Revista Nuntiare

Micropoluentes: um vilão pouco conhecido

Com baixo investimento para o combate e poucos estudos aplicados na área, os micropoluentes preocupam pesquisadores

A degradação do meio ambiente e a contaminação das águas são temas de debate nos mais variados pontos do globo terrestre. Atualmente, até mesmo as regiões mais remotas são afetadas pela poluição, como por exemplo, a Antártica, onde foram encontradas micropartículas de plástico na neve da região. Mas não é necessário ir tão longe para encontrar poluição em um grau elevado. O Brasil, local em que se tem as maiores bacias de água doce do planeta, é um dos atingidos pela expansão das cidades e pelo consumo desenfreado dos seres humanos.

Todos os produtos produzidos em pequena ou larga escala podem ser potencialmente poluentes da água, desde os agrotóxicos utilizados nas plantações aos medicamentos consumidos diariamente pelas pessoas, como os anticoncepcionais. Esse potencial aumenta quando se tem o descarte incorreto dos produtos, seja por falta de informação ou de locais corretos para a destinação.

Segundo a doutora em Química na área de Química Analítica Ambiental e professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Elizabeth Scheffer, qualquer atividade humana gera impacto na natureza. “O esgoto doméstico ainda é o maior problema a ser enfrentado em países em desenvolvimento, porém ainda temos em larga escala os resíduos químicos produzidos

por indústrias e pelo agronegócio, que ao serem descartados, prejudicam o meio ambiente”, ressalta a doutora em Química.

O acúmulo das substâncias químicas nas águas pode afetar a vida da fauna e da flora que ali vivem. A partir do aumento das matérias químicas em um determinado ambiente, surgem os micropoluentes, que são substâncias tóxicas, de origem orgânica ou mineral, que podem gerar danos ao meio ambiente e seus organismos. O nome vem da pouca quantidade em que são encontrados na natureza, porém como não são biodegradáveis (não podem ser decompostos), mas biocumulativos, muitos deles podem ser agressivos às espécies aquáticas, aos animais e provavelmente à saúde humana. “A detecção de quantidades tão pequenas só se tornou possível a partir do aprimoramento dos equipamentos”, afirma Elizabeth, que além de professora do curso de química, também mantém grupos de pesquisa sobre os micropoluentes na cidade.

Ao redor do mundo vários estudos são desenvolvidos a respeito dos micropoluentes. Um estudo liderado por uma canadense, na década de 90, indicou que na cidade de Ontário, no Canadá, alguns peixes descartados nas bacias hidrográficas municipais teriam apresentado casos de feminização e mudança de sexo, após a exposição a hormônios femininos.

Pesquisas no âmbito local

No Brasil, os estudos ainda são incipientes, além de não haver um controle desses tipos de poluentes. No âmbito local, em Ponta Grossa, a situação é a mesma. “Não existem pesquisas em número suficiente para gerar dados que permitam afirmar quais os micropoluentes presentes nas águas que abastecem o município de Ponta Grossa, ou seja, o Rio Pitangui”, comenta Elizabeth. O Rio Pitangui é o principal manancial de abastecimento da região. A água é coletada diretamente do rio e depois tratada. O Pitangui é também o principal formador da Represa de Alagados, que após tratamento é responsável por parte do abastecimento da Princesa dos Campos.

Neste ano, o grupo de pesquisa 'Química de Águas Superficiais e Estudo de Micropoluentes' é um dos que estudam as especificidades dessa substância na UEPG. Em 2018, as coletas são realizadas em um lago na região de Olarias. No decorrer dos anos obteve-se alguns resultados e a identificação de substâncias químicas em pontos específicos da cidade, através de pesquisas de Mestrado em Química Aplicada da UEPG, como por exemplo o estudo de Renato Fonseca, em 2014. O estudo de Renato detectou o micropoluente Triclosan (TCS), usado principalmente em produtos de higiene pessoal. Em outro momento mais recente, foi identificada a presença de cafeína nas águas da região, através da pesquisa de Juliana da Silva, concluída em 2016.

 

As duas substâncias citadas indicam a presença de contaminantes residuais que são usados no cotidiano da população e afetam os córregos urbanos através do esgoto doméstico.

Quando se trata do tratamento da água pelas companhias de saneamento que abastecem as cidades, a situação não é diferente. “Países desenvolvidos ainda não removem esse tipo de poluente. A exigência de tecnologias avançadas dificultam o processo, como por exemplo, o uso de membranas, osmose reversa, que são tecnologias caras. Isso tudo encareceria para o consumidor”, explica a doutora em Engenharia Civil na área de Hidráulica e Saneamento, Magdalena Döll. Segundo Elizabeth, por mais que estejam sendo realizadas pesquisas em Ponta Grossa, as mesmas ainda não são aplicadas em Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) ou de Água (ETA).

A ação dos resíduos industriais e dos agrotóxicos na formação dos micropoluentes

Dentre outros contaminantes que prejudicam o meio ambiente e causam a formação dos micropoluentes na água, podemos destacar os que têm origem em resíduos industriais e os agrotóxicos utilizados na produção agrícola. Os poluentes vindos das indústrias muitas vezes exigem um controle e métodos específicos para o descarte, pois tem componentes mistos que, em sua maioria, são formados por processos químicos. Esses resíduos industriais podem causar a morte dos peixes e da microbiota (conjunto de microorganismos que habitam um ecossistema, geralmente com funções importantes na decomposição da matéria orgânica e reciclagem de nutrientes, exemplo das bactérias e protozoários) e também um desequilíbrio ambiental.

De acordo com o processo produtivo de cada fábrica, pode-se ter o despejo de resíduos de diferentes origens no meio ambiente. “As indústrias alimentícias, por exemplo, provavelmente terão uma carga orgânica maior, ou seja, mais biodegradável e, consequentemente, de mais fácil tratamento. Diferente de uma indústria produtora de produtos químicos, a fábrica de alimentos terá compostos mais resistentes, assim as bactérias não conseguirão se degradar”, explica a mestranda em Engenharia Ambiental e Sanitária pela UEPG, Valdirene Aluiz. A pesquisadora também afirma que em muitas fábricas em Ponta Grossa esse tratamento dos resíduos ainda não é feito de forma correta. “O tratamento é difícil devido a variedade dos componentes que formam os micropoluentes na água, ainda falta muito investimento e estudo”, alega Valdirene.

O uso de agrotóxicos na produção agrícola também é preocupante, não só na questão da poluição do meio ambiente e das águas, mas porque pode afetar diretamente na saúde da população. Pesquisas desenvolvidas em 2015 pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Ministério da Saúde - Fundação Oswaldo Cruz, apontaram que a ingestão desses conservantes pode causar problemas neurológicos, motores e até mesmo mentais.

No país, consome-se o equivalente a 7,3 litros de agrotóxicos por pessoa no ano, sendo que no estado do Paraná o índice chega a 8,7 litros por pessoa. Quando se trata especificamente da água, a fiscalização é inadequada ao tamanho do perigo, pois muitas vezes as plantações chegam muito próximas aos rios, lagos e lagoas. Consequentemente, a utilização em larga escala afeta os consumidores. “Os agrotóxicos podem atingir os rios de diferentes formas, um meio comum por exemplo é através da água das chuvas, que atinge o solo contendo os agroquímicos, e acaba escorrendo até os rios e até mesmo para as águas subterrâneas”, comenta o estudante de agronomia Rodrigo Schafranski.

Discussão sobre o agrotóxico na Câmara dos Deputados

O projeto de lei 6299/02 que tenta flexibilizar as regras para a fiscalização e utilização dos agrotóxicos foi aberta para discussão na Câmara dos Deputados. A proposta tem por dentre os intuitos, passar a usar os termos "defensivos agrícolas" e "produtos fitossanitários" no lugar de "agrotóxico"; liberar licenças temporárias; e permitir que apenas as substâncias com “risco inaceitável” sejam barradas, enquanto as de “riscos aceitáveis” serão liberadas; (até então, nenhuma das classificações eram permitidas). Além disso, o projeto visa facilitar a burocracia para a liberação dos agroquímicos parecidos com outros já registrados. Ou seja, permitiria mais substâncias e facilitaria o abuso de quantidades, que consequentemente, pode gerar mais contaminação nas águas que banham o país. A proposta foi aprovada no dia 25 de junho pela comissão especial da Câmara que analisa o projeto. Agora o PL segue para apreciação no plenário da Câmara.

Reportagem
Kethlyn Lemes

A despoluição é o caminho

Apesar da falta de investimento e todos os outros problemas com relação a poluição nas águas no Brasil, há um movimento para a despoluição ao redor do mundo. Na medida em que a preocupação com o meio ambiente cresce, os rios e os lagos entram nesse processo. O Rio Cheonggyecheon, por exemplo, em Seul, capital da Coreia do Sul, foi totalmente revitalizado em apenas quatro anos e hoje serve como um ponto turístico da cidade. Em 2003, 620 mil toneladas de concreto ficaram sobre o rio depois de uma de um viaduto desabar. Já em Londres, no Reino Unido, as águas do rio Tâmisa foram consideradas inapropriadas para o consumo ainda em 1610, pela falta de saneamento básico na região. Com um investimento de 200 milhões de libras, a partir de 1984 para a despoluição, até hoje o governo continua a manutenção do local, tirando cerca de 30 toneladas de lixo.

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