Arteterapia e Dançaterapia são alternativas saudáveis para pessoas em tratamento contra a depressão, Mal de Parkinson e Alzheimer. Técnicas ainda estão em desenvolvimento em Ponta Grossa.

Segundo a Organização Mundial da Saúde(OMS), as doenças mentais e neurológicas atingem 700 milhões de pessoas ao redor do mundo. Um terço dessas pessoas não têm acesso a um tratamento adequado para essas doenças. Patologias como depressão, epilepsia, doença cerebral crônica, Alzheimer e Mal de Parkinson estão presentes na população. Há condições que podem aumentar o risco dessas doenças como fatores genéticos, nutricionais e doenças como hipertensão arterial, diabetes e anemia, que levam à falta de nutrientes adequados para o cérebro.

Pesquisadores acreditam que essas doenças podem mudar a estrutura física do cérebro com o passar do tempo. O psiquiatra Pedro Mario Pan,pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avaliou imagens cerebrais de 750 crianças de seis a doze anos e identificou que algumas delas apresentavam alterações na parte do cérebro que é responsável pela sensação de recompensa. Três anos após o estudo, os jovens foram diagnosticados com quadros depressivos. Em 2018, a pesquisa faz parte do Projeto Conexão, que é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O objetivo desses estudos é avaliar a predisposição à depressão em adolescentes e jovens.

Doenças neurológicas têm diagnóstico e tratamentos difíceis e, por vezes, são estigmatizadas pela população e pelos próprios pacientes. A depressão é um exemplo: estudiosos não conseguem afirmar exatamente em qual área do cérebro ela se desenvolve e nem se é sempre no mesmo local e pesquisadores da Universidade de Oxford afirmam que 50% das prescrições médicas de remédios não são assertivas de primeira. Técnicas alternativas têm ganhado espaço no campo clínico das doenças neurológicas, aliando medicação e tratamentos alternativos como Pilates, Reiki, Aromaterapia,Acupuntura, Arteterapia e Dançaterapia, que possuem um papel complementar à medicina tradicional para aliviar dores e manter o equilíbrio emocional.

A arteterapia é uma prática terapêutica que utiliza atividades artísticas com o fim de organizar a vida psíquica, pensamentos e atos através de recursos expressivos como artes plásticas, artes cênicas, música, dança e literatura. A prática auxilia no tratamento de doenças neurológicas e mentais, o que proporciona ao paciente uma nova alternativa de terapia. Desde 2017, a arteterapia faz parte das Práticas Integrativas Complementares à Saúde (PICS) oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), podendo ser ofertada em Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), escolas, abrigos, hospitais, instituições de apoio social, clínicas e consultórios particulares.

De acordo com a pesquisadora Mônica Regina Bruning, a arteterapia é uma prática valiosa na promoção à saúde emocional e psíquica do indivíduo, pois utiliza linguagens artísticas variadas - desenho, pintura, escultura, narração de histórias, teatro - para proporcionar a criatividade que existe em cada um. “Não se trata de avaliar produção artística em termos de feio/bonito ou certo/errado, mas dialogar com a figura que terá, para o seu autor, um significado único e individual. A partir destas produções pode-se perguntar o porquê de tal símbolo ter sido representado e, com isso, identificar os conteúdos psíquicos conscientes ou inconscientes que influem na vida do indivíduo”, esclarece Bruning.

A professora Jessika Flipke desenvolveu pesquisa sobre o trabalho da arte na deficiência e doenças mentais na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Ponta Grossa, com objetivo de verificar a importância de permitir o uso da arte às crianças com deficiência mental. Foram desenvolvidas sete atividades artis ́ ticas em treze encontros com um grupo de seis alunos da instituição, com idade de 13 anos. As atividades desenvolvidas foram pintura, desenho, recorte e colagem, xilogravura, monotipia e pintura em tela. “Através das atividades verificou-se que a arte deve ser considerada como uma ferramenta para o desenvolvimento dos deficientes mentais, usando-a para estimular o aprendizado, desenvolver potencialidades e ajudar no desenvolvimento motor e psicológico”, explicou Flipke, completando que essas atividades promovem a inclusão dos alunos no universo da arte, o que potencializa a criatividade, propicia novas oportunidades e beneficíos aos alunos com deficiência mental.

A dançaterapia, por sua vez, pode auxiliar no tratamento de diferentes doenças, sejam neurológicas ou não, como o Mal de Parkinson, depressão, autismo, estresse pós-traumático, entre outras. O pressuposto da técnica é a relação entre o movimento e a psicologia para colocar o paciente em contato consigo mesmo. “É preciso entender a dança como um processo de movimentação e que dentro dela existem técnicas e metodologias ” , afirma a pesquisadora e professora de dança,Juliana Safraider, completando que “ a dançaterapia funciona entendendo os sinais que o corpo indica e dele trazendo as próprias problematizações ”.

Segundo Kamila Martinhuk, professora de dançaterapia formada pelo Centro Internacional de Dançaterapia María Fux, o dançaterapeuta tem o papel de dar indicações e caminhos através dos movimentos. “Nenhum aluno é obrigado a seguir aquilo que o professor coloca, cada um dança de acordo com o que sente, buscando sair da área de conforto e dos padrões”, explica Martinhuk. Para a professora, a dançaterapia favorece o autoconhecimento, amplia a forma como se enxerga o mundo, colabora para o enfrentamento de medos, incertezas, angústias, isolamento, combate ao stress, aumenta a autoestima e confiança, entre outros. Como a dançaterapia é uma técnica complementar no tratamento, não tem restrição às pessoas ou idade. “A diferença da dançaterapia para outras atividades físicas é que existe aparato psicológico por trás da dançaterapia”, explica Safraider.

Em Ponta Grossa, as aulas de arteterapia podem ser encontradas na Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Culturais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Proex – UEPG), disponível para toda comunidade, e também na escola de artes Casa Leonardo. A dançaterapia não é oferecida em nenhum estabelecimento da cidade. Bruning comenta que o trabalho de arteterapia no cenário pontagrossense ainda está em processo de adaptação. “Temos o desafio de levar conhecimento às pessoas de como se dá o trabalho do arteterapeuta, bem como o ganho pessoal e coletivo que pode se conquistar. Fazer com que vá além dos espaços privados para que a população possa ter acesso à arteterapia por meio dos serviços públicos”, complementa.

Reportagem:

Aline Spinassi
Kethlyn Lemes

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