A relação entre Fake News, redes sociais e jornalismo

Espalhar boatos e compartilhar informações falsas ou imprecisas não são ações que nasceram com a internet. No entanto, as redes ampliaram a difusão e propagação dessas informações. Com o aumento das publicidades e lucros em torno das notícias falsas, as redes passaram a ser a base para a disseminação das fake news. O termo se refere à distribuição deliberada de desinformação ou boato, as chamadas notícias falsas, escritas e publicadas em tom sensacionalista com a intenção de enganar ou obter ganhos financeiros ou políticos.

Para o doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda do Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), no Rio de Janeiro, Rogério Martins de Souza, o jornalismo sempre conviveu com notícias falsas e de diferentes tipos, entretanto, com o advento da internet, a proliferação desse tipo de informação aumentou. “Boatos publicados sem apuração, notícias pagas para favorecer alguém, informações inventadas em veículos sensacionalistas, tudo isso não vem de hoje e é algo com que a imprensa sempre buscou lidar. No entanto, com a internet, a proliferação das notícias falsas aumentou exponencialmente, um fenômeno que pondo em risco a própria profissão de jornalista, que vê agora, em plena era digital, sua credibilidade novamente em jogo”, afirma Rogério, em seu artigo “Investigando as fake news: análise das as agências fiscalizadoras de notícias falsas no Brasil”.

As redes sociais se tornaram um espaço ideal para a propagação das fake news. Através,principalmente, do Facebook, as notícias falsas encontram combustível para influenciar ideias e pessoas.

O Departamento de Justiça norte - americano acusou, em janeiro deste ano, três agências russas de influenciarem as eleições estadunidenses de 2016, com a propagação de fake news em redes sociais a favor da campanha de Donald Trump e em contrário a de Hillary Clinton. No Brasil, após o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), em 14 de março de 2018, uma onda de notícias falsas invadiu as redes sociais. Em pesquisa realizada pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), identificou-se que a repercussão da morte da vereadora motivou 2,14 milhões de menções no Twitter, em quatro dias. O acontecimento gerou notícias falsas sobre a história de Marielle e, na sequência, surgiram comentários desmentindo as fake news.

O doutor em Direito Civil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Sérgio Branco, em sua pesquisa “Fake News e os caminhos para Fora da Bolha”, afirma que as notícias falsas vão para além do fato de criar empatia com o usuário: “Muitas pessoas compartilham boatos por curiosidade, espanto ou cautela. Foi assim que surgiu uma das maiores fake news de 2016,segundo a qual o Papa Francisco daria apoio à candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Claro, um despautério. Mas, ainda assim, muita gente compartilhou”,
afirma Sérgio.

Combater as fake news: depende de você

O combate as fake news precisa começar com a checagem das informações. De acordo com a pesquisadora em Comunicação Digital, Pollyana Ferrari, a checagem depende de cada pessoa ao receber informações nas redes sociais: “É preciso que todos nós nos transformemos em autochecadores. Não importa se é o grupo de WhatsApp da família, uma postagem no Facebook ou notícia na grande mídia. Antes de dar like ou compartilhar o que recebeu, precisa checar. É o único jeito de combatê-las. São as checagens que darão conta de tanta mentira”, garante.

Diversas ferramentas e aplicativos para download em dispositivos móveis foram criados e são úteis para a checagem das informações. Pollyana traz o exemplo do site de pesquisas Wikipédia, que realiza em alguns verbetes falsos o fact-checking.

Além disso, outras ferramentas e sites permitem analisar montagens em fotos e vídeos. Pollyana reforça a importância em confirmar as informações antes de reproduzir, ainda mais em uma sociedade em que “o desejo, a convicção e o boato falam mais alto, porque estimulam mais o cérebro do que os fatos reais, que geralmente são chatos. A sociedade compartilha mais desejos do que fatos”, afirma.

Na pesquisa “Fake news e Internet: esquemas, bots e a disputa pela atenção”, o pesquisador Gabriel Itagiba apresenta um exemplo hipotético sobre como funciona as redes e a relação entre fake news e política. “Imagine o seguinte cenário: o usuário X é contra o partido Y, que está na presidência do País. Diariamente, X expressa sua opinião usando hashtags como #foraY ou #vazaY. Diversos robôs controlando perfis falsos são programados para varrer as redes sociais em busca de usuários que utilizam as hashtags mencionadas. Após a identificação, bots executam o resto da programação, enviando mensagens falsas sobre o partido Y para o usuário. O usuário então passa a compartilhar essas informações com os amigos”.
Gabriel afirma, na pesquisa, que uma medida importante no combate às fake news diz respeito às plataformas em rede e às redes sociais, que deveriam rever as políticas de privacidade e a utilização de bots para propagar notícias falsas, trabalhando para reprimir essas prática.

"Bot é um programa de computador criado para
gerar mensagens repetitivas em ordem, com o
intuito de ajudar as pessoas".

Ciberacontecimento: uma nova forma de informação

O conceito de ciberacontecimento proposto em novas pesquisas está relacionado com produções de acontecimentos jornalísticos nas redes sociais, ou seja, acontecimentos criados e narrados exclusivamente nas redes e que, se transformam em pautas jornalísticas. Criados no meio digital, os ciberacontecimentos não acontecem sozinhos, como afirma o doutor em Comunicação Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisador do tema, Ronaldo Henn.

“O ciberacontecimento depende da participação das pessoas, pois são desenvolvidos nos sites de redes sociais e para se constituírem ou se propagarem é necessária a participação de atores sociais”, afirma Ronaldo. De acordo com o pesquisador, a partir do momento que isso acontece, os atores sociais passam a ser agentes dos ciberacontecimento. Aqui,considera-se também a presença de agentes não humanos, como os algoritmos e robôs, que têm forte influência no fenômeno.

Outro apontamento sobre o ciberacontecimento é que o mesmo vem tomando a centralidade que o jornalismo tinha até pouco tempo atrás: de ser o narrador dos acontecimentos.

Para o pesquisador, no momento atual atingimos um nível de desordem informacional ou colapso informacional e as fake news problematizam os ciberacontecimentos, na medida em que instalam uma ideia de desconfiança e de manipulação generalizada, o que afeta não só o jornalismo, mas todo o sistema de produção e circulação de informações.

"Algoritmo: é uma sequência de
procedimentos lógicos que
definidos pertencem à
execução de uma tarefa".

Mudanças na legislação?

A proposta do Projeto de Lei do Senado 473/2017, para tipificar o crime de divulgação de notícia falsa, prevê detenção de seis meses a dois anos, além de multa para quem divulgar notícia que sabe ser falsa e que possa distorcer, alterar ou corromper a verdade sobre informações relacionadas à saúde, segurança pública, economia nacional, processo eleitoral ou que afetem o interesse público.

O projeto está na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e aguarda a definição de um relator que dê encaminhamento ao tema. Em ano eleitoral no Brasil, as fakes news tendem a se propagar e a se difundir, principalmente com a proximidade do período eleitoral, como aconteceu nas eleições estadunidenses em 2016.

Reportagem:

Scarlet Cristine Rodrigues

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