O Brasil é o quarto país que mais produz leite no mundo, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de 2017. É um mercado que cresce, tanto no consumo e quanto na produção. Cada brasileiro toma em média 170 litros de leite por ano, abaixo do recomendado pela ONU. Nas recomendações para o consumo de leite, como o da Organização Mundial da Saúde, recomenda, por pessoa, 200 litros ao ano. Apesar disso, a produção de leite é alta. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que o crescimento no Brasil em 2018 seja de 1,8%.

É possível encontrar produção leiteira para comércio em todas regiões do país. O Paraná é o terceiro estado que mais produz leite, segundo dados do IBGE de 2017. As cooperativas Frísia, Castrolanda e Capal, da região dos Campos Gerais, formam a quinta maior produção de laticínios do Brasil, segundo dados do Embrapa.

Junto com o aumento do mercado do leite e seus derivados, está também o das tecnologias de reprodução animal, que cresce conforme a demanda de melhoramento de raças para produções específicas, como leite e corte. A região dos Campos Gerais possui um campo especializado em produção de sêmen e reprodução animal, através do comércio de sêmen pelas empresas Alta Brasil, Lagoa da Serra, CRI Genética e ABS Pecplan. O mercado de laticínios busca o incentivo de fertilização de animais específicos para cada padrão de consumo: para o leite são prioridades as vacas de raça - como as vacas holandesas, que geram grande produção - e para a carne de corte, os bois de alto porte e ganho de massa corporal, como a raça Purunã sobre a qual a reportagem explicará mais à frente.

Biotecnologias empregadas para a reprodução na bovinocultura de leite

Cada tipo de técnica de reprodução animal possui suas vantagens, desvantagens e custos. São os casos da monta natural, monta natural controlada, inseminação artificial e fertilização in vitro. As professoras do curso de Zootecnia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Luciana Leal e Verônica Vianna afirmam que a reprodução animal tem técnicas a campo para aumento reprodutivo do animal, sempre pensando na saúde do animal.

A Fertilização In Vitro é realizada através do congelamento de sêmens armazenados em botijões com nitrogênio a -196° C de temperatura.
A Fertilização In Vitro é realizada através do congelamento de sêmens armazenados em botijões com nitrogênio a -196° C de temperatura.

Deve-se usar sempre animais do mesmo porte, raças semelhantes e sêmens compatíveis, para que não haja problemas durante o parto.

Segundo Leal, quem faz a inseminação a campo são os próprios funcionários da fazenda, que são treinados e recebem um curso de uma semana para realizar a técnica na propriedade. São importantes, durante o processo, os cuidados com higiene da fêmea, manipulação do botijão de nitrogênio líquido e do sêmen congelado.

Outra técnica utilizada é a da fertilização in vitro (FIV), realizada somente em laboratórios. A Cescage Genética, laboratório de Ponta Grossa, realiza esse tipo de serviço na região.

A instituição faz parcerias com pequenos e grandes produtores, com o objetivo de pegar as melhores raças doadoras de embriões para melhorar a genética dos rebanhos. Nesse processo, é necessário ter vacas receptoras que devem funcionar como barrigas de aluguel desses embriões, podendo ser de uma raça considerada mais inferior. “Coletamos o óvulo, é feita a maturação no laboratório e no outro dia a fertilização com o touro que o produtor quiser”, explica a técnica em laboratório da Cescage, Pamela Vieira da Rosa.

Na produção de leite, o comum é realizar a Fertilização in vitro (FIV) em vacas de raça holandesa e jersey. Pamela explica que na produção leiteira há uma dificuldade maior na parte de reprodução, porque a vaca produz muito leite e não sobra tanta energia para a
reprodução da raça. As técnicas da FIV possuem um custo superior em relação às demais, contudo, é a mais indicado para aqueles que não querem desgastar suas vacas.

"A inseminação artificial dá um bezerro/vaca por ano, com a superovulação e transferência de embriões, essa vaca consegue dar um bezerro ao mês, já com a técnica da FIV, essa doadora passa a dar um bezerro/vaca por semana.”

Por isso, a biotecnologia é usada em sua maioria por grandes produtores que possuem condições financeiras para o melhoramento da genética de seu rebanho. “Não há nada negativo na FIV, o intuito é aumentar a produção, uma maneira inteligente do produtor melhorar a genética do seu rebanho pegando o melhor de cada espécie e reproduzir dentro de suas propriedades”, ressalta Pamela.

Em média, a vaca holandesa produz de 7 a 10 óvulos, com cerca de 3 embriões que podem ser fertilizado a cada 15 dias. Na Cescage Genética é feito também o congelamento desses embriões, permitindo que o produtor os implante em suas vacas receptoras quando as tiverem disponíveis. A FIV nas holandesas tem uma taxa de reprodução de 20%, o que significa que de 100 óvulos, 20 embriões são efetivamente produzidos.

A doutora em Genética e professora do Cescage, Fernanda Prado Elias, explica que todas as biotecnologias são importantes, porque cada
propriedade se adapta àquela biotecnologia de reprodução, sendo favorável para o rebanho e para as condições financeiras. As biotecnologias passaram por uma evolução em suas técnicas com o passar dos anos. “A inseminação artificial gera um bezerro/vaca por ano, com a superovulação e transferência de embriões, essa vaca consegue dar um bezerro ao mês, já com a técnica da FIV, essa doadora passa a dar um bezerro/vaca por semana. Já a clonagem é atualmente considerada uma das técnicas mais avançadas que conseguem criar uma
cópia da melhor genética que o produtor tem no seu rebanho”, explica Prado.

Produção leiteira chega a 3,6 milhões de litros por dia

Em Ponta Grossa, a produção de leite é feita principalmente a partir das cooperativas Frísia e Castrolanda. O gerente comercial de operações lácteas da Castrolanda, Egídio Maffei, afirma que são cerca de 1.400 produtores (grandes e pequenos) associados à empresa.
Atualmente as unidades da Frísia de Castro, Itapetininga da Castrolanda e de Ponta Grossa processam 3,6 milhões de litros de leite/dia.

“São produzidos leites longa vida (UHT) – marcas próprias e de terceiros; leite condensado, creme de leite, achocolatados e bebidas sabor morango. No setor de lácteos, as cooperativas Frísia, Castrolanda e Capal, atuam juntas num modelo de intercooperação recentemente denominado Unium. As marcas de lácteos da Unium são: Colônia Holandesa, Naturalle e Colaso”, explica Maffei.

Produtora de leite há 24 anos e vinculada a Cooperativa Frísia, Jussara Bittencurt, afirma que a produção de leite é intensa e exigente, mas é uma indústria garantida, os valores podem oscilar, mas sempre vai existir um mercado para o consumo, sendo essa a vantagem da produção leiteira. Existe um processo de fiscalização do leite, desde o momento do ordenhamento até a sua chegada na indústria. Jussara também afirma que na região de Ponta Grossa há limitações para o produtor, como a linha de transmissão de energia, que não cresceu em todas as regiões e não supre a demanda das fazendas. O produtor fica refém de tecnologias que não exigem uma energia excessiva. Também há uma limitação na infraestrutura das estradas, que ainda são de terra e complicam o transporte feito por caminhões. “Nós ampliamos a produção e chegamos ao limite, não tem mais pra onde crescer, tudo que a gente fizer para crescer vai ser prejuízo porque não temos infraestrutura, a energia não corresponde à demanda e não tem condição de ser expandida a nossa produção”, explica Jussara.

A relação dos produtores é estabelecida pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ponta Grossa. Segundo o Presidente do Sindicato, Gustavo Ribas, a pecuária de leite é uma das grandes opções para o pequeno proprietário, principalmente pelo fato de sempre gerar
receita. “O sindicato tem função política, faz a ponte entre a necessidade e o governo para conseguir políticas públicas que incentivam a formação do produtor”, afirma o presidente. Os produtores também precisam seguir leis antes de começar a produção e a legislação atua principalmente na proteção ambiental de reservas. Além disso, existe o licenciamento ambiental, a Lei de Sanidade Animal e o Guia de Transporte Animal (GTA).

A gênese da raça Purunã

Desenvolvido pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), a raça Purunã existe no mercado oficialmente há um ano. A espécie de bovino de corte resulta do cruzamento de outras quatro grandes raças: Caracu, Charolês, Canchin e Aberdeen Angus. Única raça produzida por um instituição pública no país, a Purunã absorve as melhores características de cada raça cruzada.Desde a década de 1980, o Iapar trabalha com estudos para o desenvolvimento da espécie. Foram quase 15 anos de testes e análises de resultados para a criação efetiva da raça.

O bovino de corte já é criado por todo o estado, em cidades como General Carneiro, Astorga, Maringá e Ponta Grossa, além de fazendas do estado de Minas Gerais.

“A ideia é unir os pontos positivos de cada raça, como o rendimento de carcaça, a velocidade de ganho peso e produção de carne em volume do Charolês. Já do Caracu, pegamos rusticidade, habilidade materna e capacidade de adaptação a diversas condições climáticas. A raça do Angus confere ao Purunã mais precocidade, tamanho adulto moderado e alta qualidade de carne. Já o Canchim agrega produção e adaptabilidade”, explica o zootecnista e pesquisador do Iapar, José Luís Moletta.

A Purunã é criado em parceria com a Cescage Genética, que produz semêns e embriões da raça a partir da fertilização in vitro. A ideia é multiplicar e fazer crescer a espécie, por isso o Iapar produz a genética e a Associação de Criadores do Bovino Purunã (ACP) é quem cria a raça para comercialização. Moletta ressalta que o Instituto tem a função de desenvolver tecnologias e pesquisas para melhorar o setor produtivo e contribuir com a pecuária. “Nós não temos volume para atender a demanda da
pecuário, nossa produção é pequena, temos poucos reprodutores (bois) e matrizes (vacas), por isso, o ideal é incentivarmos a compra de
embriões do Purunã”, afirma.

O Instituto cria projetos e tecnologias para aumentar a produtividade em todo Paraná. No caso da bovinocultura de leite, há uma proposta para inseminar as vacas leiteiras com embriões da raça Purunã, para potencial de carne.Moletta explica o início de uma pesquisa em que há uma deficiência em torno de 500 mil terneiros (bezerros) para produzir carne.

“Nossa proposta é que as vacas produzam leite normalmente e o terneiro produto dessas vacas tenham potencial de gado de corte da raça Purunã. O objetivo é unir as forças do gado de leite para produzir machos de corte e ainda acabar com o descarte dos bezerros”, completa o zootecnista.

Dentro dos processos de reprodução da bovinocultura de leite, é somente viável que as vacas gerem fêmeas leiteiras e não machos leiteiros (bezerros), pois esses são inutilizáveis - não servem para reprodução e nem para gado de corte. Por não serem compatíveis
com as necessidades do mercado leiteiro ou de corte, os bezerros machos que resultam desses processos de inseminação, tornam-
se um problema para os produtores, uma vez que podem ser foco de doenças ou da criação irregular nas propriedades. A Iapar é inseminar as vacas leiteiras com embriões de gado de corte, para diminuir o descarte desses bezerros e aumente a produção na bovinocultura de corte do Purunã.

Destino dos bezerros

Uma das grandes polêmicas ainda não resolvidas que envolve a bovinocultura de leite, é o destino dos bezerros. Esse animais não servem nem para produção de leite e nem para a bovinocultura de corte, por isso, são descartados na primeira semana de vida. A produtora de
leite, Jussara Bittencourt conta que os bezerros não valem nada e ainda são um problema na produção de leite. “Antigamente havia um centro de recepção de bezerros, mas agora ninguém mais quer. O bezerro não consegue desenvolver carne, a fêmea tem utilidade mas o
macho não”, completa. Técnicas realizadas pelo Cescage Genética sugerem o uso de sêmens sexados para evitar a reprodução de bezerros, fazendo com que as vacas reproduzam apenas fêmeas. A técnica pode ser feita tanto na inseminação como na fertilização em vitro, mas ainda possui um custo alto dificultando o acesso dos pequenos e médios produtores.

Quando os bezerros não seguem para o abate, são criados em propriedades irregulares que podem servir como ambiente de proliferação de doenças. O produtor poderia notificar a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (ADAPAR) sobre o nascimento de todo animal que ocorre na fazenda, mas isso nem sempre acontece principalmente quando se trata dos bezerros.

Para o fiscal da Defesa Agropecuária, Pascoal Funari quando o produtor envia esses bezerros para tais propriedades, ele está fomentando uma propriedade irregular e um possível foco de doença que pode interferir na sua fazenda futuramente. O ideal é que esses bezerros tenham GTA e cadastro no ADAPAR, para facilitar o controle da Agência. Os bezerros podem ser criados nessas fazendas, mas devem seguir as normas sanitárias igual os outros produtores. “A propriedade irregular provavelmente não vacina os animais, o manejo sanitário não deve ser o dos melhores e esse caminhão que transporta esses animais é um veículo de proliferação da doenças”, ressalta Funari.

O ADAPAR na maioria das vezes nem sabe que existe essas propriedades, já que a Agência prioriza fiscalizar as propriedades cadastradas. Como um órgão fiscalizador, o ADAPAR não consegue controlar todas as doenças, mas no caso dos bovinos o foco são as doenças de febre aftosa, brucelose e tuberculose. O produtor precisa ter uma comprovação mínima da vacinação dessas doenças. Quando o produtor não entrega essa documentação, os fiscalizadores vão até as fazendas e podem autuar esses proprietários. Todo produtor que entrega leite para um laticínio tem que apresentar para a própria empresa um exame de brucelose, tuberculose e das vacinações anuais de seus rebanhos.

Com frequência acontece de haver animais positivos para as doenças de tuberculose e brucelose positiva, daí que entra a autuação da ADAPAR que manda esses animais para o abate sanitário. Esses animais são marcados no rosto para evitar que tomem outro destino, a não ser o abate sanitário. O Guia de Trânsito Animal (GTA) é um documento oficial para trânsito de animais que prevê regras para o transporte de bovinos.

Todo o animal de reprodução para ter a GTA precisa ter o exame negativo das doenças de brucelose e febre aftosa e um o histórico das vacinas do animal. “As principais doenças que temos no rebanho são carregadas pelos próprios animais, quando os produtores compram uma vaca do vizinho, daquela fazenda mais próxima, sem se preocupar com o GTA desse animal. Além disso, o caminhão do leite e o trânsito de pessoas pode ser um veículo de doenças para as propriedades”, relata Funari. O ideal é que o caminhão de tanque não entre nas áreas que os caminhões percorrem e que também os veterinários tomem cuidado ao circular pelas

Autores: Ana Luísa Vaghetti e Jaqueline Andriolli
Fotos: Ana Luísa Vaghetti e Mirna Bazzi
Infográficos: Ana Luísa Vaghetti, Danielle Farias e Gabrieli Oliveira

One thought on “Melhoramento genético e reprodução: a busca pela vaca perfeita”

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