Revista Nuntiare

“A verdade, como conceito absoluto e incondicional, não existe”

Filósofo em Ponta Grossa – cidade que possui apenas um curso de graduação na área – Ricardo Grokorriski obteve esse título no Centro Universitário Assunção (UNIFAI) e coleciona especializações em Filosofia, além do mestrado Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Com 36 anos bem vividos, como ele mesmo brinca, Grokorriski relata que foi o acaso que o levou a estudar Filosofia: “Na minha adolescência eu era muito ligado à Igreja, fui para o seminário e no seminário eu fui conhecendo a Filosofia”. No entanto, foi apenas depois de começar a estudar que o professor passou a nutrir paixão pela área. A identificação com o campo veio ainda mais tarde, após a graduação, inspirada pelo pensamento de Deleuze. “A grande obra de Deleuze é o Anti-Édipo, que tenta quebrar as estruturas do pensamento moderno com a ideia de que Édipo nos dominou com os tabus e crenças criados socialmente”.

Atualmente, é professor nos colégios estaduais Regente Feijó e Professora Elzira Correia de Sá e coordenador do curso de Licenciatura em Filosofia das Faculdades Sant’Ana, mas não para por aí: “faço palestras, e agora me “meti” no Youtube também“, afirma o professor que há cerca de seis meses criou o canal Grokorriscando.

 

A verdade por Ricardo Grokorriski

“A gente tem um conceito rígido de verdade como correspondência da coisa ao conceito, essa é a primeira noção que a gente opera na filosofia como verdade. Platão tem um conceito chamado o Mito de Er, em que a alma ia pro céu, ou pro mundo das almas, e, quando voltava, tinha que atravessar a planície do rio Leté. As pessoas que bebiam muita água esqueciam o que tinha no mundo das almas, e, voltando à Terra, já não sabiam o que tinha lá. Então, o objetivo do ser humano é fazer o processo contrário: Aleté, negar o esquecimento, porque Leté é esquecer. Uma das traduções possíveis de Aleteia para o português é verdade. Então, a verdade seria aquilo que já está no campo metafísico, da idealidade, aquilo que já é, e o ser humano só vai buscar a correspondência a isso”.

Contudo, a Filosofia Contemporânea é mais cética quanto ao conceito de verdade. “Filosoficamente a gente chega numa ideia de que a verdade, como conceito absoluto e incondicional, não existe. O que existem são construções que mais ou menos a gente aceita, mas, de fato, a verdade não existe, os fatos que aconteceram jamais poderão ser alcançados”, afirma.

 

Outra ideia de verdade para Grokorriski é como justificação objetiva de elementos fenomênicos trabalhados pela ciência, como a lógica. Dessa forma, a verdade irá se comportar de forma diferente, dependendo da potência do pensamento que é empregada: “Nas narrativas da história, da filosofia, das Ciências Humanas em geral, a verdade sofre relativizações. No campo da Ciência, ela pode ser objetivada; no campo da Religiosidade, opera como um dogma. Se operar no campo das Artes, você vai dizer: ‘O que é verdade na arte? É o belo ou a construção?’ e aí que entram as verdades subjetivas, como cada um constrói o seu universo”.

 

“Tô pensando... Por que estamos aqui? Por que as pessoas são tão importantes para nós? o que os outros esperam de mim? o que espero dos outros? Como gastaremos nossas vidas? Tento aqui falar das coisas da vida e encontrar o que nos faz humanos, demasiado humanos!” (biografia do canal do professor Ricardo Grokorriski no youtube, Grokorriscando)

Grokorriski afirma que a partir de leituras como Nietzsche e Schopenhauer, passou a adotar o posicionamento dos filósofos contemporâneos sobre a intangibilidade da verdade: “[a conclusão] que eu chego é que o que existem são verdades e que essas verdades são às vezes subjetivas, às vezes produtos das narrativas coletivas, e elas são transitórias nesse sentido. A verdade de um sujeito se altera conforme ele se posiciona diante do mundo e conforme o mundo opera sobre ele, as coletividades também se alteram em suas verdades. Eu gosto mais da ideia de que a verdade é algo fluido, que não é tão estabelecido de forma rígida, como na Filosofia Clássica ou Medieval, no pensamento religioso ou mesmo no pensamento científico”. De acordo com o professor, mesmo a ciência experimenta essa fluidez da verdade pois, enquanto uma teoria científica é válida num determinado modelo de explicação do real, ela assume que não é absoluta, que não dará conta de estabelecer a verdade definitiva.

Para Grokorriski, o conceito de pós-verdade parte também da Filosofia Contemporânea, que surgiu ao final da Idade Moderna. “É quando esses sistemas de manutenção da verdade dizem assim ‘Olha, o que é verdade? A verdade não existe’. Acho que dá um looping na cabeça quando a gente pensa que a pós verdade é uma verdade. Não sei, às vezes fico meio desconfiado desses raciocínios que são paradoxais”. A diferença entre verdade e pós verdade, no entanto, está no modelo de raciocínio: “A verdade clássica seria essa adequação do intelecto à coisa, o que tá no intelecto se adequa à essa coisa e há uma correspondência entre àquilo que está na minha mente e àquilo que é. Esse é o conceito de verdade. Já a pós-verdade é a nítida dimensão de que essa correspondência não existe”.

 

Verdade versus Fake News

Também conversamos sobre as novas mídias, tecnologias e fake news, que atravessam o conceito de verdade de muitas formas. “Acho interessante esse nome [fake news]. Mistura um pouco do jornal, da novidade, do falso, mas isso sempre esteve nas nossas relações sociais. Eu lembro de um professor que contava a história de um ladrão que virava as ferraduras do seu cavalo para confundir as pessoas, para que na investigação não se soubesse pra onde ele estava indo. Os boatos sempre existiram, acontece que isso é potencializado por meios eletrônicos.”

Sobre o sucesso e a facilidade com que as fake news conseguem influenciar as pessoas, Grokorriski relata: “Penso que o ser humano, não só na nossa sociedade, é receptível a toda e qualquer narrativa. A dúvida é uma coisa importante, pois faz com que você não aceite qualquer narrativa como verdadeira de primeira e eu acho que a Filosofia faz com que as pessoas operem bastante com a dúvida. De modo geral, eu acho que as pessoas tem preguiça de ter dúvida – posso estar sendo preconceituoso –, mas pela experiência que tenho com os alunos e grupos, me parece que as pessoas tem essa preguiça, afinal ela é cansativa e incômoda. Ao ter preguiça de ter dúvida, o caminho mais fácil é aceitar a narrativa do outro”. Grokorriski relembra que a literatura ilustra essa relação com a dúvida quando opera com a dimensão do suspense, incomodando o ser humano. Contudo, não se trata de considerar a sociedade influenciável. “Penso isso sem um olhar condenatório, é a condição que criamos da própria sociedade”.

Quanto às impressões dos alunos sobre o conceito de verdade e o papel da Filosofia na educação, o Grokorriski revela uma dificuldade: “Eu tenho percebido que os alunos trazem de suas casas um discurso pronto, sobretudo proveniente das suas vivências religiosas nas suas igrejas - e eu diria que especificamente nas igrejas cristãs -, e essas verdades são tomadas como verdades absolutas. Meu o objetivo não é, em nenhum momento, desqualificar a religiosidade de ninguém, mas proporcionar que o seu pensamento se potencialize e que o aluno questione as práticas cotidianas sua vida”. Grokorriski acredita que o papel da Filosofia na escola é duplo. Primeiro, deve “destruir”, invadir as pessaos de uma forma um tanto violenta. “Óbvio que não pode destruir ao ponto que a pessoa fique desolada, é preciso que opere com prudência,” explica. E, segundo, a Filosofia irá colocar na mão do aluno instrumentos para que ele reconstrua aquilo que ele destruiu durante o processo inicial. “O papel da educação é fundamental para que se opere com a destruição de determinados conceitos e a geração de novos conceitos, sobre absolutamente tudo – mundo, vida, amores, família, política, relações sociais etc”.

 

Implicações éticas das fake news

Por fim, Grokorriski destaca três dimensões sobre as quais o debate ético incide sobre as fake news. O primeiro é a criação de uma dualidade entre a imprensa pura e os meios artesanais de produzir jornalismo. “A imprensa qualificada tem interesse em desqualificar o que lhe foge ao poder da manipulação da informação. Antes de pensar nas consequências éticas das fake news, é preciso pensar nas consequências éticas de toda a informação. Uma notícia dada por um grande veículo e um pequeno boato no Twitter podem ter os mesmos efeitos prejudiciais a uma coletividade ou a um sujeito” explica. A segunda dimensão é a pessoa que reproduz notícias falsas acidentamente ou inocentemente, sem a noção do mal que pode causar. Esta dimensão se opõe à terceira, que é o sujeito que intencionalmente produz fake news com objetivos perversos, para prejudicar outros.

Seria muito fácil falar que as fake news são terríveis, que podem estragar a vida de uma pessoa. Mas o Jornal Nacional também pode, o Globo também, e G1 também. O que é condenável é a intencionalidade. A sansão sobre o eu precisa ser exercida ou atribuída ao sujeito que intencionalmente produz uma notícia errada e a veicula, conscientemente. Eu me questiono, será que quem tem os meios de comunicação não pode, intencionalmente, manipular os rumos políticos? Uma capa de jornal é tão perigosa quanto um pequeno post fake,” conclui  Grokorriski.

Verdade versus fake news

Também conversamos sobre as novas mídias, tecnologias e fake news, que atravessam o conceito de verdade de muitas formas. “Acho interessante esse nome [fake news], porque ele mistura um pouco do jornal, da novidade, do falso, mas isso sempre esteve nas nossas relações sociais. Eu lembro de um professor que contava a história de um ladrão que virava as ferraduras do seu cavalo para confundir as pessoas, para que na investigação não se soubesse pra onde ele estava indo. Os boatos sempre existiram, acontece que isso é potencializado por meios eletrônicos”, relata Ricardo.

Sobre o sucesso e a facilidade com que as fake news conseguem influenciar as pessoas, Grokorriski argumenta: “Penso que o ser humano, não só na nossa sociedade, é receptível a toda e qualquer narrativa. A dúvida é uma coisa importante, pois faz com que você não aceite qualquer narrativa como verdadeira de primeira e eu acho que a Filosofia faz com que as pessoas operem bastante com a dúvida. De modo geral, eu acho que as pessoas tem preguiça de ter dúvida - posso estar sendo preconceituoso –, mas pela experiência que tenho com os alunos e grupos, me parece que as pessoas tem essa preguiça, afinal ela é cansativa e incômoda. Ao ter preguiça de ter dúvida, o caminho mais fácil é aceitar a narrativa do outro”. Grokorriski relembra que a literatur  ilustra essa relação com a dúvida quando opera com a dimensão do suspense, incomodando o ser humano.

Contudo, não se trata de considerar a sociedade influenciável. “Penso sem um olhar condenatório, é a condição que criamos da própria sociedade”, acrescenta Grokorriski. Quanto às impressões dos alunos sobre o conceito de verdade e o papel da Filosofia na educação, o Grokorriski revela: “Eu tenho percebido que os alunos trazem de suas casas um discurso pronto, sobretudo proveniente das suas vivências religiosas nas suas igrejas - e eu diria que especificamente nas igrejas cristãs - e essas verdades são tomadas como verdades absolutas. Meu o objetivo não é, em nenhum momento, desqualificar a religiosidade de ninguém, mas proporcionar que o seu pensamento se potencialize e que o aluno
questione as práticas cotidianas sua vida”.

Grokorriski acredita que o papel da Filosofia na escola é duplo. Em primeiro lugar, deve “destruir”, invadir as pessoas de uma forma um tanto violenta. “Óbvio que não pode destruir ao ponto que a pessoa fique desolada, é preciso que opere com prudência,” explica. E, em segundo lugar, a Filosofia irá colocar na mão do aluno instrumentos para que ele reconstrua aquilo que ele destruiu durante o processo inicial. “O papel da educação é fundamental para que se opere com a destruição de determinados conceitos e a geração de novos conceitos, sobre absolutamente tudo - mundo, vida, amores, família, política, relações sociais etc”.

Reportagem:

Fernanda Martorelli
Mirna Bazzi

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