagulantes à base de tanino e vamos comparar a eficiência deles com o PAC”.

 

O tanino é encontrado no extrato vegetal da Acácia negra (Acacia maernsii). Atualmente, a pesquisadora está realizando testes em laboratório, com efluente coletado de uma estação de tratamento de esgoto. “A eficiência precisa ser otimizada através de pH, dosagem, velocidade e tempo. As condições ótimas são determinadas em jar test, o que estamos fazendo, e posteriormente será aplicado em escala real”, esclarece.

 

A inovação no estudo de Fabiane consiste no uso de um elemento natural em substituição aos elementos químicos no tratamento do volume hídrico. Caso obtenha êxito, a ação proposta aponta para uma otimização do tratamento de esgoto por RALF, possibilitando melhoria na qualidade da água, antes que seja devolvida ao meio ambiente ou reutilizada.

Saneamento em Ponta Grossa

O Instituto Trata Brasil é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) que defende a difusão dos serviços de esgoto, divulga anualmente um ranking do saneamento, com as 100 maiores cidades do país, a partir de informações do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), mantido pelo Governo Federal. Na lista de 2018, Ponta Grossa está na 14ª colocação, sete posições abaixo em relação ao último ano. Para a doutora em Hidráulica e

 

Saneamento Maria Magdalena Ribas Döll, professora da UEPG, a queda provavelmente se deve à melhoria em outras cidades e à instalação de moradores em regiões irregulares, onde não há a possibilidade de fazer ligações de tratamento. A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) também desenvolve um ranking de saneamento, com enfoque na universalização do serviço. Divulgada em junho deste ano, a lista também utiliza os dados do SNIS, que abrange todos os municípios do país. A classificação insere as cidades em categorias que expressam o alcance do saneamento básico em cidades de pequeno e médio porte, e em municípios de grande porte. Ponta Grossa, de acordo com ABES, é uma cidade de grande porte que se encontra no
estado de “Empenho para a universalização” pois, embora a distribuição de água e o tratamento de esgoto estejam em níveis altos, há grande deficiência na destinação correta de resíduos sólidos.

Reportagem
Ana Cláudia Pereira

Fotos e infográfico
Ana Cláudia Pereira

2 thoughts on “Pesquisa visa otimizar tratamento de esgoto doméstico”

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