Conheça a opinião do cientista político Fábio Góiris sobre as fake news e o efeito delas em ano de campanha eleitoral

Uma das grandes preocupações quanto às fake news no cenário atual brasileiro, é a possibilidade que elas influenciem as campanhas eleitorais de 2018.  Esta não seria a primeira vez. Em 2017, nas últimas eleições presidenciais da França, a campanha do presidente Emmanuel Macron foi alvo de um ciberataque que culminou com a propagação de arquivos supostamente falsos e utilizados por grupos contrários à proposta de governo do então candidato. Nos Estados Unido, o Congresso Nacional investiga se fake news publicadas por russos interferiram no resultado das eleições presidenciais em 2016, que consagraram a vitória do atual presidente Donald Trump.

No Brasil, desde o início de 2018, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) têm se mostrado preocupados com a questão da disseminação das notícias falsas, sobretudo considerando o período eleitoral. No entanto, nenhuma decisão foi tomada quanto ao tema, e mesmo algumas manifestações por parte dos ministros têm sido tratadas como censura e autoritarismo.

A Nuntiare conversou por email com o cientista político Fábio Góiris para entender um pouco mais sobre o efeito das fake news, especialmente durante a corrida eleitoral que inicia.

 

Nuntiare: Quais as consequências da divulgação de notícias falsas, sobretudo durante o período eleitoral?

Fábio: Muitas pessoas acham que colocando um nome em inglês fake news (notícias falsas) está se inventando um novo fenômeno da comunicação de massa. Mas, na realidade desde os tempos dos gregos existem as notícias falsas, bem como as fofocas, calúnias e difamações. Mais recentemente, utilizava-se o termo ‘factóide’ para expressar as notícias falsas. No mundo pós-moderno, passou-se a utilizar a expressão ‘pós-verdade’, um neologismo que em vez de antepor a verdade das coisas nas notícias apela em forma manipuladora para as emoções e as crenças. As consequências das notícias falsas podem ser aterradoras para as pessoas, especialmente em forma pessoal e individual. Afinal, como desmentir uma notícia falsa uma vez divulgada em forma massiva? Já em períodos eleitorais podem ter a capacidade de mudar a opinião das pessoas, especialmente daquelas imersas no mundo da alienação. Num país despolitizado e ideologicamente subsumido no universo do autoritarismo e do patrimonialismo, as fake news agem na área da emoção e da tendência ao conservadorismo, especialmente de uma classe média que se vangloria de defender a democracia e, acaba por colocar, num período pós-golpe, um Michel Temer como presidente da República.


Nuntiare: A relação entre o jornalismo e a democracia encontra-se fragilizada com o aumento das fake news ou o papel do jornalista se torna mais relevante diante delas?
Fábio: É difícil dizer se o jornalismo tem grande participação no surgimento das fake news. Muitas vezes [o jornalismo] está completamente alheio às manipulações de grandes empresas e organismos transnacionais. Estas sim podem ser a verdadeira origem de muitas fake news. Não foi o jornalismo que inventou a falsa notícia de que o Papa Francisco estaria apoiando a então candidatura de Donald Trump. Existem pesquisas permanentes sobre técnicas de análise de dados pessoais, construção de narrativas e etc. Obviamente que o jornalismo – e o jornalista – trabalha também para desmentir as falsas notícias, o que aumenta o seu grau de responsabilidade com a democracia dos povos. O jornalista precisa estar atento para notícias tradicionais ou sites na internet que podem ser falsos. Deve estar informado sobre a credibilidade dos autores das notícias. Não se descarta também que grande parte das fake news surge a partir do jornalismo.

Nuntiare: A internet, o principal meio para a circulação de notícias falsas, também é uma importante ferramenta política. Qual deve ser a postura daqueles que controlam a máquina pública frente às manifestações da rede?

Fábio: A internet é realmente um fenômeno. Trouxe enormes e inimagináveis avanços culturais e educacionais. Quanta gente tem curso superior hoje em dia que jamais obteriam sem este meio. Mas, em compensação, o acesso irrestrito à internet criou um modus vivendi complexo, desrespeitoso e eivado de fake news. Este quadro levou o escritor e filósofo italiano Umberto Eco a afirmar que as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Isto significa que a ética sempre deveria prevalecer em qualquer tipo de relação humana. Mais do que nunca, deveria estar em voga a célebre tese de [Immanuel] Kant denominada de imperativo categórico.

 

Para Kant, imperativo categórico é uma decisão moral pautada pela razão e não por nossas inclinações, já que encerra o fim em si mesmo, é categórico porque diz "não faça x" e nunca "não faça x se teu fim é F".

Nuntiare: Os países que recentemente tiveram o impacto das fake news eram países de primeiro mundo. No Brasil, o impacto da divulgação de notícias falsas seria maior?
Fábio: Em qualquer país uma notícia falsa pode causar estragos morais, éticos, econômicos, políticos, etc. Quase custou a candidatura de Barack Obama a fake news de que ele nasceu em outro país. No Brasil, Lula e o PT, até hoje tentam desmentir as fake news de que no seu governo os sem-terra e o sem teto vão entrar à força nas casas e nas propriedades das pessoas; mas, paradoxalmente, foram nesses governos populares que surgiu o Programa Minha Casa Minha Vida.

Nuntiare: As medidas para controlar as fake news no Brasil esbarram em termos como censura e autoritarismo. Qual a sua opinião sobre isso?

Fábio: Este é um tema extremamente amplo e o seu estudo tem várias tendências e correntes. Mas a denominada Regulação da Mídia, por exemplo, ainda é uma ilusão em seu sentido mais completo e democrático, visto que não existe um texto regulatório. Cogita-se um marco legal único. Por enquanto, as fake news são punidas com processos judiciais. Eis um exemplo: “Em junho deste ano a Band Bahia foi condenada a pagar R$ 60 mil por dano moral coletivo por violação de direitos humanos na transmissão do programa “Brasil Urgente Bahia”.

Na reportagem, exibida em 2012, a repórter Mirella Cunha ironizou de forma vexatória Paulo Sérgio Souza, preso acusado de estupro, durante o exame de corpo delito. A ação civil pública foi proposta pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público da Bahia. Segundo o magistrado, “o direito de informação não é absoluto, vedando-se a divulgação de notícias falaciosas, que exponham indevidamente a intimidade ou acarretem danos à honra e à imagem dos indivíduos”.

Nuntiare: Como e quem deve combater as fake news?
Fábio: Todos os cidadãos do mundo devem combater as fake news. É uma luta universal contra a mentira e as manipulações discursivas. Mas, provavelmente, a melhor forma de combater é aumentando a cultura das pessoas, especialmente a cultura política. O jornalismo obviamente tem um papel fundamental nesse combate. A sociedade, como já foi expressa, sofre o problema da alienação. [Karl] Marx já afirmava que alienação envolve conceitos como a coisificação e reificação do mundo e seus princípios são seguidos em forma passiva e acrítica. Isto facilita a consolidação de fenômenos negativos como as fake news.

Uma segunda opinião

No dia 22 de março, a convite do Programa de Pós-graduação Mestrado em Jornalismo da UEPG, o doutor em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Luis Felipe Miguel debateu sobre a conjuntura política do país na palestra ‘O golpe de 2016 e o futuro da democracia’.

O foco da conversa com professores, estudantes e comunidade foram os principais conflitos e impassem que atravessam o sistema político brasileiro e o apontamento de perspectivas para o futuro. Nesse sentido, convidamos o professor para produzir uma análise sobre a situação política brasileira e a relação com as fake news. Confira o artigo especial produzido por Luis Felipe Miguel para a Nuntiare:

“Não há nada de novo no uso de informações falsas na disputa política, sobretudo em período eleitoral. Boatos, panfletos anônimos, falso material de campanha, isso sempre foi amplamente usado. Então, porque agora a questão parece ter se tornado tão urgente? Creio que há dois motivos.

O primeiro é que as técnicas de targeting (definição precisa do grupo a ser atingido), proporcionadas pelo processamento de grandes volumes de dados dos usuários (big data), ampliam a eficácia potencial do discurso manipulativo. Isso vale tanto para as chamadas fake news quanto para outro tipo de manipulação da audiência, que é a publicidade comercial. Assim, há um agravamento real do quadro de vulnerabilidade da audiência à manipulação conduzida pelos controladores do poder econômico.

O outro motivo é o uso interessado que o jornalismo comercial faz do fantasma das fake news para valorizar seu desacreditado produto. Constrói-se um discurso pelo qual as fake news são o oposto da “verdade” que o jornalismo comercial apresentaria. Com isso, recuamos décadas na crítica aos vieses do jornalismo comercial, à sua falta de pluralidade, ao caráter enganador de sua pretensa “imparcialidade”.  Na verdade, como o caso brasileiro mostra bem, fake news e jornalismo corporativo fazem uma “tabelinha”. A visão enviesada da realidade propagada pelo jornalismo é a base para as fake news: por exemplo, só é possível dar curso às mentiras sobre a “fortuna” do ex-presidente Lula ou de seus filhos porque a imprensa pretensamente séria passou anos propagando que ele seria corrupto, sem se preocupar com provas e sem dar espaço para a contradição.

O Movimento Brasil Livre (MBL) divulgou informações difamatórias contra a memória de Marielle Franco, vereadora assassinada no mês de março, se escorando numa nota da Folha de S. Paulo que abria brecha para isso. E assim por diante. Mas, mais importante: o jornalismo corporativo constrói representações manipuladas da realidade, em favor de certos grupos e contra outros, com efeitos muito duradouros. São representações privatistas, individualistas, pró-capitalistas, que criminalizam movimentos sociais. A ideologia disseminada pelo jornalismo é fake news no atacado, condição necessária para que outros instalem seu varejo.

Creio que o caminho para enfrentar as informações falsas não é fortalecer acriticamente o jornalismo corporativo. Passa por várias medidas: (a) ampliação da pluralidade de grupos com acesso à produção da informação, financiando mídias alternativas que apresentem visões de mundo diversas; (b) criação de um forte setor público de jornalismo, independente do governo e do mercado, que garanta um espaço para que os valores profissionais do jornalismo se realizem; (c) educação política popular, gerando um público mais crítico e (d) forte proteção estatal à privacidade dos dados pessoais, para impedir o uso das técnicas de big data, seja por políticos, seja por empresas comerciais.” – Luis Felipe Miguel, Universidade de Brasília (UnB)

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